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Outras ideias com Domingas Jacob Moreira

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A colcha na cama de solteiro parece milimetricamente estendida. Nas paredes, um quadro com Jesus Cristo crucificado, uma imagem do Sagrado Coração de Maria, outra do Sagrado Coração de Jesus e fotografias da filha e dos três netos. Em cima de uma cômoda, uma TV e, ao lado, um enorme anjo. A cozinha é igualmente impecável na silenciosa casa de Domingas Jacob Moreira, a moradora da casa 16 da Fundação Espírita João de Freitas, na Rua São Mateus 1.350. Tímida, a senhora com poucos fios brancos entre os ralos cabelos negros fala manso e com a cabeça sempre baixa. Sorri ao se lembrar de um passado que sempre preferiu a sabedoria do silêncio. Com um jeito que poderia figurar entre os grandes personagens de João Guimarães Rosa, a paulista de Penápolis, nascida em 20 de março de 1938, é de uma ternura excessivamente humana.

Filha de um índio com uma mineira, Domingas logo cedo se viu sozinha. A mãe morreu quando estava com pouco mais de 20 anos. O pai, um boiadeiro, também se foi jovem, assassinado no Paraná. Restou-lhe os irmãos Luzia e Orlando (ambos por parte de pai), dos quais acabou se afastando. “Luzia se casou com um militar e foi para São Paulo. Não vi mais. E meu irmão, também, não sei se é morto ou se é vivo”, conta. “Fui criada por irmãs de caridade”, completa ela, que do colégio interno foi para o convento em Passos, interior de Minas Gerais. “No convento, em seis meses aprendi a ler e a escrever. Da portaria, eu passaria para a clausura. Já ia receber o véu preto, igual a roupa de Santa Terezinha”, recorda-se.

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Os medos

A madre achava que Domingas tivesse vocação, mas isso não bastava para a jovem. Passados oito anos, ela desistiu do convento. “Quando ela morreu, foi enterrada no quintal, e eu, como era muito medrosa, acabei saindo”, diz envergonhada. “Com coisa de gente que já morreu, sou cismada. Não é medo de doença, mas medo de aparecer para mim”, ri. “Aqui na fundação, tenho perdido a cisma. Durmo sozinha e apago tudo”, acrescenta. Após alguma insistência, uma irmã de caridade a trouxe para Juiz de Fora, onde passou a trabalhar em casas de família. Nesse tempo, conheceu o pai de sua filha, engravidou, mas decidiu criar a menina sozinha. Aos 6 meses, Mônica e a mãe, com quase 40 anos, foram morar na instituição. “Na época, aqui aceitava viúvas e mães solteiras. Tinham muitas crianças, mocinhas. E eu fazia de tudo, trabalhava e morava”, lembra-se Domingas, uma das mais antigas na casa.

Os netos

Entre os serviços na fundação, Domingas levava e buscava a filha na creche, mais tarde, na escola. “Mônica saiu vestida de noiva daqui, para se casar na Igreja São Mateus”, conta, com os olhos brilhando, correndo para pegar o porta-retrato com as fotos dos netos Miguel Ângelo, de 13 anos, e Vitório e Valentina, gêmeas de 1 ano e 4 meses. Apesar da insistência da filha e do genro, que a visitam com constância, a senhora de estatura baixa e pele morena que honra a genética indígena do pai, nunca quis sair da casa que a acolheu. “Vivo bem aqui. Tem tudo o que preciso”, resume. Uma das poucas na instituição a fazer a própria comida, ela continua ajudando, hoje na rouparia. “Ajudo a separar as roupas que chegam para doação. E, na quarta-feira, ajudo no bazar. Não sei ficar parada. Sou eu quem faço a arrumação da minha casa e lavo minhas roupas”, orgulha-se.

O abraço

O universo de Domingas é aquele conjunto de casas pintadas de verde e um prédio amarelo. Religiosa, ela costuma sair para ir à missa, quando leva a amiga Luzia. “Quero ir à Catedral, para fazer confissão. Senão a gente morre, e cheia de pecados, não dá”, diz. A senhora tem muitos?, pergunto. “Ih, acho que tenho um monte”, responde ela, rindo. Pergunto, então, sobre sonhos. “Quando era mais jovem, ia à Natividade (RJ), onde apareceu Nossa Senhora, e à Canção Nova (SP). Tinha vontade de fazer essas viagens de novo”, diz. Enquanto isso não acontece, Domingas segue sua rotina: “Deito 23h30. Vejo as novelas, o jornal, depois vou na cozinha e dou uma arrumaçãozinha, venho e faço minhas orações. Quando dá umas cinco ou seis horas levanto, arrumo a cama, lavo o rosto, coo meu café, e aí começa a luta”, enumera. A vida, me diz nas sublinhas, é mais simples do que imagino. Agradeço. E ela me responde com um sorriso. Abraço-a, e ela, com a cabeça baixa, me acolhe com sua comovente ternura humana.

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