
Concebidas como objetos de arte, encadernações da Bodoque remontam cadernos do artista
Em tempos de tantos teclados – computador, celular, tablet e outros tecnológicos aparelhos – pegar papel e caneta é quase ação de saudosismo. É resistência. E como um ato desses, a exposição “A arte do ofício”, em cartaz na galeria Hiato – Ambiente de Arte até o próximo dia 11, se debruça sobre o valor do papel, do processo artesanal e da presença da arte em objetos cotidianos. “Talvez o principal seja, especialmente, a sensação de obsolescência do registro virtual. As coisas acontecem muito rapidamente na rede”, comenta Frederico Lopes, diretor da Bodoque – Artes & Ofício, que produz encadernações artísticas e faz restauros de obras em papel.
“Ao acompanhar os registros de nossas próprias vidas, por exemplo, pelo conteúdo das redes sociais, ‘autoeditáveis’, é possível perceber o quão volátil é o caminho que as opiniões, os momentos (registrados fotograficamente) e a própria vida tomaram. Pouca coisa permanece”, reflete Frederico, que, entre tesouras, colas, linhas e uma produção de arte, faz seus cadernos. “O processo artesanal vai na contramão desse ‘rolo compressor’ que tornou a própria vida um processo industrial rápido, eficiente e massificado”, completa ele, que agora apresenta 11 novos trabalhos, estampados por artistas de Juiz de Fora.
Reunindo as séries de dez (o que comprova o caráter artístico dos cadernos) e os originais dos artistas, além de outro trabalho representativo da carreira de cada um, a exposição acaba por contemplar procedimentos diferentes, como fotografia, pintura e desenho. Charleston Hokama, Fabrício Carvalho, Giuliano Alves, Guilherme Melich, Luiz Gonzaga, Matheus de Simone, Nina Mello, Petrillo, Ramon Brandão, Selma Flutt e Xurume formam um recorte que também ajudam a falar um pouco da cena das artes visuais do presente da cidade. Em comum, os trabalhos exalam certa preferência pela beleza das pequenas imperfeições.
Ateliê de bolso
“A ideia é valorizar essa produção, esses objetos de design que têm apelo estético muito refinado, além de divulgar e contribuir com os artistas de nossa cidade. Isso ajuda a formar um público frequente, porque mostra que a arte é algo mais fluido”, aponta Petrillo, artista visual e diretor da Hiato. “O objetivo é aproximar a arte, como campo do conhecimento, como conceito, do ofício, que envolve o fazer técnico, a relação direta do artista enquanto artesão, com o domínio técnico das possibilidades de transformação da matéria-prima. Queremos fazer obras de arte em suporte caderno”, reforça Frederico.
Para além do valor simbólico de um caderno de anotações, Frederico também destaca o papel que os mesmo sempre tiveram no sistema de arte. “O caderno sempre foi um companheiro fiel dos artistas. É ele o responsável por organizar ideias que deram origem a grandes obras de arte. Ele é o responsável por trazer à tona a genialidade aprisionada no imaginário do artista para a materialidade do mundo, onde todos podem tomar conhecimento. É uma espécie de ateliê de bolso”, diz. Numa metalinguagem, esses “ateliês de bolso” exibem e exaltam os ateliês reais, apresentando criações que podem, muito bem, ter brotado de um caderno.

