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Livre para ser o que quiser

criancas do projeto gente em primeiro lugar da funalfa vibram com coisas invisiveis

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Crianças do projeto
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Crianças do projeto “Gente em primeiro lugar, da Funalfa, vibram com “Coisas invisíveis”

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Eram gritos que vinham de todos os lados. “Aliiiii. Aliiiii. Olha láaaaa. Olha láaaa”. As cerca de 60 crianças da Associação Assistencial Adalberto Teixeira Freire Filho, atendidas por meio do projeto Gente em Primeiro Lugar, que compareceram na tarde da última quinta-feira ao Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, não conseguiam assistir, caladas e inertes, ao novo espetáculo do grupo de teatro local Corpo Coletivo. E não estavam erradas com a reação. Aliando teatro e artes visuais, “Coisas invisíveis” é interativo, e, sozinha em cena, a atriz Carú Rezende vive a saga da protagonista que dialoga com projeções do artista Rafael Ski. Repetindo a parceria com o grupo 4zero4, a trupe cumpre curta temporada neste sábado e domingo, às 18h, no CCBM.

Inspirado nos livros “As cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino e “Desumanização”, de Walter Hugo Mãe, o Corpo Coletivo criou uma menina que adora dançar uma dança livre, autêntica e despretensiosa. Uma dança que, aos olhos dos outros, chega a parecer esquisita. De tanto ouvir que não levava jeito para a coisa, vai aos poucos perdendo o movimento até virar uma estátua. Para virar gente de novo, ela precisa de amigos que aceitem sua dança. “A gente quer fazer com que as crianças não se envergonhem do que sentem, não se envergonhem de não estar dentro de um padrão que manda ela está onde ela está. O que mais a gente vê hoje é essa intolerância. Nada pode ser diferente, e qualquer um que foge do que é estabelecido como certo é visto como ridículo. É uma metáfora da nossa vida”, reflete a atriz, que, usando técnicas da contação de histórias, vai levando o espectador para os vários mundos da garota.

Enquanto Carú dança e pula em sintonia com as formas que vão surgindo no telão, as crianças vibram. “Nesse lugar, a imaginação tem mais força”, dispara a personagem, clamando pela ajuda dos pequenos, que, acomodados em almofadas, logo lançam uma enxurrada de perguntas. “Queríamos a meninada bem pertinho e confortável. Por isso as almofadas. A ideia é fazer com que as crianças entrem no quarto dos sonhos e deixá-las bem livres para sentir junto e fazer parte da história”, diz a atriz. Como que obedecendo ao comando da protagonista, as imagens se aproximam ou se distanciam. Diante de alguns, surge um avião, de outros, um foguete. Até que um elevador aparece para transportar a menina para a lua.

“Os cenários foram inspirados em paisagens imaginárias presentes em obras literárias que, apesar de infantis, nunca buscaram ‘infantilizar’ seu público. As ilustrações trazem em si essa alusão à paisagem. Mesmo quando a atriz se encontra confinada em seu próprio aquário ou subindo em um elevador, o que vemos são ambientes sem tamanho definido. Afinal, estamos numa viagem à procura de um lugar sem limites propostos”, diz Rafael Ski.

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“A relação com o livro do Calvino veio depois. Queríamos fazer um teatro atravessado pela tecnologia, que a projeção fosse mais do que adereço e transitasse entre ser personagem, atmosfera e cenário. Algo que é muito potente para a gente”, conta o diretor Hussan Fadel. Mergulhando em um universo totalmente novo, Carú saboreia os imprevistos a que está sujeita não só com seu público mirim, mas também com a tecnologia. “O ator sempre espera a energia de uma outra pessoa. Descobrir o ponto com as projeções ainda é o desafio, assim como trocar o tempo inteiro com a plateia de crianças. Elas são espontâneas, e nunca fiz teatro para esse público. Estamos ajustando a parte técnica e descobrindo formas de fazer com que isso se torne a grande magia sem perder a história”, diz Carú, explicando que, assim como o texto, a construção da personagem foi feita de forma coletiva. “Fomos conversando sobre o que queríamos falar do mundo. Começamos a falar da gente, do que temos medo, dos nossos sonhos, e chegamos ao ponto crucial de poder ser a gente mesmo, independentemente de qualquer coisa. Com esse tema, surgiu essa menina”, conta a atriz.

Pesquisa e experiência com crianças

Embora desde sempre tenha idealizado a participação das crianças, deixando brechas para que elas pudessem “entrar” na história, Hussan ainda se mostra surpreso com a troca estabelecida em cena. “Pensei em alguns gatilhos que as levassem a interagir, mas não sabíamos como seria essa interação. Mais do que transmitir uma mensagem, nosso objetivo é proporcionar uma experiência com elas. Ver como a criança vai reagir diante do que está sendo trabalhando no texto e com o uso da tecnologia”, diz o diretor, destacando o entrosamento com o grupo 4zero4, parceria que estreou em “Casa dos espelhos”. “Eles têm um uma linguagem muito parecida com a nossa no sentido de trabalhar a pesquisa e de sair do padrão. Eles compõem a partir de equipamentos não convencionais, o que para a gente é muito rico. A gente tenta se desestabilizar para chegar a algum lugar”, sentencia Hussan, comentando que a pesquisa para “Coisas invisíveis” começou em novembro, e a intenção é que, no contato com o público, o trabalho amadureça.

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Ainda em êxtase pelo espetáculo que acabou de assistir, Luiz Otávio Matias dos Anjos, 8 anos, descobriu que ninguém pode impedi-lo de ser o que quiser. “Gostei daqui. Posso dançar, pular, ser livre”, conta o menino, aluno de teatro do Gente em Primeiro Lugar. Um pouco tímida, Isabela Reis dos Santos, 6 anos, conseguiu descrever o que acredita ter visto. “Vi a menina dançando. O que mais gostei foi do astronauta. Ele é legal”, diz a pequena. Também atriz do projeto, capoeirista e dançarina de hip-hop, Thaís de Souza Reis, 8, rememora as maravilhas que descobriu ao se entregar à imaginação da menina. “Gostei da parte em que ela vira estátua e da parte que ela vai à Lua. Aprendi que posso dançar do meu jeito.”

COISAS INVISÍVEIS

5 e 6 de março, às 18h

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Centro Cultural Bernardo Mascarenhas

(Av. Getúlio Vargas 200 – Centro)

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