
Porta-bandeira do Pintinho de Ouro,dona Wilma Trigo se ocupa com os preparativos da festa que acontece a partir das 16h, no Parque Halfeld
Um dos responsáveis pela criação do Beco, José Eduardo Modesto dá a receita do samba de 2016. “Pegue uma pitada dos tambores de Angola, junte um pouco da roda de samba de batucada do Recôncavo Baiano, um pouco do autêntico jongo e caxambu mineiro. Misture bem. Adicione a malandragem do morro do Estácio de Sá, com muita alegria e melancolia, criatividade e versos…”, explica o folião, que se prepara para voltar às ruas nesta sexta, rendendo homenagens aos “100 anos do samba”. Com concentração marcada para as 18h30, no Parque Halfeld, o tradicional bloco de 43 anos de formação segue pelo Calçadão da Halfeld, com destino à Avenida Getúlio Vargas, por volta das 19h30, entoando composição de Carioca, Mamão e Toinho. Logo depois, no mesmo local, o carnaval antecipado de Juiz de Fora fica por conta da animação do Pintinho de Ouro.
“Estou de bem com a vida/ Por isso estou querendo mais/ O Bloco do Beco te convida/ A Festa já vai começar/ 100 anos de samba/ Não dá pra faltar/ Maestro, essa eu queria ver/ O samba não pode parar/ Pelo telefone/ Mandarão me avisar”, diz a canção, cuja letra nasceu não só para fazer uma ode ao centenário da criação de “Pelo telefone” (considerado o primeiro samba gravado no Brasil), de Ernesto dos Santos, o Donga, mas também fazer jus ao legado de outros grandes nomes do gênero, como Noel Rosa, Martinho da Vila, Elza Soares, Beth Carvalho, Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Cartola e “todos aqueles compositores e historiadores que são autores de sambas inesquecíveis que temos”, conta Paulo Gutierrez, um dos coordenadores da agremiação.
Se tem uma tradição que o Beco faz questão de manter é a de ter o compromisso de ter um samba-enredo próprio, a cada edição da festa, que, como de costume, é ritmada pela bateria da Escola de Samba Real Grandeza. Por falar em tradição, a maior delas é mantida até hoje, mesmo após as mais de quatro décadas de folia: É de bar em bar que esses eternos foliões reativam o fôlego para ganhar as ruas. “Claro que mantemos esse hábito. Todo sábado, a partir do meio-dia, estamos na Praça de Alimentação do Mercado Municipal. Na sexta e no domingo, no Bar do Chicão. O bloco foi criado dentro do Bar do Beco e dali fomos para a Rua Braz Bernardino, depois para outros pontos e já chegamos a montar o Beco outra vez. Esse é o nosso charme”, brinca Gutierrez.
Apesar da alegria com a proximidade da festa, uma tristeza paira sobre os fanfarrões. Afastada por causa de uma cirurgia, Nancy de Carvalho, a matriarca do Beco, não pulará o carnaval com os amigos de longa data. “Sabemos que ela jamais deixaria o Beco ficar sem desfilar. Por isso estamos saindo, também, em sua homenagem, para agradecer por tudo o que ela sempre fez por nós”, sentencia Gutierrez, certo de que bastam poucos minutos para “100 anos do samba” estar na ponta da língua do público juiz-forano. “É um samba pequeno. Com duas ou três vezes já dá para sair cantando.”
Convite feito para o desfile do Pintinho de Ouro
“Vem pro bonde, vem brincar/ É carnaval aqui é seu lugar/ No peito é só felicidade/ És alegria desta cidade.” O convite para a folia que o Pintinho de Ouro planeja para esta sexta-feira, a partir das 16h, no Parque Halfeld, já está feito. Com a composição de Edson Gaguinho – “Na nossa escola, a mãe dos pintinhos de ouro vem em 1º lugar” -, os integrantes do bloco prometem fazer a matriarca, dona Wilma Trigo, sentir ainda mais orgulho de seus queridos filhos. Personalidade do carnaval da cidade, ela é a única mulher a fazer parte da agremiação e, por isso mesmo, é o tema do desfile de 2016. “Não estou com frio na barriga, porque já estou acostumada com isso. Estou é com um calor danado”, dispara a protagonista da festa, ativa, aos 80 anos.
Conforme já foi visto nos carnavais passados, na nona edição, a rua será tomada por uma turma inteira trajada de jardineira, figurino idealizado por dona Wilma. Orgulhosamente, ela conta que decide o que seus pupilos vestem e que escolheu, para este ano, o rosa pink, acompanhado de camisa branca, blaser preto, meia branca e sapato preto com laço dourado e chapéu. Dona do posto de porta-bandeira, ela guarda, em segredo, o que que irá usar. “Nem os pintinhos sabem como é a minha roupa. Só posso adiantar que é rosa-pink”, comenta ela, ocupada com o corre-corre dos últimos preparativos para esse, que pretende ser, um verdadeiro baile da Corte, marcado pela bateria da Escola de Samba Unidos do Ladeira.
Embora o desfile aconteça hoje, a folia começou bem antes. No dia 19 de janeiro, foi lançado o CD com os sambas-enredos dos nove anos de desfile do bloco, cujo trajeto desta sexta termina na Praça da Estação. “Nosso bondinho é nossa alegoria e vai nos acompanhando. Quem conheceu sabe que é uma réplica do bonde que transportava as crianças do antigo Jardim da Infância”, diz o presidente da agremiação, Fernando Luiz Sirimarco, o Dida. Durante o percurso, para animar os mais festeiros, tem, ainda, clássicos do gênero e muita marchinha de carnaval.
Futuro do carnaval em JF
O Corredor da Folia ainda nem terminou e a Prefeitura de Juiz de Fora já anunciou para a março o início das reuniões para definir o carnaval de 2017. Este ano, a festa teve seu orçamento reduzido pela metade, e as Escolas de Samba não foram para a avenida. No “Debate CBN”, transmitido na manhã de ontem pela Rádio CBN Juiz de Fora, o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, falou sobre a necessidade de se encontrar um novo modelo de carnaval para o município. “Precisamos de uma nova forma de sustentação, em que o Poder Público vai estar presente na medida de sua capacidade de investimento e se enxergando como responsável por vários outros serviços que a cidade demanda”, afirma Toninho, apontando para o que ele acredita ser um dos caminhos para a comemoração.
“Temos que trazer as comunidades, reforçar os trabalhos das costureiras, das baianas, buscar essa sensação de pertencimento que, em muitas escolas, está fragilizada. Acho que isso nos dá o sinal para esse novo modelo que tenho falado tanto. Brinco dizendo que precisamos olhar mais para Rio Novo e menos para o Rio de Janeiro na construção desse formato. Nós não vamos ter um modelo industrial de carnaval, pelo menos, nesse momento inicial. É um outro universo, não dá para comparar. Pode ser que, no futuro, consigamos voltar a ser considerado o segundo, terceiro melhor carnaval de Escola de Samba do país.”

