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Entre o sempre e o agora

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Há exatos 50 anos, Edgar Morin observava que, para o mundo, o essencial já não era a experiência acumulada, mas sim a adesão ao movimento. Em sua obra Cultura de massas no século XX, o filósofo francês diagnosticou, sem rodeios, que a sabedoria dos velhos havia se transformado em lenga-lenga. A juventude passava a dar as cartas, trapaceando a favor das novidades. Descaradamente. Mesmo os atores experientes no cinema, embora acumulassem anos de vida, continuavam apregoando virilidade e beleza, eternamente jovens. Morin desvelou o cenário, e a contemporaneidade deu conta de escancarar o resto. Hoje, a longevidade na arte ainda é uma busca, mas não se sabe se ela existe desvencilhada de certo peso. Fica a questão: como agir – e sobreviver – em meio à ânsia pelo novo?

Durante a abertura da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, dia 20 de janeiro, o ator Selton Mello comentou sua cisma em resgatar estrelas esquecidas, como a atriz Darlene Glória. Todos querem saber qual é o novo da vez, mas eu sou ligado no velho, explicou. Darlene – assim como Ferrugem e Moacyr Franco, presentes no longa O palhaço – enfrentou um hiato em sua carreira. Outros artistas, entretanto, seguem produzindo regularmente, desafiando os temporais de modismos.

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O psicólogo Fernando Elias José, especialista em ciências cognitivas, também destaca as cobranças da sociedade. Segundo o estudioso, a procura por mudanças é algo inerente ao ser humano e deveria auxiliá-lo no progresso. Sem objetivos consistentes, porém, a corrida pela novidade extrai a essência do indivíduo. Leão cita a onda punk para comprovar a imposição mercadológica. Conforme menciona ele, o movimento nasceu legítimo, mas, logo depois, foi comprado pela indústria cultural. Na opinião de Fernando Elias, todo artista precisa estar atento a esse tipo de pressão, sempre aberto ao revigoramento, mas sem entregar ao público e ao mercado apenas o que eles pedem.

Embora tenha montado As mona lisas, de Wilson Coca, pensando no retorno financeiro, foi exatamente com esse projeto que o diretor Pádua Teixeira não ganhou dinheiro algum. O tiro saiu pela culatra. Descobri que não adianta sair da rota. Tenho que fazer o que gosto, diz, somando 30 anos de carreira. Diretor-executivo da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança em Belo Horizonte, Pádua afirma que sempre gostou de produzir musicais, mesmo quando o gênero não estava em alta. Para 2012, ele planeja Romeu e Julieta, de William Shakespeare, ao som dos Beatles.

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Esta edição da campanha traz o slogan a arte que conecta. Segundo o diretor-executivo, o teatro não está fadado à morte, uma vez que se baseia na energia do ao vivo, mas não pode se esquivar das inovações, inclusive das tecnológicas. Promovido há 38 anos na capital, o evento reúne 350 mil espectadores e divide a cena com um concorrente, o Verão Arte Contemporânea. Há espaço para todos, garante Pádua. Aos 80 anos, o ator e radialista Natálio Luz engrossa o coro. Tendo vivido a chegada da TV e a consequente agonia do rádio nos anos 1960, ele contribuiu para o reposicionamento dos programas radiofônicos. Tivemos que encontrar saídas, como o diálogo com o ouvinte. Hoje, todas as mídias convivem, cada uma com sua especificidade.

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Arte e verdade

Renato Ferracini, integrante do Lume Teatro, prega o equilíbrio entre velho e novo. Ou melhor, defende o fim da dicotomia. Nossa proposta de criação acontece a partir da tradição, aponta. De acordo com Ferracini, Luís Otávio Burnier, fundador do grupo, costumava dizer: o Lume não é. Vai sendo. Completando 25 anos, a trupe de Campinas – que promove o Terra Lume 2012 com seus tradicionais cursos até 17 de fevereiro – continua valorizando a relação com o outro, seja usando apenas palco e plateia, seja mediando a conversa com a tecnologia. Já que teatro é relação, resta saber como organizá-la em tempos de internet. Para Edson Leão, aliás, a web relativizou a ideia de tendência, juntando tudo no mesmo balaio. Segundo o músico, se a ferramenta estimula o efêmero, resgata como nenhuma outra o passado.

Prestes a lançar o espetáculo Os bem-intencionados, envolvendo todo o grupo pela primeira vez após quatro anos, Ferracini não se sente pressionado. Fazemos o que nosso interior pede. Não queremos renovar a cena brasileira. Queremos nos renovar. O artista plástico juiz-forano Carlos Bracher também não se preocupa com a responsabilidade trazida pela experiência. Não tem medo de ficar para trás. Para ele, importante é fazer da arte a ciência da verdade. As modas vêm e passam. O que vale é a pessoa se expressar com sinceridade, atesta, pelo telefone. Em visita ao Paraná, ele trabalha em uma série encomendada pela Petrobras.

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Desbravadores

Na visão do diretor do Grupo Divulgação, José Luiz Ribeiro, as pessoas que se ocupam não deixam a idade alcançá-las. Não tenho tido tempo nem de envelhecer. Comemorando 46 anos de companhia e quase 50 de palco, Ribeiro conta que já assistiu a supostas revoluções teatrais sabendo que a história é feita de sucessões e retornos. A vanguarda é sempre a retaguarda que o mundo esqueceu, sentencia, citando a peça Ricardo II, escrita por Shakespeare no século XVI, como o grande sucesso em Londres atualmente.

Segundo o psicólogo Fernando Elias José, para afiar a autodefesa diante do efêmero, o indivíduo precisa estar seguro e não se importar com a opinião alheia, consciente de seus objetivos e de uma possível rejeição. Mas o contrário também pode acontecer, sendo o artista o desbravador de uma inovação que vem para ficar. A escritora Mary França passou por esse desafio ao ser a primeira autora infantil a usar qualquer palavra em seus livros, entendendo que o novo é o desconhecido, conforme propôs o pensador Jean Piaget. As editoras demoraram a aceitar, por exemplo, ‘bezerro’ em vez de ‘boi’, pois consideravam a primeira palavra mais difícil. Hoje, isso não é mais novidade. Mary – que relançou ao lado do marido Eliardo França O rei de quase-tudo, de 1971, em uma versão para iPad – continuava produzindo quando viu seu pensamento ser aceito. Privilégios da longevidade. Quanto aos incômodos, Edson Leão garante que também são bem-vindos. Afinal, a outra opção é morrer jovem. Ou pior, morrer em vida.

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