Tiradentes – Alguma coisa aconteceu no cinema nacional nos últimos anos. E a tentativa de destrinchar essa mudança marcou o acalorado debate Renovação no cinema brasileiro, que durou duas horas e meia e encerrou o 15º Seminário do Cinema Brasileiro, integrado à programação da Mostra de Tiradentes, no último final de semana. Diante de um auditório lotado e de uma plateia virtual formada por cerca de 140 pessoas que acompanhavam o encontro pela internet, expoentes da cena audiovisual contemporânea tentaram estabelecer conexões entre o que vem sendo feito, embora a existência de uma unidade estética ou de um Novíssimo cinema brasileiro tenha sido veementemente negada.
Ao abrir a mesa, o mediador Cleber Eduardo, que é professor e crítico de cinema, usou números para pontuar a mudança de cenário. Se, em 2003, 55 novos filmes nacionais estrearam em festivais e circuitos comerciais, em 2007 essa marca chegou a 108 lançamentos. Em 2009, foram 155. Ele também chamou atenção para um rejuvenescimento dos diretores. A gente nota, nos últimos dez anos, uma diminuição progressiva da idade média dos estreantes. Hoje temos cineastas começando com 20 anos. Isso era impensável na década de 1980.
Grande vencedor do Festival de Brasília no ano passado por O céu sobre os ombros, o diretor mineiro Sérgio Borges, integrante do coletivo Teia, levou ao debate a opinião de que a grande característica comum à geração atual está na forma de produção. Partindo de sua experiência, ele lembrou que, com o advento das câmeras digitais e ilhas de edição caseiras, mais do que nunca, as pessoas têm a oportunidade de aprender fazendo, estando menos atreladas a uma escola. Soma-se a esse contexto o crescimento do número de festivais, trazendo novos espaços de exibição e ampliando o diálogo entre quem faz cinema. Isso mudou a postura dessa geração, que, em vez de entrar no meio como um assistente de direção, pode ter uma câmera para experimentar. E esses grupos estão aprendendo muito mais com a prática e a troca de experiências entre eles
Outra novidade notada por Borges é o enxugamento das equipes de filmagem, que ganham contornos mais simples, mesmo em filmes maiores. Possivelmente, são pessoas interessadas em fazer um cinema autoral e simplório, pontuou, enfatizando que isso ainda não é uma regra. Até mesmo porque, para ele, a produção contemporânea está nas mãos de um grupo indefinível, com muitas diferenças em termos de visão e linguagem.
Ao assumir o microfone, o cineasta cearense Guto Parente, membro do coletivo Alumbramento, foi mais ponderado. Para ele, ainda é preciso um distanciamento histórico para que se compreenda o que vem acontecendo. Criticando o termo Novíssimo cinema brasileiro, como vem sendo considerada, por alguns, a geração atual, Guto defendeu que não existe um movimento estético acontecendo. Os filmes são muito diferentes, e os cineastas não estão acomodados. Eles querem buscar seus próprios caminhos.
E se a busca por novidades é a palavra de ordem, Guto recomendou ao público que tenha foco em fazer um cinema transformador, longe de panelinhas. Temos que nos colocar no lugar de aprendizes e pensar em como envelhecer dentro do cinema. Fazendo coro com Borges, concluiu com a afirmação de que é hora de se aprender com a prática.
Já a produtora carioca Vânia Catani, que também fez parte da mesa, aproveitou os momentos finais para dar uma espécie de puxão de orelha nos jovens diretores, que negaram rótulos e não esconderam o receio em assumir a posição de fortes nomes da nova leva de cineastas. Vocês devem aproveitar esses estigmas para se organizar e intervir em questões que sejam de interesse de vocês. Precisam assumir a responsabilidade.
* O repórter viajou a convite da mostra
