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Exercício da escrita em “Seus olhos subiram o morro”

Daniel Valentim
Daniel Valentim
O juiz-forano Daniel Valentim Mansur afiou sua escrita em redações de jornais de Manaus (foto: Divulgação)
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E depois de ter o livro pronto, o que se faz? Não basta ter toda a criatividade para escrever linha por linha durante um bom tempo enfurnado em uma sala. O esforço pode ser, muitas vezes, ao acaso se uma editora não encontrar e publicar. Existe, sim, a possibilidade de um financiamento coletivo, mas o caminho é longo da mesma forma. Para Daniel Valentim Mansur existiu uma outra possibilidade. “Aos trancos e barrancos”, como ele mesmo definiu, ter uma editora própria foi o grande achado. O feito foi reafirmado ao conhecer a impressão por demanda na época em que frequentava feiras literárias para trazer novidades à padaria-livraria que ele tinha em Juiz de Fora, a Bartlebee – nome também de sua primeira editora, fechada em 2017. Quatro anos depois, em setembro de 2021, seu quarto livro, “Seus olhos subiram o morro”, também de contos, calhou de sair pela sua nova editora, a Uboro Lopes, que tem um foco bem específico: terror, ficção científica – ou “ficção esquisita” – e fantasia.

“Seus olhos subiram o morro” acaba por reunir todos esses gêneros. “É nisso que eu tenho interesse”, ele diz. O primeiro livro do autor, “Manual prático das ocupações perdidas”, também era de contos, mas, de acordo com ele, trazia mais lirismo que narrativa. Os outros dois, “Da cor que faz” e “Dito apenas que comido”, são de poemas: outro interesse desenvolvido na descoberta da escrita, iniciada desde sua graduação em jornalismo e, logo depois, nas redações de jornais do Amazonas, onde ele morou desde os 7 anos – e de onde diz tirar suas referências – até voltar a Juiz de Fora para fazer mestrado e doutorado em estudos literários na UFJF. “Seus olhos subiram o morro”, o livro mais recente, ele viu como um desafio e um exercício: “queria ver se eu sabia contar história”.

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A história que se abre na escrita

Brian Everson, escritor americano, foi quem, indiretamente, abriu algumas portas para Valentim. O livro de Brian “Canção para o desabar do mundo” foi o primeiro que o juiz-forano traduziu para o português, para lançar pela Uboro Lopes. Foi a partir deles, também, que ele teve a ideia de escrever as quatro narrativas que comporiam “Seus olhos subiram o morro”, trabalho que começou em 2019. O ritmo engatou quando pensou: “Vamos ver se vai dar certo”. Depois disso, ele afirma que os textos foram saindo, escrevendo um pouco todos os dias, dividindo o dia entre os outros trabalhos de tradutor, editor e, não menos importante, pai de quatro filhos, até finalizar em 2021. O único esboço que ele já tinha era do conto “Paris, ’99, um loop”, que relata a história de um jornalista policial vivendo em Paris, confuso entre memórias que transitam entre o real e o irreal. Os outros três, “As vitrolas de Vilém”, “Casulo” e “Seus olhos subiram o morro”, foram surgindo à medida em que ia escrevendo. Da mesma forma que ao leitor um livro é desconhecido na primeira página, ao escritor, muitas vezes, também é assim.

Sensações que ficam e transformam o gênero

Esses gêneros adentrados por Valentim trazem em si uma necessidade de descrição para que o susto ou a surpresa apareçam ao longo do enredo. Para ele, isso foi, de certa maneira, fácil. Quando novo, já era aficionado por terror, do tipo que alugou todos os filmes do gênero nas antigas locadoras. “Tem coisa que vai ficando. Ao escrever, eu lembrava daquelas sensações que eu sentia, as referências de imagem, e fui escrevendo com base nisso.” Um de seus trabalhos como jornalista foi dentro da editoria de polícia. Acompanhar essa realidade também influenciou na escrita. “Tem coisa que acontece na vida real que a gente acha que só pode acontecer em livro. É cada coisa escabrosa”, relembra.

Especificamente em “Seus olhos subiram o morro”, a vida pessoal acende. Em 2019, Valentim passou por um trabalho na área rural com um tio e gostou. Essas imagens foram o que o guiaram para relatar um mistério que se passa na roça – sendo esse o que mais pertence ao gênero terror. “Casulo”, por sua vez, é sobre um professor que se transforma em um pé de maçã. Aí está a “ficção esquisita”. A científica é a que abre o livro. Em “As vitrolas de Vilém” uma inteligência artificial se disfarça de livreiro numa praça de Amsterdã.

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Duas faces da mesma moeda

Como escrever é apenas um dos processos de um artista independente, Valentim ainda diagramou e revisou seu próprio livro. Como quase tudo, ele aponta as dores e as delícias de essas funções estarem a cargo da mesma pessoa que escreve. “Como eu crio tudo, eu consigo controlar mais as coisas. Tenho uma liberdade de escolher. Está aí, também, a parte negativa. Com tanta liberdade e sozinho, deixo de ter uma parte crítica que ajuda mais ainda para ir além da ideia. Não tem diálogo. São as duas faces da mesma moeda.”

É Valentim também quem diagrama, revisa e elabora a capa dos livros de outros autores lançados pela Uboro Lopes. Ele revela que a ideia para 2022 é que a editora lance dez livros, um por mês, a partir de março. Entre os já certos, tem inéditos em português e lançamentos nacionais, sendo eles: “Mil placebos”, de Matheus Borges; “O grande acontecimento”, de Belcampo; “Histórias de monstros”, de Juan-Jacobo Bajarlía; “O minotauro fuma um cigarro”, de Steven Sherryll; “Ritual”, de David Pinner; “Instanciação”, de Greg Egan; “Love will tear us apart”, de Fábio Fernandes; “Passarinha”, de Bruno Bandido e um ainda sem título de Bruno Ribeiro.

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