
“Pauta”, de Raphael Couto
Performance de Rodrigo Munhoz, do Amor Experimental, com massa do mesmo peso que o seu
Corpo Informático em ação com suas birutas
Bastam alguns minutos. Num curto espaço do tempo (com raras exceções) uma performance começa e acaba. Mas não se esgota. “Todo mundo, hoje, é vítima da efemeridade. Isso é uma característica de nossa sociedade hoje”, comenta o artista paulista Rodrigo Munhoz, que assina como Amor Experimental, um dos convidados da terceira edição do Festival de Artes do Corpo, que começa nesta quinta e segue até sábado, no Instituto de Artes e Design da UFJF. Reunindo expoentes da performance contemporânea e pesquisadores brasileiros, o evento discute a expressão, investigando as possibilidades de registro de experiências tão fugazes. “Ela, por si só, já é efêmera, porque não deixa uma matéria. Não é um objeto, mas depende de um, enquanto registro e proposta. A documentação mecânica, o vídeo e a fotografia nunca dão conta do que o trabalho é. Ao mesmo tempo, a performance depende dessa documentação para existir por outros tempos”, analisa o artista Raphael Couto, do Rio de Janeiro, que participa de uma mesa nesta sexta, às 10h, questionando as formas possíveis para que os trabalhos realizados hoje não se percam.
Segundo Raphael, o problema de registrar ou não uma performance é puramente conceitual. A fugacidade não seria uma característica fundamental na expressão? Para ele, não há regra. “O mesmo trabalho pode ser uma ação efêmera, com uma documentação que o registre, e também um vídeo, que é o produto, a obra”, diz. “O vídeo pode dar conta dessa geração que trabalha de maneira imaterial. A grande discussão é até que ponto os registros dizem sobre a obra e podem existir enquanto obra de arte. Até que ponto o documento não é criação?”, pondera o artista que integra a coletiva “20”, na galeria Mercedes Viegas, no Rio de Janeiro, com curadoria da igualmente contemporânea Daniela Name.
Erro é desvio
De acordo com Rodrigo Munhoz, a fotografia com sua “apreensão do tempo” pode assegurar alguma posteridade, mas nunca atinge o que o “ao vivo” proporciona. “Quando performo, me percebo expandido. Perco a noção de tempo e espaço. E essa experiência é muito maior que qualquer documentação. A performance está para além da mistura do domínio das artes”, conta ele, que nesse sentido nomeou sua plataforma colaborativa, na qual convida outros artistas para performarem juntos. “Amor Experimental faz menção à performance enquanto arte da pessoa. A única marca dela é a ação de alguém praticada ao vivo. E essa relação com o outro é bastante próxima da ideia de amor”, explica.
Para a apresentação desta sexta, às 18h30, o artista não convidou ninguém em específico, mas demonstrará o quanto as reações e as relações com o público são fundamentais. Em “Dispositivo disparador de presença”, ele utiliza uma caixa arquivo da qual retira referências diretas aos outros participantes do festival, para serem usadas por desconhecidos. O objeto de trabalho de cada performer será, então, ressignificado. “De cinco anos para cá, a cena se expandiu bastante. A performance é um modo contemporâneo de lidar com o mundo. Ela não tem o comprometimento nem com a verdade e nem com o acerto. O erro vira desvio”, pontua.
Autor de performances inquietantes, como a que utiliza uma massa feita com farinha, óleo e água, com o mesmo peso que o seu e com a qual entra em luta, Rodrigo procura se aprofundar em questionamentos e não apenas chocar sua audiência com gratuidades. A massa, em questão, pode fazer referência à massa enquanto povo, mas também ao próprio corpo em sua precariedade. “A performance aproxima dois campos: a arte e a vida cotidiana”, destaca. E essa junção pode ser sentida, também, no trabalho do coletivo brasiliense “Corpos informáticos”, um dos mais importantes do país, que ministra palestra nesta sexta e se apresenta no sábado, com “Birutas: para lamber vento”, na qual brinca com a interpretação de biruta como tubo de tecido, usado para sinalizações, e pessoa maluca.
O coletivo, assim como outros artistas e pesquisadores presentes no festival, defende que, por trás dos poucos minutos nos quais acontecem as performances, há um tanto de outros minutos e horas necessários para a reflexão. Em seu artigo “Performance: modos de estar e transformar”, uma das principais curadoras e críticas da arte contemporânea nacional resume bem a discussão: “A performance é a arte da fricção com a vida e, em qualquer área que se coloque, instiga pelo seu hibridismo e polissemia, sendo uma via para questionar disciplinas engessadas, desconstruindo estruturas e padrões estabelecidos.”
FESTIVAL DE ARTES DO CORPO
Palestras, performances, exibição de vídeos
De 4 a 6 de dezembro, a partir das 10h
Instituto de Artes e Design
(Campus da UFJF)

