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JF por outros caminhos

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Os moradores de uma cidade também são habitados por ela. Diz o poeta João Cabral de Melo Neto: "Tenho Sevilha em minha casa. Não sou eu que está chez Sevilha. É Sevilha em mim, minha sala. Sevilha e tudo o que ela afia." Com essas palavras, o professor e presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Marcos Olender, abre seu artigo incluído no livro "Vivendo a história – novas pesquisas", organizado por Mônica Ribeiro de Oliveira e Cláudia Maria Ribeiro Viscardi, docentes do programa de pós-graduação em história da UFJF. Os versos de Melo Neto comprovam a estreita relação que um sujeito pode estabelecer com seu espaço, após compreendê-lo e respeitá-lo.

Buscando seguir nesse curso e contribuir para a valorização da memória local, Mônica e Cláudia lançaram, na última quinta, um box com obras voltadas para professores e alunos dos ensinos fundamental e médio. Além de "Vivendo a história", o kit contém a publicação "À margem do caminho novo – experiências populares em Juiz de Fora" e o DVD "Juiz de Fora: imagens da história". O projeto foi realizado com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig). Dois mil exemplares serão entregues às instituições estaduais e municipais, além de algumas particulares.

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Segundo as organizadoras, no Brasil, sempre foi conhecida a distância entre a produção acadêmica das universidades e as salas de aula das escolas. Assim, os professores contam, muitas vezes, somente com o livro didático para se atualizar. O problema, como frisa a apresentação de uma das obras, é que esse material promove distorções e não possibilita um conhecimento menos pasteurizado. "O papel das universidades é expandir as informações sistematizadas para a comunidade", aponta Cláudia.

 

As publicações reúnem pesquisas feitas com aportes documentais locais (ente eles, os do Museu Mariano Procópio) e que pretendem articular a trajetória da cidade aos grandes acontecimentos nacionais e internacionais. "As escolas daqui carecem de ferramentas como essas", comenta Mônica, organizadora também do volume "Juiz de Fora – vivendo a história", lançado nos anos 1990 com verba do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE – MEC). Distribuído para a rede municipal, o livro está esgotado.

Para facilitar a leitura dos jovens, os autores utilizaram linguagem simples e direta, principalmente em "Vivendo a história – novas pesquisas", um projeto paradidático e com temas mais gerais. O professor de ensino médio Lenilson da Silva Araujo, por exemplo, inicia seu texto "A luta pela cidadania na Primeira República", perguntando: "você sabe o que significa ser cidadão?". De acordo com ele, não foi difícil encontrar o tom certo para narrar aos alunos as estratégias usadas pelos excluídos, no início do século XX, na luta por seus direitos. "À margem da política formal, eles recorriam a requerimentos entregues à Câmara Municipal e aos jornais locais."

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"O Pharol" recebia reclamações variadas, como problemas de calçamento e falta de capina. Segundo Lenilson, os periódicos eram instrumentos de atuação na esfera pública até mesmo para os analfabetos, cerca de 70% da população. Nesse período, somente 5% votava. "Por outro lado, todos podiam fazer queixas", observa o autor. Seu artigo mostra uma reclamação de 1916, na qual um grupo de marceneiros pede proteção e afirma que fábricas do Rio de Janeiro e de São Paulo estão tirando "o pão dos operários da cidade".

 

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Indesejados

A população que ficou de fora do progresso local, ocorrido no final do século XIX e início do século XX, é o eixo temático de "À margem do caminho novo – experiências populares em Juiz de Fora", obra mais aprofundada, porém, também acessível aos jovens. Conforme Cláudia Viscardi, os três itens do box podem ser utilizados em conjunto, já que o DVD traz imagens de Juiz de Fora desde sua fundação e faz referência aos assuntos tratados nos livros. Para Marcos Olender, ao conhecer o que passou, os estudantes podem discutir soluções para problemas presentes. "Esse é o papel do historiador", compara. As publicações descortinam, entre outras questões, o movimento dos professores entre 1930 e 1950 e a participação das mulheres no golpe de 1964.

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O passado local também foi construído por escravos, operários, imigrantes, ciganos e mendigos. De acordo com Isabel Borges, em seu texto "Curiosidades urbanas: os jornais e a cidade", as inquietações com a vida urbana já estavam presentes no período de formação e crescimento de Juiz de Fora. Uma delas era o incômodo com os considerados "marginais" ou "indesejados". Segundo Mônica Oliveira, no país, a tendência em estudar a trajetória dos excluídos surgiu já na década de 1970. Em Juiz de Fora, o processo despontou há cerca de 20 anos. "Essencial agora é divulgá-lo para professores e alunos."

Entre as várias curiosidades trazidas pelas pesquisas, está um aviso publicado na edição de 13 de fevereiro de 1881 de "O Pharol", endereçado à pobreza. Nele, o senhor Joaquim Coelho Dias oferece certa quantia por pessoa após a missa de sétimo dia de sua esposa, conforme pedido dela. As estratégias de amparo e proteção promovidas pela comunidade, aliás, também aparecem nos trabalhos. "Nossa intenção foi mostrar o outro lado", explica Cláudia Viscardi.

 

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Os estudos de Sonia Maria de Souza, professora da rede municipal e membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) da UFJF, evidenciam o rumo tomado pelos escravos da região após a abolição. "Não houve debandada. Eles não foram para os grandes centros como muitos acreditam." Livres, os negros procuraram ter acesso a um pedaço de terra para sobrevivência. Apesar das dificuldades, como menciona Sonia, isso era algo possível. "Essas pessoas mantinham uma relação simbólica e cultural com a terra, diferentemente dos fazendeiros." A autora constata ainda que a cidade não era feita só de café: "Em Torreões, antes São Francisco de Paula, por exemplo, havia muita produção de cana-de-açúcar".

Com relação à escravidão, o DVD "Juiz de Fora: imagens da história" traz fotos e anúncios de jornais, como o de uma negra e seu filho, logo abaixo de um aviso de venda de cavalo. "Não foi fácil encontrar imagens de escravos. Tivemos que recorrer a anúncios de fuga", comenta Mônica Oliveira, ressaltando que os professores precisam mediar o contato dos estudantes com esse material. O DVD, que conta com trilha sonora da banda de jazz local Brazil Zil, traz ainda trechos de filmes do cineasta João Carriço, cedidos pela Divisão de Memória da Funalfa. Em um dos registros, a população comemora a inauguração do primeiro posto de gasolina.

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