
“Canto do serrote”, de Ricardo Cristofaro
“O ensaio da banda”, de Ramon Brandão
Na obra perto de casa, o som do serrote tornou-se, dia a dia, uma incômoda companhia. “Era um lamento que vinha do lado.” Aos poucos, Ricardo Cristofaro percebeu que a tal serra que a tudo cortava tinha como base uma velha tábua de madeira, registrando cada secção ali feita, em cerâmica, ferro ou madeira. Quando a tábua, cheia de marcas, mostrou-se desgastada, pronta para o descarte, o artista visual, professor e diretor do Instituto de Artes e Design (IAD) foi até a construção e pediu para si. Queria o registro de meses de trabalho, meses de estresse. “Minha intenção era ter essa memória do desconforto”, diz Cristofaro, autor de “Canto do serrote”, obra que dá à madeira o status de arte, exposta em “O que vejo é música”. Integrando a programação do 26º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, a mostra que inaugura nesta quarta, às 18h, na galeria Renato de Almeida do Centro Cultural Pró-Música/UFJF, reúne artistas, professores e alunos do IAD, explorando a relação entre som e plástica.
A tal tábua, que sentiu o serrote cantar, agora é silenciosa na leitura de Ricardo Cristofaro, responsável pela curadoria da mostra, assim como muitas outras obras em exposição, que se aproveitam dos ruídos e acabam por resultar em trabalhos extremamente “calados”, ou o inverso. “Se há intencionalidade musical, você terá música? Se há intencionalidade plástica, terá uma produção artística?”, indaga Cristofaro, apontando para o questionamento que sugerem os trabalhos . Enquanto a pintura de Ramon Brandão, que mistura boemia, dança e grupo musical, induz à música, a instalação de Paulo Alvarez sugere taciturnidade.
Ao passo que a pintura de Priscilla de Paula recorre ao gesto do músico, Valéria Faria enfoca uma palavra do vocabulário musical. A caixa intitulada “Toque de recolher” agrupa objetos antigos em meio a pequenas esculturas de anjos barrocos. “É uma leitura nostálgica das coisas paradas no tempo. Objetos que fizeram parte da minha vida e hoje não estão mais na ativa, foram recolhidos”, comenta. À medida em que Sandra Sato reproduz três fones de ouvido com objetos cotidianos como um coador de metal, Maurílio Souza esculpe uma mulher nua, possivelmente uma bailarina. Tonil Braz engaiola um alto-falante com o som de pássaros e Afonso Rodrigues “aprisiona”, em uma pequena caixa, objetos “cantantes”, como uma partitura e um passarinho.
Em comum, os trabalhos de “O que vejo é música” ambicionam a tensão de termos, de desejos, de intencionalidades. Utilizam-se de meios diversos, como Adriana Gomes e seu vídeo “Cosmo-visão”, para dar conta de uma ideia que já não se compreende em palavras. “Belas artes, artes plásticas, artes visuais. Nenhuma dessas três palavras dão conta do que está sendo feito hoje. Qualquer possibilidade de materializar uma ideia é válida para o artista hoje”, pontua Ricardo Cristofaro, dizendo desse artista contemporâneo que chega a funcionar como diretor, relacionando-se com diferentes fazeres, como teatro, cinema e música.
Sinfonia de linguagens
Segundo Ricardo Cristofaro, a existência do som nas artes visuais perpassa o século passado, em diferentes pesquisas que buscavam plasticidade a partir do áudio. O alemão Paul Klee, por exemplo, conseguiu fazer desenhos tal qual transcrições de músicas, como defendia o poeta Rainer Maria Rilke. “Quando a linguagem artística se apropria do audiovisual, o som adentra no universo de produção dos artistas de maneira incontornável”, explica Cristofaro, apontando para um fenômeno hoje já naturalizado no meio, em galerias e museus. “Artes visuais, assim, é um termo colocado em xeque, porque a produção vai muito além do olho”, completa o professor.
“O conceito da arte está sempre mudando. Até pouco tempo, éramos chamados de artistas plásticos e a plasticidade não deu conta. Hoje, a visualidade também não dá”, concorda Valéria Faria, destacando que as leituras são sempre subjetivas. Nesse sentido, segundo a pró-reitora de Cultura da UFJF, a exposição se compreende como um lugar, para além da exibição de trabalhos, de investigação acadêmica. “É importante que o festival crie essa ponte com todos os outros conhecimentos e saberes”, diz, justificando, assim, a manutenção – mesmo diante de muitas alterações – da iniciativa, presente em muitos dos outros 26 anos do festival.
“O que vejo é música”, ainda, é uma espécie de continuação de outras três exposições que aconteceram na programação de edições passadas do festival. Enquanto “Plásticas sonoras” foi apresentada em 1999, “A miséria do homem é apenas a da alma” foi em 2002 e “O que vejo é música” (primeira versão), em 2013. Para o curador, o novo desafio foi estabelecer, num mesmo espaço, diferentes gerações, expressões e relações plásticas, afetivas e estéticas com o som. “Buscamos uma diversidade de linguagens que funcionasse como diversidade de interpretações dessas aproximações”, destaca, citando os trabalhos das professoras Adriana Gomes (de São Paulo), Paula Scamparini (Rio de Janeiro) e Letícia Bertagna (Rio Grande do Sul), recém-chegadas à UFJF, como essas novas fontes que se agregam à produção juiz-forana, formando, assim, a múltipla cena contemporânea local, a sinfonia do hoje nas artes visuais (ou no termo porvir).
“O QUE VEJO É MÚSICA”
Abertura hoje, às 18h. De segunda a sexta-feira, das 9h às 18h. Até 28 de novembro
Galeria Renato de Almeida, no Centro Cultural Pró-Música/UFJF
(Av. Rio Branco 2.329 – Centro)

