
Trilogia desencadeia boom da literatura erótica
Pouco antes de morrer, reclusa em uma chácara em Campinas, a escritora Hilda Hilst, morta em 2004, atiçou os críticos que a acusavam de obscena. "Não sei por que tanto espanto, todos temos sexualidade e erotismo, somos seres com esses complementos. Temos sexo, genitália, desejos. Freud já falou disso tudo no começo do século", disparou em entrevista à imprensa. A poeta e dramaturga, que cursou o então primário e ginasial em um colégio de freiras em São Paulo, surpreendeu ao deixar aos leitores um legado que inclui a trilogia pornográfica composta por "O caderno rosa de Lori Lamby" (1990), "Contos d’escárnio – Textos grotescos" (1990) e "Cartas de um sedutor" (1991). A primeira publicação não só rendeu à dramaturga a popularidade, como é assunto de diversas pesquisas acadêmicas. Entretanto, a autora paulista está longe de ser a única a retratar o tema.
O êxito das vendas do best-seller "Cinquenta tons de cinza", lançado em agosto deste ano no Brasil, da britânica E L James, esquenta os debates acerca desse filão. Com algumas doses de sexo e romance típico de novela, a obra tem feito homens e mulheres imergirem nas descobertas sexuais e amorosas de Anastacia Steele. O livro já ultrapassou o número de 40 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. À disposição do público brasileiro desde 15 de setembro, "Cinquenta tons mais escuros" já ocupa o primeiro lugar no país. Em novembro, "Cinquenta tons de liberdade" completa a saga, e uma adaptação cinematográfica, pela Focus Features, da Universal Pictures, está sendo providenciada .
Na última edição da Feira do livro de Frankfurt, realizada entre os dias 10 e 14 de outubro, os títulos eróticos tomaram conta das gôndolas das livrarias, substituindo o lugar de destaque antes ocupado por séries infanto-juvenis como "Harry Potter". Engrossando a lista, "Gabriel’s inferno"(Sylvain Reynard), que narra a história de amor entre um professor e uma aluna, baseado na primeira parte da "Divina comédia", de Dante Alighieri, chega às lojas, em 2013, com selo da Sextante. "Há uma oferta muito grande de livros eróticos, e a questão é saber o quanto isso vai ser uma coisa passageira ou se vai se tornar algo forte como os livros para os leitores jovens. Escolhemos um título de que gostamos e estamos correndo para lançar. Não sei se publicaremos outro. Estamos com um pé atrás porque vem uma enxurrada por aí", disse Tomás Veiga, um dos sócios da editora carioca, em entrevista à Agência Estado. Também aproveitando a onda do mercado picante, as editoras Record, Companhia das Letras, Novo século e Verus investem em "Falsa submissão" (Laura Reese), "Toda sua" (Sylvia Day), "Prazeres da noite"(Sherrilyn Kenyon) e "Belo desastre"(Jamie Mc Guire), respectivamente.
A diferença entre pornografia e erotismo é uma questão cultural. "Um árabe, por exemplo, se assistisse à ‘Avenida Brasil’, iria achá-la pornográfica. Porém, a família brasileira acompanhou esse folhetim com certo prazer. O limite entre uma coisa e outra depende, ainda, da sua formação", observa Affonso Romano de Sant’Anna. Conforme Daniel Augusto, mestre em literatura brasileira e diretor de filmes como "Porn Karaoke"- exibido em festivais de cinema de países como Itália, Suíça e México -, erotismo designa algo, supostamente, mais elevado. "Um longa apresentado em um museu respeitado poderia ser visto como erótico. Se fosse projetado num site para adultos seria classificado como pornográfico. Tudo depende do local de exibição", comenta. Citando o poeta mexicano Octavio Paz, ele ainda acrescenta que o erotismo é infinito, pois envolve fantasia, o que o distingue do sexo, que é sempre o mesmo. "Duas pessoas numa cama nunca são somente duas pessoas. Há sempre a imaginação em jogo. A pornografia é mais limitada no repertório. Isso mostra que o erótico varia com história, geografia, sociedade, clima, indivíduo e os envolvidos no ato."
Para o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e especialista em psicanálise, Potiguara Mendes da Silveira Junior, a contemporaneidade, com suas inovações tecnológicas, não abre espaço para delimitações. "As fronteiras entre um e outro, sobretudo agora, estão borradas, assim como os limites em geral, que antes eram bem diferenciados", observa. "Pode-se dizer que erotismo é um conceito muito mais amplo. Hoje a pornografia é um item de consumo tão legítimo quanto qualquer outro", constata. "Talvez seja um fenômeno passageiro na lista das publicações mais vendidas, mas sexo é um assunto que sempre voltará. No caso de um livro, os únicos limites são a imaginação do escritor e do leitor. Certamente, não é todo dia que nasce uma Anais Nin, um D.H. Lawrence ou um Marquês de Sade", salienta Daniel.
Tema atravessa séculos
Não é de hoje que a humanidade busca refúgio para seus mais íntimos desejos sexuais. Essa prática atravessa os séculos e, volta e meia, retorna à roda das discussões. Os escritos libertinos de Safo, Catulo e Marcial já deixaram muita gente escandalizada. "Sempre existiu o erotismo. Há clássicos da literatura chinesa, latina e grega, além de cantigas portuguesas medievais, que enfocavam isso", afirma Affonso Romano. No início vinculado ao belo, com a entrada da modernidade, esse gênero tornou-se tabu, mesmo no meio literário, conforme assegura o poeta mineiro e pesquisador da poesia erótica do dramaturgo italiano Aretino, Oswaldo Martins. "A arte moderna dará a esse gênero o estatuto de coisa desvinculada do processo geral da literatura. Nesse sentido, o que se produz como arte erótica hoje é pífio, tanto nos conteúdos que abarcam, quanto na forma em que é escrita."
Em 2008, atuando como professor, Oswaldo foi demitido de uma escola no Rio de Janeiro por escrever poesias com conteúdos sexuais. "Do erótico, compartilham os humores corporais, as fezes, a urina, o sêmen. Nada menos erótico que a nudez permitida hoje em nossas ‘Playboys’ e nas dançarinas do Faustão. Todos os corpos são muito limpinhos. Essa limpeza acontece também em certa literatura que se faz hoje e que recebe a rubrica de erótica."
Indo além na discussão, Affonso Romano distingue os anos 1960, com a descoberta da pílula e da liberação sexual, como um marco que transformou a expressão libidinosa, que era exceção, segundo ele, em prática comum. "No caso brasileiro, surgiu uma temática nova do erotismo com poetas se declarando homossexuais. Não é mais como no tempo de Mário de Andrade e Fernando Pessoa, que tiveram que esconder sua opção sexual. Pelo contrário, ser gay passou a ser um trunfo", observa. "Além disso, ocorre hoje em dia uma ideologia que se chama pós-moderna. Não há mais valores, nem hierarquia e nem gêneros tradicionais. Não só poesias, contos e romances se misturam, como entre o masculino e o feminino surgiram várias gradações", complementa. Mesmo não enxergando um boom para a literatura erótica, Oswaldo Martins credita às forças conservadoras a grande popularidade dos textos devassos, atualmente. "Ao dar relevo moralista ao que se escreve, acabam permitindo uma ampliação midiática de um certo erótico não permitido", ressalta o poeta.
Até bem pouco tempo, à mulher não era dada a liberdade de exprimir seus sentimentos mais recônditos. A algumas, o contato com as obras literárias chegava a ser ilícito, como é o caso da personagem Malvina de "Gabriela" – obra de Jorge Amado, que ganhou o formato televisivo pela Globo. A contragosto do pai e da sociedade machista, a mocinha se debruça na leitura de obras como "O crime do padre Amaro", de Eça de Queirós. "A arte erótica sempre foi delimitada ao universo masculino. Com as novas configurações sociais, as mulheres também passaram a escrever e reivindicar seu lugar", destaca Oswaldo.
Na visão de Affonso Romano, está confirmado que os textos de Machado de Assis demonstram que o grande público leitor é feminino, o que justifica títulos como "Cinquenta tons de cinza". De acordo com ele, essa obra pertence a uma categoria de permissividade para as donas de casa. "É como se elas estivessem dizendo para os homens que elas também têm direito ao orgasmo", alerta o escritor. "Como sabemos, essas mulheres frequentam lojas de materiais eróticos e recebem esses acessórios, desinibidamente, pelos Correios. O que essas séries estão fazendo é oficializar, de uma certa maneira, o liberou geral", atesta Affonso Romano.

