
Quando Carla Machado decidiu resgatar as sapatilhas, há 15 anos esquecidas no armário, não imaginava reviver sentimentos tão intensos. "Quando ouvi a primeira música, na primeira aula, senti que estava reencontrando minha alma." As aulas de balé clássico, que fizeram parte da adolescência da fisioterapeuta de 36 anos, cederam lugar aos estudos na faculdade e, posteriormente, ao trabalho, ao casamento, aos filhos. O retorno à prática, que a princípio teria o propósito terapêutico, abriu portas para um novo horizonte profissional. "Vi que poderia evoluir. Fiz uma prova do Royal Ballet e agora vou me especializar para ser professora." Em dezembro, Carla dividirá o palco com a bailarina Ana Botafogo e a filha de 1 ano – que se recuperou de uma enfermidade em 2011 -, no espetáculo do Studio de Dança Vivian Mockdece. "O balé foi fundamental para que superássemos esse momento difícil", conta.
Carla é uma das muitas mulheres que, nos últimos anos, optaram pelo reencontro com o balé clássico ou, ainda, que se aventuram nos primeiros passos na modalidade após os 30 anos. Inúmeras finalidades têm levado tal público às escolas de dança, de acordo com o bailarino do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Marcelo Misailidis. "Esse movimento vem crescendo substancialmente nos últimos anos no Brasil, mas é um fenômeno mundial que acontece há algum tempo", observa o diretor artístico da Escola de Dança Misailidis. "Hoje, cerca de 15% a 20% de nossas alunas são adultas. Muitas buscam a atividade como forma de condicionar o corpo, mas, principalmente, como maneira de equilibrar a mente e obter um aprofundamento cultural."
O aumento na procura aponta, segundo Misailidis, para um amadurecimento do público brasileiro, cada vez mais sedento por acesso à cultura e à informação. "Isso é recorrente em vários setores. O público consome mais viagens, busca produtos de qualidade, está aberto a novas tendências e possibilidades de reflexão e relacionamento com o corpo. É como na descoberta do vinho tinto. A cerveja ou o refrigerante podem ser trocados por outros prazeres, que fazem até melhor para a saúde. Com o balé é similar. Ele só traz melhorias com o passar dos anos", compara.
O mito de que a prática do balé clássico é coisa para crianças ou que existe uma hora para parar de dançar já caiu por terra, de acordo com a diretora da Corpus Núcleo de Dança, Denise Milward. "Os valores da performance apurada e dos movimentos suaves estão sendo redescobertos. Muitas mulheres já se cansaram de ‘puxar ferro’", diz. "O brasileiro é dançante, mas a dança cênica exige uma técnica, que só o clássico proporciona."
A consciência corporal e a melhora postural são vistas pela professora da Corpus Ana Cláudia Monteiro como benefícios legítimos da modalidade. "Quando você dança balé clássico, se esquece de tudo. É preciso se concentrar na sequência de passos definida, aprender seus nomes, se focar na música. O balé te faz pensar em cada músculo do corpo", completa a bailarina, que se dedica à dança desde a infância. Fazer parte deste conjunto harmônico, que busca elementos criativos e belos a cada movimento, é o que difere o balé de outras atividades físicas que também se propõem a colaborar com a saúde e a boa forma. "A música clássica é atemporal. Se aprofundar nesse universo é saudável, mas acima de tudo prazeroso", acrescenta Misailidis.
Dois motivos levaram a médica Érica Lopes, 37 anos, às aulas de balé. A filha de 6 anos e a necessidade de encontrar uma atividade física prazerosa. "Comecei a frequentar a Corpus para acompanhá-la, mas logo vi a movimentação de turmas mais ‘maduras’", conta. Começando no jazz, há dois anos, a médica aceitou o desafio de também se dedicar ao clássico. "Existe uma ideia errada de que só podem dançar aquelas que foram bailarinas a vida toda. Isso não é verdade. Podemos executar os passos e, de fato, dançar", conta Érica, que divulgou a modalidade às amigas. "Hoje somos sete médicas na turma."
Reflexos femininos
Os espelhos que cobrem de fora a fora as salas de aula de balé refletem mais que a coreografia executada pela turma. "Refletem o corpo, que, com o passar dos anos, está diferente, mas também mostram os movimentos delineados com graciosidade, com feminilidade. A dança desperta a alma humana, o que certamente não acontece na musculação", opina a bailarina Vivian Mockdece."Há quem diga que trocou o divã pela barra", completa Denise.
O resgate do amor próprio, da auto-estima e do prazer de se dedicar exclusivamente a si são pontos singulares alcançados pela funcionária pública Cleiser Cypriano, 45 anos. "Sempre fui apaixonada por balé, mas meus pais nunca me deixaram fazer aulas, por conta de um tabu em relação aos artistas na época." Coincidência ou não, a filha Sofia, 11, nutriu a mesma paixão da mãe e recebeu o incentivo para subir na ponta. Envolvida com a escola nos eventos e nas redes sociais, Cleiser recebeu o convite de Dani Marie e Marcelo Misailidis para participar de uma das turmas. "A princípio fiquei sem graça, não sabia dessa abertura para o balé adulto." Ela assumiu o desafio em abril e, já em agosto, subiu ao palco no espetáculo "Branca de Neve".
Combinando a reeducação alimentar à prática da dança, a aluna perdeu quase dez quilos e ganhou disposição no dia a dia. "Não parecia verdade estar lá. Ao mesmo tempo em que realizava um sonho, vi a felicidade da minha filha ao me ver dançando ao lado dela. Teoricamente, ela está mais avançada que eu, me dá dicas, me corrige e vibra muito com isso", compartilha. "Essas alunas são muito corajosas de subir ao palco. Quando as vemos tendo prazer em mostrar essa conquista ao público, atingimos nosso objetivo como tutoras", acredita Vivian.
A diretora lembra ainda a importância da evolução dos profissionais da área, que, hoje, se dedicam a graduações e especializações, o que confere ainda mais conteúdo e confiabilidade à atividade. A redescoberta do balé clássico não está de passagem para Misailidis. "É uma arte que existe há mais de 500 anos, e há 300 foi codificada como é hoje. Essa ciência de como trabalhar o corpo vem se depurando desde então. Ela se mantém viva porque tem esse arcabouço", conclui.

