
Tereza e Angela registram suas histórias com doce sabor (MARCELO RIBEIRO/29-09-2015
Os bolos contam histórias, não só as modeladas em pasta americana, que dão forma à narrativa de princesas como a Branca de Neve. Os bolos contam da família de Maria Angela Ciampi Nóbrega, 51 anos, caçula de cinco irmãs, que ainda muito pequena via a avó ajudar a receita dos Ciampi fabricando doces e tortas. “Ela me expulsava da cozinha porque sou canhota, e ela dizia que aquela era a mão do diabo. Não podia chegar perto das coisas dela, que gostava muito de cozinha, de inventar receitas”, recorda Angela. “Lembro-me de mesas que ela fazia nos aniversários, de uma galinha vestida de purê de batatas, uma baiana. Ela trabalhava com muito esmero”, traz à memória a irmã mais velha, Maria Tereza, 68. “Tenho as mangas e os bicos de confeitar dela, só não uso porque eram muito pesados, de bronze. Hoje, tudo é leve, de plástico. Fazemos muitas receitas dela, como os biscoitinhos e as tortas. Nosso bolo é receita da minha avó, além de alguns doces. Outros são nossos mesmos”, conta Angela.
Formada em biologia, ex-funcionária de uma empresa de segurança e ex-dona de um estacionamento, há cerca de 20 anos Angela decidiu perseguir os sabores da infância e criou a marca Ciampi Bolos, que comanda ao lado de Tereza. “Quando fui tia, aos 9 anos, o marido da Tereza fez um bolo no aniversário da filha em forma de casa, com um jardim de jujubas e chocolates. Fiquei louca com aquilo. Ficava só olhando, encantada. Quando eles se separaram, sobrou para eu fazer o bolo das crianças”, lembra-se, citando os confeitos de marshmallow e um Snoopy de pipoca que pouco a pouco foram aprimorados. “Quando meu filho nasceu, comecei a ter acesso a revistas argentinas sobre decoração, vendidas em banca. Encantada, fazia e jogava fora até acertar. Nos aniversários dele, brincava disso, testava. Ficava um ano pensando em tudo. Trabalhava e, nos finais de semana, fazia as coisas. As pessoas já esperavam a criação do próximo ano. Decidi, então, fazer alguns pequenos bolos e dali comecei a vender, ainda de forma amadora.”
A melhor do show
Passado algum tempo, Angela soube de uma norte-americana, referência em decoração de bolos, que viria ao Brasil para o um curso. “Fui fazer, sem saber nada. A partir dali, comecei a fazer outros cursos. Todo ano aprendo mais um pouco. Sou extremamente curiosa e teimosa. Quero aprender o tempo todo. Quero saber para mim, mas se puder realizar para o outro é melhor ainda, porque a gente lida com sonhos”, conta ela, que, em sua rotina, recebe mais pedidos de bolos de casamento, ainda que prefira os desafios dos infantis, com seus minúsculos e coloridos detalhes. Dona de uma fala apressada, a mulher dos olhos verdes decidiu, em 2009, colocar à prova suas incríveis esculturas em pasta americana, que adornam e enfeitam os bolos feitos pela irmã Tereza. No primeiro concurso que se inscreveu, ganhou medalha de ouro. No ano seguinte, recebeu a prata. Ficou um tempo sem participar e, em 2013, ganhou ouro e o prêmio “o melhor do show”, que a levou até Birmingham, na Inglaterra, onde faturou a medalha de prata. “Em 2010, não ganhei o melhor prêmio porque deixei a desejar na parte de trás do bolo. Depois disso, aprendi a decorar o bolo por todos os ângulos”, conta ela, que já se prepara para contar mais uma história no concurso deste ano. “Só não vou contar o que é, porque é segredo”, sorri.
Parque Halfeld como jardim
Ao abrir as janelas do ateliê de Angela e Tereza, a vista é de um encantador Parque Halfeld, que fica bem em frente ao prédio onde foram criadas. “Foi meu avô quem construiu o Edifício Ciampi. Ele tinha uma agência de automóveis. Começou do nada e cresceu com muito trabalho. Na época em que o pai dele morreu, houve uma divisão dos bens, e ele ficou com o prédio. É uma paixão morar aqui”, conta Angela, do último andar, onde funciona a cozinha e a recepção da empresa, a todo momento preenchida pelo perfume dos doces. Sua casa fica em andares abaixo, divididos com a tia, 94, a mãe, de 95, e o filho, de 22, que há pouco mais de um mês decidiu-se por acompanhar o cotidiano da confeitaria, dando os passos da próxima geração. Tombado em 2000, o edifício projetado por Raphael Arcuri, com elementos de art-nouveau e art-decó, ainda preserva um pequeno e inusitado elevador, cujas portas são sanfonadas e vazadas, do qual se vê o belo mosaico de azulejos no chão da entrada. “Na época, brigamos para não tombar, porque nos preocupávamos com as gerações futuras. Tenho muito amor pelo prédio, passo isso para meu filho, mas não sei como será com meus netos, bisnetos. Se eles, um dia, irão precisar vender”, diz Angela.
Sem festa
Ao ver as mãos sujas de tinta de Angela (por conta do tingimento de alguma massa), pergunto às irmãs se elas resistem ao universo de doces e bolos produzidos como verdadeiras peças de arte. “Como muito, porque só vendo o que gosto. Adoro chocolate. Não enjoo de nada”, dispara Angela. “Hoje mesmo comi um bolo, porque fiquei com água na boca”, completa Tereza. E trabalhar em família, é fácil? “É tranquilo, de vez em quando tem briga, mas nos damos bem”, afirma a irmã mais velha, citando a clara divisão de tarefas estabelecida, que dá a Angela o papel na decoração e administração da empresa, enquanto Tereza pilota os fogões. É, então, que as questiono sobre as próprias festas. Fazem os próprios bolos? Elas riem alto, gargalham e respondem, em coro: “Não fazemos festa, temos o hábito de fazer um lanche apenas”.

