Ícone do site Tribuna de Minas

O olhar dos heróis

PUBLICIDADE

Um ano antes de a Lituânia se tornar República Socialista Soviética da Lituânia, uma das 15 sob o regime da União Soviética, Antanas Sutkus nasceu no pequeno vilarejo de Kluoniskia, às margens do Rio Niemen. Em seu primeiro contato, conheceu o homem comum, os seres do campo e a dor cruel de ser desligado dos pais. Com apenas 1 ano, perdeu o pai, que após ser perseguido politicamente, tirou a própria vida. Meses depois, a mãe fugiu, deixando o pequeno Sutkus com os avós. Da indignação por ver sua nação subjugada ao fascínio por representar sua terra de forma humana e sensível, ainda jovem ele começou a registrar em fotografias a vida que teimava em enxergar. Toda a preocupação dele em mostrar que a Lituânia era um país com uma identidade própria parte de sua biografia, que é importante conhecer para contextualizar os trabalhos, observa Luiz Gustavo Carvalho, curador da exposição Antanas Sutkus – Um olhar livre, em cartaz no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm).

Aos 74 anos, Sutkus não fotografa mais. Parou nos anos iniciais da década de 1990, quando seu país conquistou a independência. Ele diz que com o fim da URSS seus heróis desapareceram e por isso já não havia mais motivo de disparar sua câmera, explica Carvalho, apontando para um arquivo de milhares de fotografias, muitas ainda em negativos. Extremamente crítico à fotografia digital por acreditar que os incessantes cliques retiram a responsabilidade do fotógrafo com a cenas retratadas, Sutkus se alinhou, em sua trajetória, com a estética francesa, amplamente reconhecida pelo olhar de Henri Cartier-Bresson.

PUBLICIDADE

Mesmo sem conhecê-los, o que se deu no final da década de 1980, o lituano exercitou o mesmo olhar sensível e plástico dos famosos nomes da revista Magnum. É interessante ver como essas pessoas estavam em sintonia, comenta Carvalho. Segundo o curador, Sutkus subverteu o que era esperado na época. Durante o regime soviético, a censura sempre se mostrou de olho nos trabalhos psicológicos ou que de alguma forma perturbavam a ordem social. O otimismo e o óbvio eram imperativos, até mesmo na arte. Ele conseguiu abordar alguns temas da União Soviética sem cair em caricaturas, demonstrando um enorme respeito ao ser humano. Muitas fotos que estão na mostra só foram apresentadas após a queda do regime.

Sobre as pessoas e as ruas

Produzida de 1956 até o momento em que Antanas Sutkus encerrou suas atividades fotográficas, a série Pessoas da Lituânia revela os homens comuns num cenário de aparente caos. Os movimentos e os olhares enfocados pela lente do artista capturaram não apenas os sentimentos de apreensão que tomava conta do país, mas a vida resignada que se via refém do tempo. Os personagens de Antanas nunca foram usados para mostrar um mundo sombrio, defende Luiz Gustavo Carvalho. Para o curador, o trabalho meticuloso do fotógrafo, preocupado em narrar uma cena, não se deixou resvalar em representações montadas, frágeis em verdade. São imagens extremamente elaboradas e complexas. Ao mesmo tempo, fascina a forma como ele permite os acidentes em seu processo. Essa visceralidade do instante do disparo é própria daquela época.

PUBLICIDADE

Pronto para os imprevistos, Sutkus conseguiu captar as crianças sem que elas lhe servissem como personagens teatrais. Da mesma forma, o artista tornou-se autor do mais célebre registro do filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre. Acompanhado por Simone de Beauvoir, companheira constante, Sartre visitou, a convite do regime soviético, as terras lituanas, em pleno 1965. De maneira quase invisível, Sutkus registrou o filósofo caminhando calmamente pela alva areia de Nida. De tanto que gostou, Sartre utilizou as imagens em muitos de seus livros. Havia, então, uma prova concreta de que o olhar do lituano promovia, sim, a identificação desejada.

A literatura é muito importante para o Antanas, ele é extremamente literário, destaca Carvalho, justificando a ausência de legendas na exposição, o que possibilita uma visualização narrativa de toda a obra. Exibidas em totens dispostos nos jardins do Mamm, as imagens de Sartre também integram uma opção curatorial que partiu de um estreito diálogo entre Carvalho e Sutkus, que se conheceram em 2005, na França, mas estreitaram a relação quando o brasileiro transferiu-se para Moscou, onde morou por quatro anos.

PUBLICIDADE

Inaugurada pela primeira vez em Toulouse, na França, em 2011, a mostra retrospectiva chegou ao Brasil em 2012, aportando no Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba. Décima cidade na turnê das fotografias de Sutkus, Juiz de Fora recebe imagens que não foram apresentadas na capital paranaense, já que, aos poucos, o lituano vai abrindo seu imenso baú. Como as dolorosas histórias da época, as fotografias de Sutkus também respondem ao tempo.

ANTANAS SUTKUS

PUBLICIDADE

Exposição de fotografias

De terça a sexta, das 9h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h. Até 3 de novembro

PUBLICIDADE

Mamm

(Rua Benjamin Constant 790)

Sair da versão mobile