Por natureza, ele não tem o hábito de fazer muito barulho, mas conta com dia fixo na programação de muitas casas noturnas do país e um prestígio inabalável junto a seus seguidores. Mesmo levando a fama de elitista, o jazz vem conquistando cada vez mais espaço na programação musical de Juiz de Fora. Além de lugar cativo em casas noturnas da cidade, esse estilo musical consolida sua influência em eventos como o Ibitipoca Jazz Festival, que ultrapassou uma década de duração, e o Savassi Jazz Festival, que teve sua primeira edição na cidade em julho, trazendo um formato consagrado em Belo Horizonte. O movimento que ganha impulso por aqui repete uma tendência das capitais brasileiras e repercute a visibilidade de uma nova geração de instrumentistas e cantoras, que tem o bom e velho jazz como escola. Os exemplos vão de Amy Winehouse à Janelle Monáe, considerada uma das gratas surpresas do Rock in Rio.
"Os festivais foram criando um público fiel, e as casas noturnas observaram isso", opina o músico Hérmanes Abreu. Criador do Ibitipoca Jazz Festival, ele constata o bom momento do gênero não só pelo incremento do público no evento, mas também pelo número de CDs de novos talentos que tem recebido. "É uma geração que explora muito bem a técnica", comenta.
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Maestro da Orquestra de Jazz do Pró-Música, Sylvio Gomes endossa a multiplicação de bons exemplos na música instrumental. Na percepção de Gomes, esse movimento pode ser resultado da maior circulação de informação, por meio de mídias alternativas. "A internet abriu a cabeça dos jovens. Hoje, eles estudam mais música", opina.
Hérmanes Abreu acrescenta a contribuição de jovens músicos que começaram a conviver com o jazz dentro de casa, a exemplo de Alexandre e Bianca Gismonti, filhos do músico Egberto Gismonti. Entre os "herdeiros do jazz", Abreu inclui, ainda, os pupilos de músicos experientes, que saíram do país para se aprimorar e, anos depois, retornaram para repassar o aprendizado.
"Estamos diante de mais uma geração que entra em campo. Isso é uma corrente. Vários do músicos que estão hoje no circuito fizeram aulas de improvisação comigo", orgulha-se o baixista Dudu Lima, que apesar das constantes viagens ao exterior, afirma nunca ter deixado de participar ativamente do cenário jazzístico de Juiz de Fora. "É um movimento contínuo na cidade, que vem acontecendo há quase 20 anos", enfatiza.
Um gênero sem cerimônias
Dudu Lima, Hérmanes Abreu e Sylvio Gomes são unânimes ao desmistificar uma pretensa natureza elitista do jazz. Na opinião dos músicos, a ilusão de exclusividade decorre, sobretudo, de uma questão de oportunidade. O maestro da Orquestra do Pró-Música, por exemplo, relata sua experiência positiva em apresentações gratuitas, ao ar livre. "Tocamos em praça pública e recebemos público de todos os tipos. Não podemos dizer que as pessoas não gostam de algo se não oferecemos antes", argumenta. "Se houvesse mais investimentos em espetáculos gratuitos, garanto que o jazz se tornaria mais popular", complementa Hérmanes Abreu.
Responsável pela realização do Savassi Jazz Festival em Juiz de Fora, Emerson Laender, da Partner Produções, acredita que esse estilo de música possa funcionar melhor em espaços abertos. A partir dessa convicção, o produtor revela possíveis alterações para a segunda edição do evento, em 2012. A intenção é deixar o interior dos teatros para ocupar as ruas da cidade com apresentações gratuitas, além de oferecer oficinas com as estrelas do festival. "Nossa ideia é fazer um projeto aberto, para atingir mesmo quem não conhece esse tipo de música."
Liberdade para criar
Mesmo entre instrumentistas e cantores que enveredam por ritmos mais populares, o jazz é apontado com uma escola de prestígio. Para o músico Dudu Lima, uma das cartas de nobreza do gênero está justamente na liberdade que ele proporciona, permitindo novas experiências. "O jazz caminhou para o multicultural. Hoje, existe uma invasão, no bom sentido. É possível beber da concepção jazzística, de liberdade e improvisação, e colocar sua assinatura", pondera.
"O brasileiro é criativo. Começa em um determinado gênero, mas vai fazendo novos formatos. O jazz propicia isso", avalia Hérmanes Abreu. Na visão de Sylvio Gomes, a formação no gênero proporciona um estudo mais aprofundado da técnica, o que permite uma percepção musical mais aguçada nesses profissionais. "Há uma riqueza harmônica muito grande no jazz e isso se reproduz em qualquer outro ritmo", sintetiza.
Volta por cima
Segundo Hérmanes, o jazz volta a ganhar espaço depois de viver seus anos áureos nos anos 1980. A boa fase, entretanto, foi seguida por uma lacuna na década seguinte. Prestigiado em grandes eventos, como o Free Jazz Festival, esse estilo musical atingiu expressiva popularização. A repercussão também ocorria em âmbito local, com apresentações gratuitas. Nos anos 1990, porém, muitas dessas iniciativas foram extintas. "Esse foi o motivo de uma certa elitização do público, já que os eventos passaram a ser pagos. Além disso, muitos músicos foram para a Europa por não encontrarem espaço no Brasil", conta.
Apesar de ter perdido visibilidade, a chama do jazz resistiu por mérito de iniciativas individuais, o que reflete a paixão despertada pelo gênero em seus seguidores. Foram essas empreitadas que garantiram o começo do retorno, no final dos anos 1990. "Foram investidores particulares, que insistiram nesse ideal, mesmo tendo prejuízo nos primeiros anos", afirma Hérmanes. "É um gênero que conta com fãs muito dedicados. Tem gente que faz o circuito do jazz no país, frequentando todos os festivais", afirma.
