Ensaio aberto ou bastidores de estúdio no palco? A dúvida não cabe no currículo dos Titãs, e, por essa razão, eles optaram pelos dois formatos para rascunhar a nova turnê. Intitulado "Futuras instalações", o show dá início às comemorações dos 30 anos de banda, celebrado em 2012. A nova sequência de apresentações começou na última semana, em Florianópolis (SC), e a agenda dos roqueiros não tem mais espaço até janeiro próximo. Por enquanto, Juiz de Fora não poderá conferir a empreitada, que, segundo Branco Mello, é inspirada numa estratégia já utilizada em outros momentos da carreira, em que os Titãs decidiram montar um show "novo e transitório".
"Hoje em dia, somos uma banda com estrutura completamente independente, sem gravadora. Antes de gravar um CD, por exemplo, temos que buscar recursos e meios alternativos de viabilizar o produto, por isso achamos bacana acrescentar nessa turnê o que já fazíamos nos anos 80: lançar um disco aos poucos, disponibilizando as faixas nas apresentações ao vivo", explica, sobre a junção de clássicos e novas experimentações assinadas também por Paulo Miklos, Sérgio Britto e Tony Bellotto.
"Fala aí Renata", "Morto vivo", "Tradição" e "Duas torres" são as quatro primeiras novidades sonoras – os nomes ainda não são oficiais – programadas para essa primeira leva de shows, que inclui ainda Salvador, São Paulo, Curitiba, Brasília e Goiânia. A ideia, de acordo com Mello, é lançar o próximo álbum de inéditas em 2012, mas adiantar as composições no site da banda "para que o público tome conhecimento do que vem sendo produzido".
As novas canções mesclam elementos como guitarradas, bandas de pífaros e música do Xingu à tradicional verve cosmopolita dos Titãs, que buscam retomar o rock genuinamente nacional. "Ainda estamos levantando o repertório, fazendo juntos as músicas na estrada, mas já temos em mente que queremos temas diferentes, sem deixar de perseguir uma certa brasilidade do rock… como aquela coisa de fazer a música brasileira de raiz, brincando com essa estética de agregar uma sanfona nordestina ou a melodia indígena à pegada rock and roll", diz.
ENTREVISTA/Branco Mello, integrante dos Titãs
Depois de abrir os shows do Palco Mundo do Rock in Rio, ao lado dos Paralamas do Sucesso, no último dia 23, a banda Titãs voltou a tocar no último dia do festival, dessa vez no Sunset, espaço alternativo, dividindo o microfone com a Xutos & Pontapés, uma banda de rock portuguesa de influência e inclinação punk – só para ter uma ideia, The Clash é o "norte" do seu repertório.
A união de um Titãs inspirado e seus hits mais pesados com um Xutos & Pontapés repleto de canções autorais e felizes em estar tocando naquele palco, criou um "show (a)político e, seguramente, uma das melhores apresentações de uma banda nacional nesta edição do festival", segundo a crítica. Tanto que muita gente, conforme publicado nos jornais, perdeu a apresentação do Evanescence no palco principal. Sobre a dobradinha no evento e os planos para comemorar três décadas de trajetória dos Titãs, Branco Mello conversou com a Tribuna, ressaltando a fórmula utilizada para se aprimorar num mercado em que, acima de tudo, ainda pede originalidade.
Tribuna – No auge da noite, Titãs e Xutos & Pontapés se uniram para interpretar "Flores", grande sucesso das décadas de 80. O povo, em êxtase, retribuiu com aplausos e gritos de "Titãs", além de muitos pulos durante a execução de "Polícia" e "Cabeça dinossauro". O encontro com os portugueses foi planejado?
Branco Mello – Foi a primeira vez. Em 88, abrimos o shows deles em Portugal, mas não tocamos juntos, estávamos começando nossa história no Brasil, e só agora convivemos realmente juntos, durante quatro dias e três ensaios. Mas o resultado foi inesperado. Foi muito emocionante ver as bandeiras dos dois países nas baterias. Houve química entre nós e eles, aliás, quando se juntam duas bandas de rock para fazer show, tem que haver química, além da música, é claro. Mas isso é raro.
– Vocês estão prestes a completar 30 anos, e a Xutos & Pontapés já tem 33…
– Por isso o retorno do público foi muito forte. É bacana, porque eles têm referências próximas às da gente. Os fãs portugueses têm orgulho daquele grupo, mesmo quem não curte rock and roll. Eles são ícones por lá, como os Titãs são por aqui. Compartilhamos disso no Brasil. As pessoas veem a vida delas em nossas músicas, daí a dobradinha com o Xutos parecer um espelho para nós. Vamos tocar juntos outra vez em maio de 2012, no Rock in Rio Lisboa. Teremos, com isso, oportunidade para ensaiar mais.
– Enquanto isso, os brasileiros poderão conferir esse revival dos tempos em que vocês mesclavam hits da carreira com o que viria a entrar no próximo álbum. Por que retomar este método experimental?
– É, tem tempo que não fazemos isso. Foram três meses para as composições e a pré-produção para entrar no estúdio. Resolvemos então inserir o show dentro desse processo, como forma de o público acompanhar o que estamos fazendo. Como ensaio aberto soa muito chato, porque se repete muito, apostamos nesse lance com cara de show mesmo, só que colocando e tirando músicas do repertório.
– Além das músicas trabalhadas e criadas em estúdio e no palco, o que mais se pode esperar do aniversário?
– Planejamos várias comemorações, entre elas minha vontade de lançar nosso book com partituras e histórias da banda, além de relançar o filme ("Titãs – A vida até parece uma festa") em DVD e o (disco) "Cabeça dinossauro" remasterizado, com informações anteriores ao álbum. Mas lançar um CD com inéditas é o que comprova a vitalidade da banda que, mesmo trintona, gosta de fazer música.
– E qual é a grande marca do grupo?
– A irreverência, sem dúvida. Somos uma banda séria que tem humor, até na escolha do nome. Transitamos no universo social, da política e da ironia, que é bem interessante. Esse é o nosso conceito, inclusive com a capacidade de nos autocriticar.
– Os Titãs estão se transformando?
– Sempre. Nossa paixão nos move a continuar juntos, sem deixar de procurar outros caminhos. Passamos por momentos complicados, como o da morte do Marcelo (Framer). Porém, potencializar nossa música nos fortalece e nos gera felicidade para superar a dor e a lidar com as adversidades.
– Com 50 anos de idade cada, como é encarar os novos desafios e sobreviver na independência?
– A gente está ligado nas novas mídias, sabemos que já não se vendem mais discos. Falta espaço para isso. Contudo, por nossa trajetória, temos shows lotados sempre, e o caminho independente vem dando certo por nossa consistência, o próprio nome da banda ajuda. Vivemos de música, driblando o mercado de discos.
– Seu início foi marcado pelas idas e vindas ao cinema com seu pai, que ouvia bossa-nova. De que forma as artes audiovisuais potencializaram seu fazer artístico?
– Desde que comprei minha câmera, essa paixão por cinema ficou mais aguçada. Já dirigi especial dos Titãs para a TV Manchete, videoclipes, atuei na montagem do filme do grupo ("A vida até parece uma festa"). Ainda faço trilha para cinema, peças de teatro e TV, como para a série "Aline", da Rede Globo. Tem um longa do Maurício Farias sendo finalizado, e, provavelmente, a trilha será minha, como foi a do filme "A grande família". Mas a prioridade deste ano são as comemorações dos 30.
