Em busca dos mitos que cercam a história da lendária Rainha Njinga, aproveitei o primeiro fim de semana em Angola para viajar rumo à Província de Kwanza-Norte, a 180km da capital Luanda. Por lá, a guerreira negra viveu em prol dos direitos humanos das comunidades, defendendo o território da dominação portuguesa e do tráfico de escravos. Por isso, após 350 anos de seu nascimento (comemorados em dezembro de 2013), cheguei à tradicional Feira do Dondo, onde elas, as guerreiras africanas do século XXI, ainda estão no comando.
Em Angola, as mulheres são as chefes de família, a maioria perdeu o marido na guerra civil que durou quase 30 anos, após a independência do país em 1976. Artesanato, música, literatura, teatro e dança. Tudo é rico nesta terra cortada pelo Rio Kwanza.
Longe das riquezas minerais e petrolíferas, as tribos do Dondo mantêm hábitos milenares, como falar as línguas nacionais (umbundum, kikongo e kumbundum) e oferecer receitas típicas transmitidas por gerações que não sucumbiram à dominação colonial europeia. Entre peças de decoração e artigos domésticos do artesanato local, encontramos uma mesa farta de sabores da África Austral. O peixe cacuso é cozido à beira do rio e vem servido inteiro, acompanhado de feijão de óleo de palma (dendê), batata-doce, banana-pão (da terra), farinha museque (mandioca) e molho de cebola. É o carro-chefe da culinária e sucesso entre turistas do mundo todo. Para refrescar o paladar – levemente apimentado-, a pedida é a cerveja Eka, a base de cereais da região.
Após a feira, dar um giro pela Vila do Dondo é uma volta ao passado. Do alto da Colina do Cambambe, as ruínas da Igreja N. S. do Rosário estão dentro de uma fortaleza de pedras do século XVII. Parcialmente destruída pelas guerrilhas, a construção guarda relíquias da memória angolana, como santuários, altar e sacristia, todos de origem portuguesa. Em frente às ruínas, o olhar se perde diante do verde que quase encobre as curvas do Rio Kwanza, que parece não ter fim. Um lugar sem kuduro ou qualquer outra prática cultural dos grandes centros. Faz parte, afinal são muitas as razões para encher de cor uma Angola esfumaçada por décadas de mortes e destruição. Vida longa à Rainha Njinga!
