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‘O que me seduz é o estranho’

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O horror é filtrado por quem lê, assegura a escritora Ana Paula Maia. Alguns dos meus leitores não passam da primeira página. Outros me dizem ter lido meus livros várias vezes e que morreram de rir, conta. Ainda que incerta, a jovem carioca especula sobre o lugar de suas obras dentro do universo dos gêneros literários brasileiros. Ainda não tenho lugar definido. Com sua prosa dura e seca, que assume as cruéis temáticas da violência marginal, Ana Paula pode estar flertando com a inauguração de um novo gênero. Sempre tentam me comparar com um ou outro autor, com algum traço mais próximo, mas não vejo essas semelhanças. Presente na cidade no último sábado, quando participou, ao lado do autor local Darlan Lula, do projeto Ave, Palavra, encontro promovido pela livraria A Terceira Margem, a autora explanou sobre carreira e obra, além de autografar sua última publicação, Carvão animal.

Acordar com o cheiro de lixo na cara, preparar um corpo para ser cremado, abater um porco. A autora se distancia do mundo em que vive para mergulhar no dia a dia e nas ações de homens que se dedicam ao que ninguém mais – ou muito poucos – quer fazer. O que me seduz é o estranho, assume. Com isso, escolhe como cenário locais e situações inusitadas para desenvolver suas tramas. Não gosto de escrever sobre o amor erótico. Gosto do amor fraternal, que entrelaça duas pessoas, por exemplo, por uma rotina muito dura, diz. Meus personagens são muito práticos, não têm crises existenciais. Eu posso ter essas crises, eles não.

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O recurso do diálogo é recorrente nas obras da escritora. Os diálogos acrescentam informações e resolvem muitos problemas. Representam outra forma de ver e escrever, pois trocamos o personagem falado pelo personagem agindo, defende. Além de subverter as formas de reflexão – nunca explícitas em dramas particulares de seus personagens -, a autora vai na contramão das tendências contemporâneas quanto à linearidade narrativa. Não gosto de ler nem de fazer narrativas fragmentadas, dispara.

Que voz assumir na ficção

Em sua estreia literária, em 2003, com O habitante das falhas subterrâneas, a autora se diz impregnada pelas influências das inúmeras leituras de O apanhador dos campos de centeio, de J. D. Salinger. Foi com o primeiro folhetim pulp da internet brasileira, Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, quando criou o personagem recorrente em sua obra, Edgar Wilson, que Ana Paula conseguiu encontrar o que rotula como sua voz. Minha voz, meu ‘lado B’, encontrei no ‘Entre rinhas’. Edgar Wilson estava pronto, escondido em algum lugar na minha nuca, brinca. Sem se preocupar com a aceitação do que escrevia e publicava na internet, a autora se desprendeu das influências e passou a investir em uma linguagem própria. Essa trajetória faz parte de um amadurecimento, importante para que conseguisse dominar as técnicas da escrita que seguiria, conclui.

Carvão animal traz como pano de fundo a rotina da queima de corpos em um crematório. Não faço pesquisa de campo, explica. Só depois de pensar sobre o que vai escrever, Ana Paula se lança nas pesquisas sobre as técnicas dos trabalhos sujos que aborda. E bate. O que significa que há uma empatia entre mim e o tema, destaca. A reflexão prévia, segundo a autora, a protege de ser influenciada pela pesquisa.

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De 10% a 15% do que escrevo está respaldado na pesquisa, o que me dá segurança quanto às técnicas. Todo o resto é ficção. Com isso, cabe à construção narrativa levar o leitor a pensar ser um amplo conhecedor do assunto e, ainda, tornar crível a trama, fundamental à ficção realista. Pode ser clichê, mas na ficção é preciso ver até aonde o personagem é capaz de ir.

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Universo masculino

Eu sou o personagem masculino em minhas obras, responde a autora à inevitável pergunta, que especula sobre o porquê de seu universo se voltar apenas aos personagens masculinos. Sempre lidei melhor com os homens, talvez por isso seja mais natural. Os diálogos funcionam melhor na boca dos homens. É como se eu os estivesse ouvindo, reflete a autora. Só consigo ver um homem me assombrando, nunca uma mulher.

Sobre a produção literária feminina no Brasil, Ana Paula é categórica. As temáticas mais abordadas – triângulos amorosos, dramas familiares – não me atraem. Gosto de algumas autoras, que têm excelentes textos, muito bem escritos. Mas as questões femininas, definitivamente, não me atraem, alega. Na vida real, não sou romântica, não me dou muito espaço para ter crises existenciais. No fundo, acho que gostaria de ser um pedreiro, um bombeiro. Os homens ficaram com a parte mais divertida.

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