
A descartabilidade e a perda de personalidade dos automóveis podem ser observadas em ‘Muralha’, de Ramón Brandão
Dois artistas plásticos com visões e estilos diferentes estarão juntos no Espaço Reitoria, no campus da UFJF, a partir desta quinta-feira, quando será realizada a abertura, às 20h, da exposição “Extremos”. A mostra vai reunir cerca de 20 trabalhos de Ramón Brandão e Vianno Rheim, que poderão ser conferidos no local até 2 de junho. É a oportunidade de observar no mesmo local parte da trajetória artística de dois nomes de gerações e trajetórias diferentes, com propostas diversas, nas quais os prováveis pontos de convergência ficarão a cargo da visão do espectador.
Mais experiente da dupla, Ramón Brandão – que chegou a ser professor de Vianno – divide sua produção entre obras cujos temas são os automóveis e o patrimônio e memória. Este último rendeu um livro, “Arquitetura Neocolonial – Arquitetura da felicidade”, sobre construções brasileiras que agregam elementos arquitetônicos espanhóis e portugueses. Seu trabalho nas artes plásticas já foi reconhecido, inclusive, no exterior, com exposições na Argentina e Estados Unidos. Para esta mostra, apenas um quadro não é inédito em exposições.
Segundo o artista, o elemento que desperta a vontade e o desafio de trabalhar com esses temas é a história contida em tais objetos. “Mas não a história oficial, oficiosa, mas sim a história anônima que esses objetos têm”, destaca. “Há uma professora argentina, a Marina Weisman, que denomina essa arquitetura de “modesta”; aquela das casas comuns, impregnadas de história, mas que nem temos como saber qual é exatamente. Ela é anônima, e você saberia dela apenas se juntasse todos os cacos da história da cidade, como em um quebra-cabeça, mas ela está lá e chega até você por meio desses objetos. E isso também inclui os automóveis, pois além da história vem a humanidade, essas coisas fazem sentido apenas se dermos sentido a elas, tanto os imóveis quanto os carros. A humanidade que eles têm é nossa. A indústria automobilística até constrói uma espécie de personalidade para cada carro, mas quando eles são descartados, ela é pulverizada, ficando eventualmente algum resquício.”
Por isso mesmo, quando a questão são os veículos de quatro rodas, ele não vê a geração atual de automóveis, a despeito das críticas a uma suposta falta de personalidade em seu design – ou à predominância dos carros de pintura prateada – como objetos de pouco interesse artístico. “Eles (os carros modernos) chamam atenção, sim. Não estão nessa exposição, mas já tenho quadros com veículos mais modernos”, diz. “Essa questão da personalidade do carro é curiosa. Quando você vê um carro, acha que ele é fraquinho, tão diferente dos antigos, sendo que são mais fáceis de dirigir do que os de 30 ou 40 anos atrás. Pode até parecer que não têm personalidade, mas há uma frase que diz que quem confere personalidade é a pátina do tempo. Você tem que esperar 20, 30 anos para ver qual tipo de referencial vai existir e ser construído pelas pessoas. Eu tenho revistas dos anos 60 que falavam que os carros da época eram feios, ruins. É tudo uma questão de tempo para a personalidade e a memória serem construídas.”
Música e sétima arte
Personalidades da música – como Chet Baker – fazem parte de uma das séries desenvolvidas por Vianno Rheim
Vianno Rheim vai mostrar na exposição duas séries em que ele vem trabalhando desde 2011 (personalidades da música) e 2012 (cinema antigo), sendo que quatro trabalhos serão apresentados pela primeira vez, dentro do processo de continuidade dessas séries. O público poderá conferir suas releituras para figuras como Ray Charles, Chet Baker, Alfred Hitchcock, al[em de cenas de filmes clássicos como “Easy rider” e “Tempos modernos”. “Mas teremos algumas surpresas”, adianta.
“Eu tenho uma ligação forte com os dois temas, que curto há muito tempo. Também trabalho com música, com venda de CDs e LPs. E sou um amante de cinema antigo, mas não me considero um cinéfilo”, conta. Também caricaturista de ofício, tendo sido vencedor do prêmio do 2º Salão de Humor de Juiz de Fora, Vianno tem como desafio não deixar que este lado de sua atuação influenciasse as releituras que faz nas artes plásticas. “É difícil falar sobre isso, sei apenas que começo a fazer e vai aparecendo. Acho que já está em mim mesmo. No começo, fazia mais caricaturas, que são apenas para os salões de humor. Não sei explicar como consigo ficar nesse meio termo, só sei que acontece; algumas obras ficam no meio termo, às vezes não.”
‘EXTREMOS’
Exposição de Ramón Brandão e Vianno Rheim
Abertura nesta quinta, às 20h. Visitação de segunda a sábado, das 8h às 20h. Até 2 de junho
Espaço Reitoria
(Campus da UFJF)

