Durante a tentativa de furto, o suspeito entrou pelos fundos do imóvel, quebrando o vidro de uma das janelas. O relato, não raro nas páginas de polícia da Tribuna, poderia ser mais uma matéria sobre furtos em Juiz de Fora se o imóvel em questão não fosse o Forum da Cultura, e o furto tentado não fosse de serigrafias de Dnar Rocha e telas de Natale Chianello (Natálio Luz) e Sérgio Maestrini. Felizmente, o adolescente que tentou levar as obras foi flagrado a tempo pelo vigia e fugiu, deixando, na calçada, dois dos objetos artísticos que tentava levar.
Segundo o curador da galeria de arte do Forum da Cultura, José Luiz Ribeiro, que acompanhou o registro de ocorrência junto à PM, o suspeito chegou a retirar sete quadros das paredes e tentou carregar também uma uma enceradeira, mas acabou levando somente o tênis do segurança do local. "Foi coisa de quem não tem conhecimento de arte mesmo, tentou levar o que viu pela frente. O que aconteceu é reflexo do momento de insegurança que a cidade vive, que também afeta a cultura local. Mantemos as obras de maior valor em locais com acesso mais difícil e restrito do que onde estas estavam, mas a violação do acervo artístico do patrimônio é preocupante de qualquer maneira." O curador acrescentou que o local possui vigilância 24 horas na entrada e que não há outro acesso ao prédio principal, a menos que haja – como houve – arrombamento.
Apesar de o acervo do Forum da Cultura ter sido preservado, a ocorrência traz à tona o questionamento sobre as condições de segurança dos centros culturais da cidade, que abrigam importantes acervos. No mês passado, a Casa de Cultura da UFJF também teve parte da exposição "Corrosões que estruturam", da artista plástica Lílian Arbex, furtada. Segundo a assessora de cultura do espaço, Sandra Emília, duas das 110 peças que compunham um painel foram levadas. "Eram peças que não poderiam ser vendidas, então não haveria retorno financeiro, e este painel ficava exatamente em um local que não era monitorado pelas câmeras que possuímos."
Assim como o Forum da Cultura, o imóvel possui vigilantes dia e noite, além de porteiros e vigias específicos para as galerias e um servidor que fica por conta de acompanhar os grupos de visitantes. "Só que, em grupos grandes, fica difícil observar todo mundo o tempo todo. Acho que uma solução viável seria a implantação de escaninhos na entrada, onde as pessoas tivessem que guardar bolsas e mochilas, evitando que pudessem retirar algum objeto em exposição", opina Sandra, que afirmou que os dirigentes se reunirão em breve para discutir medidas que possam aumentar a segurança.
O uso de escaninhos tem sido adotado por uma das instituições com o maior e mais valioso acervo da cidade, o Museu Mariano Procópio, atualmente fechado para visitas e em reforma. Segundo o diretor-superintendente do museu, Douglas Fasolato, qualquer pessoa que acesse as áreas restritas do museu, como funcionários ou jornalistas, por exemplo, precisam passar por um rígido controle, que inclui deixar bolsas e mochilas em armários e se identificar no momento de entrada.
Além disso, o prédio é monitorado pela Polícia Federal e por vigilantes armados, e todo o esquema de segurança seguiu as normas da consultoria de Alain Raisson, membro do Comitê de Segurança de Museus do International Council of Museums (ICOM), que já atuou como chefe do serviço de segurança do Museu do Louvre. "É claro que ninguém pode afirmar que está totalmente preparado, mas estamos muito atentos às questões de segurança e preservação do acervo e aperfeiçoando a tecnologia e o treinamento das equipes constantemente", afirma Douglas.
No Espaço Cultural dos Correios, um dos cinco espalhados pelo país, há efetivo específico para monitoramento dos bens culturais e policiamento 24 horas. "O padrão de Juiz de Fora é o mesmo adotado em todo o território nacional, e a segurança é sempre uma discussão em pauta nas reuniões das diretorias destes centros. Nunca tivemos problemas em sede alguma", conta a gestora local do Espaço Cultural Correios, Sueli Navarro, acrescentando que há centros em Brasília, Fortaleza, Recife e no Rio.
No Museu de Arte Moderna Murilo Mendes (Mamm), que também abriga peças de elevado valor, outra medida para preservar as obras abrigadas ali é a restrição do horário de funcionamento da casa. "Procuramos encerrar os eventos entre 21h e 21h30, no máximo, para não haver circulação de pessoas até tarde. A preocupação é também manter a casa fechada em eventos como o carnaval e aumentar o efetivo de segurança em exposições ou eventos que recebam mais visitantes", afirma a diretora do Mamm Nícea Nogueira.
Além disso, todo o sistema de monitoramento eletrônico do museu será renovado ainda este ano, conforme aponta o pró-reitor de Cultura, Gerson Guedes. "Já foi feito um pedido para a troca do equipamento, que será instalado possivelmente até junho. A segurança do Cine-Theatro Central também deve ser reforçada. Em eventos, isso já acontece, mas encaminhei à Prefeitura um pedido de parceria permanente com a Guarda Municipal", acrescenta Gerson.
Prevenção e intervenção
Segundo o consultor de segurança em museus, Alain Raisson, a segurança deste tipo de instituição requer cuidados muitos especiais. "Ao contrário de um banco, você tem que deixar o público se aproximar dos bens de valor, mas precisa pensar em estratégias para que isso ocorra da melhor maneira possível." É o que também defende o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra. "A segurança de um espaço de cultura não pode inibir o acesso do público a seus bens, mas precisa orientá-lo."
O consultor também frisa que cada peça de um museu requer tratamento diferenciado. "Um quadro de 10m² não pode ser retirado de um museu, mas precisa ser preservado, ao passo que uma tela de 20cm pode ser escondida sob uma jaqueta." Raisson menciona ainda que aspectos como a arquitetura, a localização e o fluxo de pessoas que o espaço recebe também devem ser levados em conta. "Esses traços vão definir as medidas de prevenção e intervenção que devem direcionar equipes e os procedimentos de segurança.
Para Toninho Dutra, o caminho para o aumento da segurança e preservação do patrimônio cultural da cidade deve, necessariamente, passar pela educação. "Não adianta somente reprimir, coibir e esperar que o estado tenha um olho para vigiar cada cidadão. Temos, sim, que procurar apoio dos órgãos de segurança e fazer ações pontuais, mas, ao mesmo tempo, procurar estabelecer uma política de rede que combata a violência e o desrespeito aos bens comuns e à propriedade privada. Só assim poderemos chegar a uma mudança de comportamento a longo prazo", defende ele, acrescentando que todos os acervos da Funalfa (abrigados na sede da fundação, CCBM, Centro Cultural Dnar Rocha, Bilbioteca Murilo Mendes e Museu Ferroviário) são vigiados 24 horas e possuem monitoramento eletrônico.
Em consonância com Toninho, Douglas Fasolato destaca que a melhor forma de educar a população para a segurança dos centros culturais é promover iniciativas de ocupação deles. "Quanto mais ocupado e frequentado um lugar é, mais seguro ele se torna, porque o visitante acaba se encarregando de zelar por aquele espaço, de garantir a manutenção da qualidade do acesso a ele", afirma Douglas.
