Petrópolis (RJ) – A 120km de Juiz de Fora, Petrópolis reserva novidades para o feriado de Páscoa. Inaugurado ontem, o Centro Cultural 14 Bis, construído atrás da casa onde viveu Santos Dumont (A Encantada), é a mais nova opção para contemplar vida e obra do pai da aviação, com direito a visita interativa. Com previsão de abertura para o turista em maio, a Cervejaria Bohemia expõe – por enquanto somente a petropolitanos – maquinário da primeira fábrica da bebida instalada no Brasil, além da história do produto que se tornou preferência nacional. Outra opção no roteiro é o Museu de Cera, aberto desde setembro de 2011 no Centro Histórico, com 14 réplicas em tamanho real.
Funcionando em dois andares de um casarão tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Museu de Cera de Petrópolis exibe desde astros da música e do cinema a personagens que marcaram a história política e científica, em cenário que remete à trajetória de cada um, com possibilidade de fazer fotos e filmagens. Quem faz as honras da casa é ninguém menos que Santos Dumont, disposto no hall onde o turista adquiri o bilhete de acesso. Atrás da réplica, fotografias da época em que o inventor dava seus primeiros passos rumo ao sonho de voar, na capital francesa.
A política brasileira se faz representada pela linha do tempo que une quem por mais tempo governou o país e a atual administração. No primeiro cômodo da visitação, que pode ou não ser guiada, D. Pedro II e sua filha, a Princesa Isabel, usam trajes de gala para lembrar o ostensivo período em que o príncipe regente se manteve no poder. Basta um lance de escada, que dá acesso ao segundo andar, para adentrar nas dependências do Palácio do Planalto, onde a atual presidente Dilma Rousseff recebe o ex-chefe do Executivo, Luís Inácio (Lula) da Silva, em seu gabinete. Detalhes, por exemplo, como a foto da presidente com o jogador Pelé num porta-retrato, documentos timbrados e objetos de decoração idênticos aos originais tornam o tour mais verossímil.
Como no tempo em que ocupava o Ministério da Cultura, Gilberto Gil é o vizinho de Dilma e Lula. Ao lado do compositor e o set list pregado no chão, um microfone sem dono é o convite ideal para registrar a visita ao primeiro museu de cera inaugurado fora de uma grande cidade.
Todos os sentidos
A cada passo, iluminação e som são reproduzidos no local para atrair os diversos sentidos. Os cabelos (cabeça, barba e bigode) são todos naturais, as roupas e os assessórios foram confeccionados após pesquisa histórica realizada pela dupla de produtores Bruno Villas Bôas e Renato Bontempo. Um dos sócios-proprietários, Villas Bôas ressalta que o custo de cada réplica varia entre U$ 5 mil e U$ 25 mil, sem contar as taxas de exportação e importação. Tamanho investimento, segundo ele, visa a atender uma demanda antiga do turista da região por "padrões artísticos internacionais de hiper-realismo", a exemplo do que ocorre com iniciativas semelhantes executadas em metrópoles como Nova York e Londres.
Não faltam personalidades estrangeiras neste universo de fantasia, como o cineasta inglês Alfred Hitchcock e o físico alemão Albert Einstein. O primeiro, como era de praxe em suas produções, integra o cenário do banheiro onde a mocinha de "Psicose" está prestes a ser assassinada. Já o cientista comprova que o tempo é, de fato, relativo, pois divide a sala com o lendário Dr. Emmett Brown e sua coleção de relógios em "De volta para o futuro". É possível ver de perto também o capitão Jack Sparrow, interpretado por Johnny Depp na série "Piratas do Caribe", o ator britânico Rowan Atkinson (Mr. Bean) e os americanos Christopher Reeve (Superman), Michael Keaton (Batman) e Danny DeVito (Pinguim).
A previsão, de acordo com Renato Bontempo, é dobrar a quantidade de peças em dois anos. Ele adianta que estão na fila nomes como Pelé, Roberto Carlos, Jô Soares e Rita Lee, além de outros ex-presidentes, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. O trabalho leva a assinatura do artista americano Henry Alvarez, morto há dois meses na Califórnia (EUA). Por lá, ele mantinha um ateliê onde se debruçava por três ou quatro meses na fabricação de cada uma das peças encomendadas para Petrópolis.
‘Ouro líquido’
Daqui a um mês, a primeira cervejaria instalada no Brasil reabrirá suas portas ao público. Segundo a diretoria, ainda faltam "reajustes técnicos" para a sede da Bohemia, no Centro Histórico de Petrópolis, concluir sua reativação. Mas, há uma semana, o espaço retomou – em menor escala – a produção da cerveja, transferida para as instalações da Companhia de Bebidas das Américas (AmBev) em 1998. Restrita a petropolitanos, a visitação dura aproximadamente duas horas. O tempo é suficiente para conhecer a história do produto que ganhou a confiança dos brasileiros mesmo antes de começar a ser fabricado por aqui, em 1853, como conferiu a Tribuna no último domingo.
Não faltam aparatos tecnológicos capazes de tornar a visita uma experiência inesquecível. O mergulho na história do "ouro líquido", desde seu surgimento nas sociedades mais antigas ao fortalecimento das marcas na era da comunicação, é feito a partir de jogos interativos, painéis que mudam de lugar, livros virtuais e telas sensíveis ao toque em diversos formatos.
Em treinamento para acompanhar o passeio, os guias – chamados de discípulos do mestre cervejeiro – se espalham para fornecer informações. Mas quase não é preciso, afinal a própria tecnologia dita o caminho. A primeira parte do tour é numa espécie de túnel do tempo, onde cenários pontuam as diferentes partes do Globo por onde a cerveja teria se originado e desenvolvido. No início do caminho, a trilha sonora e a simulação das pirâmides do Egito encantam olhos e ouvidos e promovem um retorno às colheitas de grãos há 9.000 a.C.. E ainda há muitas cores e palavras até chegar à Idade Média, onde a bebida ganha o seu padrinho, Santo Agostinho, e, principalmente, seu reduto, a taberna.
Através do código de barras da pulseira de acesso, o turista é convidado a interagir com a história. Por meio de um aplicativo, é possível construir um brasão, como faziam os comerciantes do passado para indicar a precedência da cerveja. A brincadeira, instantaneamente, pode ser compartilhada via redes sociais. Em seguida, um conjunto de transformações conduz a viagem que a cerveja fez pelo mundo a partir das grandes navegações até o produto ganhar rótulo graças ao método de produção em série, representado por partes do maquinário original da Bohemia.
Diversão e informação para todas as idades, a visita oferece ainda um software com informações sobre a produção de cerveja no Brasil e no mundo, incluindo dados de comercialização, procedência e consumo per capita. O tão esperado convite à degustação – proibido a menores de 18 anos – vem ao final, após a visita aos diferentes processos de fabricação adotados pela Bohemia. Para finalizar, um salão – ao lado do equipamento onde a cerveja voltou a ser produzida – oferece diferentes ferramentas de entretenimento, como fotos em chroma-key e competições virtuais. Tudo, é claro, com foco na disseminação da marca via web, um canal da contemporaneidade bastante explorado para contar a história de um produto milenar.
Além da oportunidade de conviver com o período em que Santos Dumont habitou Petrópolis, sua pitoresca residência (A Encantada) agora tem um motivo a mais para atrair público de todo o mundo. Com projeto – voltado a portadores de necessidades especiais (elevador, maquete tátil interna e externa, DVD em libras, catálogo em braile e audioguide) -, o Centro Cultural 14 Bis foi inaugurado ontem nos fundos da casa do aviador, antiga residência da governanta de Santos Dumont, dona Eulália. O novo espaço conta com réplicas das dependências da Encantada, como o banheiro de Santos Dumont, oficinas pedagógicas, lanchonete, salas multimídia, de exposições e de convivência, além de guias para visitas orientadas em português, inglês e espanhol. Por meio de nota, o sobrinho-neto do inventor, Jorge H. Dodsworth, declarou que realizou um "sonho acalentado há 21 anos".
