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Entre pães e livros

daniel valentim que ja tem dois livros publicados abre padaria neste sabado para evento literario

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Daniel Valentim, que já tem dois livros publicados, abre padaria neste sábado para evento literário
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Daniel Valentim, que já tem dois livros publicados, abre padaria neste sábado para evento literário

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Ao fundo, um jazz tocando. No fundo, uma pequena livraria com títulos de poesia, conto, receitas e biografia. Para os que passam apressados, uma padaria e nada mais. Se perguntarem a Daniel Valentim Mansur, no caixa, certamente ele dirá de mais um desafio, mais uma aposta, dentre as muitas que já fez. Aos 38 anos, arrisca-se como dono de uma padaria, ao lado de um tio que é sócio, equilibrando e dividindo o tempo com o último negócio, uma editora. No espaço (Bartlebee Deli – Rua Antônio Altaf 460 – Cascatinha) onde hoje circula o perfume do pão quente, ele imprimia e prensava os próprios livros, de maneira completamente artesanal. Foi preciso diversificar e Daniel pensou em outro alimento.

Formado em jornalismo, sabia das letras e muito pouco sobre os pães. “Logo que comprei a padaria, fiquei muito tempo com o padeiro e comecei a pesquisar sobre fermentação natural. Tentei por várias vezes fazer o fermento até que, na quinta vez, vingou”, conta ele, que não pensa em viver só de comida, mas de diversão e arte. “A ideia é usar o espaço com cultura. Queremos receber lançamentos de livros, inserindo a casa em eventos literários”, diz, anunciando para este sábado sua estreia na cena, com o lançamento do livro “I” (Editora TextoTerritório) e da plaquete “Olhos livres” (Edições Macondo), ambos de Alexandre Faria, além de receber uma versão pocket do Eco – Performances Poéticas.

O fracasso deu o pontapé

É a primeira vez que Daniel se vê em meio a bolos e doces, mas não é a primeira vez que divide espaço com os livros. “Tive uma livraria que não deu certo. Era uma franquia, no Alameda, e durou um ano e meio. Pensamos em transformar, na época, num bar, mas acabamos desistindo”, recorda-se ele que desejava, já na ocasião, investir numa loja virtual de comercialização de e-books. Criou, então, a Bartlebee. Não resistiu e se rendeu à produção. “Fiz uns contos e mandei para diversas editoras. Não consegui publicar”, lembra. O primeiro título reunia os tais contos, “Manual prático das ocupações perdidas”, e foi publicado em 2012.

A ousadia só foi possível porque Daniel, envolvido nas questões editoriais desde que abriu sua franquia de livraria, aprofundou-se no que havia de mais moderno no mercado nacional. “Comecei a ver a impressão digital com uma qualidade muito maior. Na Bienal do Rio conheci a Singular, que era uma distribuidora e gráfica criada pela Ediouro para trabalhar com impressão sob demanda”, conta ele, que, então, formalizou a editora e o contrato com a Singular, inserindo, assim, suas publicações nas lojas virtuais de grandes livrarias, como a Cultura e a Saraiva. Quando os pedidos eram muito pequenos, ele mesmo fazia em seu espaço.

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Os livros que desejava ler

Havia um selo, uma abelha ilustrando a logomarca, um primeiro livro, esquema de impressão e distribuição. Faltavam os autores. Daniel lembrou-se, então, de um roqueiro e escritor que havia entrevistado anos antes. Publicou Tadeu Sarmento e suas poesias em “Paisagem com ideias fixas”. “Ele é um dos grandes escritores ainda não descobertos”, comenta. Tadeu, por sua vez, indicou-lhe Diego Moraes, um amazonense de vasta produção. O tiro certeiro estava dado. Nos últimos meses, Diego tem circulado pelas rodas literárias por ser a grande aposta deste ano da gigante Editora Record. Não à toa. Antes de ser fisgado por uma grande editora, o amazonense publicou dois títulos pela Bartlebee.

“A fotografia do meu antigo amor dançando tango” foi a primeira aposta de Daniel, ainda em 2012. Um ano depois mirou em “A solidão é um deus bêbado dando ré num trator”. Em seguida, Diego publicou pela portuguesa Douda Correria e, ainda, pela paulista e artística Corsário-Satã e pela de médio porte Penalux, o recente “Meu coração é um bar vazio tocando Belchior”. “Ele é um cara que corre muito atrás, seus contos são sensacionais”, comenta o editor da Batlebee, revelando que o amazonense lhe traz muita visibilidade entre os escritores nacionais. “Ele sempre trouxe gente para a editora. As pessoas entram em contato pelo site e enviam seus originais. Tudo acontece pela internet.”

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Sem modelos para poesia

Bastam alguns minutos diante de Daniel para perceber o brilho nos olhos que o move. Nascido em Belo Horizonte, passou por Juiz de Fora, Vitória (ES), Ilha do Governador (RJ) até chegar, aos 7, em Manaus (AM). Há cinco anos, retornou para a Juiz de Fora da família paterna. Na bagagem, trazia um diploma em jornalismo conquistado após nove anos de estudo (quase jubilou!). Trabalhou seis anos como repórter e logo os olhos brilharam para outro rumo. Na editora Bartlebee, suas contas são exatas: só existem os livros físicos para quem quiser ler. A impressão é sob demanda, ou seja, o arquivo só chegará à gráfica se alguém se interessar. Sem exageros e sem grandes expectativas.

Em toda a sua trajetória, a editora teve como maior tiragem um livro de medicina, serviço prestado que não carrega o selo Bartlebee e fez circular 2.500 exemplares. Fora isso, o recorde está com os poemas “Perdoe-me tanto laquê”, de Juliana Gervason, que vendeu cerca de 400 cópias. “O maior faturamento num mês que tivemos foi de R$ 25 mil. Mas não é constante, no mês seguinte foi R$ 2 mil. Não é uma grana fixa”, afirma. Utópico?, pergunto. Daniel ri, a confirmar. “É preciso escolher um modelo. Se quiser viver de maneira excepcional, atrás de best-sellers, precisa conseguir pelo menos quatro títulos num ano. Outro esquema é o da (editora) Martins Fontes, que não tem nenhum best-seller, mas trabalha só com cauda longa, com livros acadêmicos, de filosofia, que não vendem um milhão de cópias, mas vendem um pouco todos os meses por muito tempo. São esses dois modelos. Agora, para a poesia, não existe, ainda, um modelo viável.”

Daniel insiste. Valente que é, como o nome. Ano passado lançou “Da cor que faz”, de poesias, pela editora Texto Território, e prepara “O apocalipse segundo o cavalo”, também de versos. “Escrevia bastante, principalmente na época da graduação. Depois parei completamente. Quando voltei a estudar, a fazer mestrado, recomecei e fiz alguns contos. Passei para um amigo jornalista e ele me escrachou. Fiz cem cópias e não lancei o livro, por vergonha”_ conta, referindo-se ao livro de estreia da Bartlebee. “Depois desse baque não fiz mais nada, até conhecer o Alexandre (Faria), de quem fui aluno e estagiário”, recorda-se. Num momento em que Juiz de Fora desfruta de diversas iniciativas editoriais, como a Edições Macondo, Edições Matinta, Aquela Editora, Texto Território, e algumas outras, Daniel pertence ao grupo dos que não apenas leem, mas fazem ler. Entre pães e livros, alimenta o corpo e o intelecto.

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