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‘É um livro de emoção, culpa e remissão’

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Ignácio de Loyola Brandão conversa sobre o livro
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Ignácio de Loyola Brandão conversa sobre o livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos”, seu mais recente lançamento

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Sempre que vou começar a gravação do “Sala de leitura” para a Rádio CBN Juiz de Fora, faço questão de dizer para o entrevistado que ficamos seis minutos no ar. Contudo, a conversa costuma ir longe e ultrapassar, e muito, o tempo estipulado. Segundo convidado do quadro, o escritor Ignácio de Loyola Brandão não se limitou à duração prevista, pois as reminiscências tomaram as rédeas do jogo e comandaram o bate-papo sobre o livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos” (Moderna, 64 páginas). A obra ganhou as prateleiras no final de 2014, engrossando a lista de mais de 40 publicações assinadas pelo cronista, contista, romancista e jornalista de 79 anos. Em primeira pessoa, o escritor traz à tona, mais de seis décadas depois, uma travessura vivenciada na época de menino. Seu avô era marceneiro dos bons. Após perder, em um incêndio, um carrossel de brinquedo (obsessão com a qual andava pelo interior da cidade) que talhou, o velho guarda as bolas de gude que serviam de olhos para os cavalos em uma pequena caixa acondicionada numa das prateleiras mais altas da marcenaria. O garoto Ignácio não tinha ideia do quanto aquelas bolinhas brancas significavam para o avô e as pegou. Conforme o escritor, o episódio foi, justamente, o ponto de partida para o que ele chama de confissão tardia.

De acordo com a editora a editora, “Os olhos cegos…” é indicado para o público infanto-juvenil, porém, seu autor prefere esquivar-se de classificações. “Crianças podem ler, como meus netos leram, adoraram e ficaram perguntando pelo tataravô, e já vi adultos lendo. A escritora portuguesa Lídia Jorge ficou encantada com ele e me mandou uma carta. Sabe o que acho? A gente escreve e não tem idade para ler. Com 12 anos, li Jorge Amado, em Araraquara, e qual é o problema? É um livro para todos os públicos. É um livro de emoção, de culpa e remissão. Tudo o que nós todos trazemos dentro da gente”, sentencia ele, às vésperas de voltar a Minas Gerais para participar do Festival Literário de Poços de Caldas. O evento acontece entre os dias 25 de abril e 3 de maio com a presença ainda de outros conhecidos nomes, como Vicent Villari, Santiago Nazarian, Thalita Rebouças, Ziraldo, Tássia Camargo e Babi Dewet.

Nascido em 1936, Ignácio de Loyola escreveu o primeiro livro, “Depois do sol”, em 1965, há exatos 50 anos. Depois, vieram vários romances, contos, crônicas, infanto-juvenis e de viagens. Entre as dezenas de criações, está o, talvez, mais polêmico de todos “Não verás país nenhum.” O livro traz para os leitores a história de um lugar onde tudo era controlado por um tipo de governo totalitário. Águas poluídas, avanço do deserto, doenças estranhas e misérias crescente compõem o cenário descrito. Dono de um discurso direto e franco, dessa vez o escritor não discursou sobre temas densos, como a realidade brasileira retratada em “Zero”, livro no qual reproduz o Brasil dos anos 1960, e se limitou a relembrar as traquinagens inocentes de sua infância.

Tribuna – Por que fazer essa confissão mais de 60 anos depois?

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Ignácio de Loyola – A vida tem dessas coisas estranhas. Fiquei travado durante todo esse período. Eu tinha uma culpa por ter roubado as bolinhas que eram os olhos dos cavalos de um carrossel que meu avô tinha feito e que tinha representado um momento muito importante da vida dele. Esse carrossel foi queimado num incêndio, tudo o que sobrou foram as bolinhas. Elas ficaram 30 anos numa caixa na oficina dele até que as perdi todas num jogo de bola de gude. Isso me causou um mal-estar muito grande. Ele nunca quis conversar comigo sobre o assunto e nunca consegui pedir desculpas pessoalmente. Fiz isso depois desse tempo todo pelo livro. A literatura também é para isso.

– Teve um motivo para começar a escrever justamente agora?

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– Na verdade, não comecei a escrever agora, comecei a escrever há mais de 30 anos. Num determinado dia, já um escritor profissional, decidi: “agora vou começar a escrever essa história”. A história não saía, tinha algo que me impedia, e não sei o que é. Todos os anos tentava de novo. Fiz dez versões, depois eu desisti. À medida que eu envelheci, depois que me aproximei mais da idade do meu avô e que tomei mais conhecimento da vida, a história começou a engrenar na minha cabeça. Começou a se arrumar com começo meio e fim. Senti que estava pronto para escrever, mas ainda assim não conseguia. Num determinado dia, no Paraná, numa conversa no Sesc, quando fazia um circuito por várias cidades com a Marina Colasanti, que é uma brilhante contadora de histórias, o povo pediu para terminarmos contando uma história. Ela contou uma linda, e eu falei “e agora?” A história do meu avô veio. Quando terminei de contá-la, vi que ela saiu pronta, e toda a plateia tinha lágrimas nos olhos. Fui para o hotel e comecei a colocá-la no papel. Depois disso, ainda fiz duas, três versões, mas ela saiu naquele momento.

– Você acredita que seu avô te perdoou?

– Acho que ele me respondeu no dia em que fui autografar os livros. Eu tinha a caixinha vermelha que guardava as bolas sobre a minha mesa, não as bolinhas antigas, claro. Ando com isso como um talismã. Uma criança veio e disse: “posso pegar uma bolinha?”, ao que respondi que sim. Uma outra falou: “ah, também quero”, e eu disse que podia levar. Uma mãe veio e falou para o filho parar com isso, porque as bolinhas eram minhas. Respondi que as bolinhas eram do meu avô e que voltariam a ser dali em diante. Senti uma calma imensa, senti que ele tinha me perdoado. Na verdade, ele me perdoou. Ele era um marceneiro em 1910, 1911, numa cidade do interior do Estado de São Paulo. Era um grande artista, que saía de cidade em cidade com o carrossel. Como ele não conseguiu pintar, colocou bolinhas de gude nos olhos dos cavalos. As crianças gostavam de dizer que o cavalo cego era o que tinha as bolinhas dos olhos transparentes, o do vulcão era o que tinha bolinha vermelha e assim por diante. Foi um período tão feliz que ele conseguiu dinheiro para comprar a casa depois disso. O carrossel era iluminado por querosene, já que na cidade não tinha energia elétrica, e pegou fogo. Meu avô disse que passou horas e horas mexendo nas cinzas quentes para pegar as bolinhas. Ele falou para a mulher que aquele foi um momento muito bonito e que Deus mandou queimar o brinquedo por alguma razão e que não queria que ninguém tocasse nas bolinhas. Daí a minha culpa. Eu toquei, eu perdi.

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– Em algum momento, ele culpou os netos pelo sumiço?

– Curiosamente, meu avô não acusou nenhum neto, eram muitos netos. Ele falou para minha avó ficar sossegada porque não tinha sido nenhum neto dele. Quando minha avó pediu que alguém contasse quem foi, ele também falou que não tinha neto delator. Era ele quem fazia os presentes para cada criança. Naquele Natal, ele entregou o brinquedo para todo mundo e, de repente, me deu a caixinha vermelha onde guardava as bolinhas. Ele sempre soube que era eu, deu um sorriso e nunca tocou no assunto. Imagine a minha cabeça.

– Você é o convidado da Flipoços, que tem como tema a literatura como resgate da infância. É um assunto que casou bem com sua obra.

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– Tenho muita ligação com Minas, porque meu primeiro livro infantil, chamado “Cães danados”, foi publicado em Belo Horizonte pela editora Comunicação. Vamos discutir essa coisa de todos os públicos. Não tem gênero.

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