
Ben Roots, com seu sotaque mineiro, quer voar alto: É um objetivo meu chegar ao mainstream (Foto: Luiza Ananias)
Selva de pedras, São Paulo fez de sua identidade o espaço urbano, característica primeira do grafite e do rap, cujo raiz é a mesma, o hip-hop. Existe rap em SP, mas também em BH. E em muitas outras bandas. Ben Roots flerta com as sonoridades paulistas, mas faz questão de expor suas raízes de Minas. Tanto que em “Cansaço”, uma das canções de seu novo álbum, homônimo, logo nos primeiros versos saltam aos ouvidos seu sotaque mineiro – principalmente na supressão do “s” em algumas palavras, que restam como “fazê” e “podê”. Uma honestidade que dialoga com a própria letra: “Vamos de trabalho honesto então, trazendo a diferenciação rimando a qualidade, porque falar é fácil, difícil é falar verdade.”
Curiosamente, a música que valoriza a raiz (geográfica) é de muitas raízes (estilos). É roots (raiz). É reggae, mas também pop, samba e forró, como apresenta o músico em show gratuito neste sábado, na Praça Antônio Carlos, abrindo a turnê do novo disco, terceiro de uma carreira que já soma mais de uma década. “O reggae surgiu na minha vida quando eu estava formando minha identidade como pessoa e como músico. Sempre gostei de ouvir, sem saber o porquê. O que me aproximou do reggae declarado foi ouvir Manu Chao e depois Bob Marley em profundidade”, conta o artista que completa 30 anos no próximo dia 13.
Mais identificados com o gênero de origem jamaicana, os dois primeiros discos de Ben Roots contavam com uma banda fixa e apresentavam unidade maior pela fidelidade com as temáticas e sonoridades próprias do reggae. O terceiro álbum, porém, demarca outro momento na trajetória do músico que após se graduar em publicidade voltou para as salas de aula afim de cursar música. “Estudar me ajuda a transitar por diferentes estilos, porque na faculdade vemos e aprendemos tudo”, comenta ele, que abriu mão da banda fixa para convidar músicos com afinidade com cada uma das 16 faixas do trabalho.
“A mudança que o terceiro álbum traz é o fato de ser o primeiro disco solo. E essas influências que aparecem nele, tive desde sempre, são estilos que admiro e ouço. A variedade do disco vem do meu mundo da música”, diz Ben-Hur no registro civil e Ben Roots no palco. Coerente, o álbum expõe um músico-pesquisador, capaz de transitar pelos estilos tanto pelo som quanto pelas letras. “Meu processo de composição é um exercício, uma prática. Quando sinto qualquer coisa, alegria ou angústia, externo e eternizo escrevendo. Serve como uma válvula de escape para eu mudar meu foco.”
Da singeleza de “Só saudade”, uma declaração de amor desfeito, ao humor do forró “Me disse que não”, sobre um flerte não correspondido, Ben Roots revela-se um contador de histórias, autor de imagens potentes e discursos complexos. “O rap ‘Cansaço’, por exemplo, é um desabafo, que fala um pouco dos desafios que nós, músicos, e as pessoas em geral enfrentam na vida. Do desejo de querer fazer e encontrar barreiras. Já o samba ‘Copo vazio’ é uma forma de externar uma situação que vivi, de cachê baixo e condições ruins de show, satirizando tudo. Já ‘4:20’, um reggae, discute a revisão da política de criminalização das drogas. Em ‘A prece’, que recebo o Renegado, é um canto, com batida de rap sobre a fé na minha vida”, aponta.
O punho cerrado do independente
Música, segundo Ben Roots, é letra e melodia. É também telefonema. É o áudio da TV, a gravação do rádio, o ruído do dia a dia. Em “4 de paus”, o músico elenca aparentes mensagens de amigos em sua caixa postal, com assuntos profissionais e pessoais. Exercícios de um artista que experimenta sem se deixar hermético. Quer comunicar, acima de tudo. Como o conterrâneo Flávio Renegado, um dos rappers mais reconhecidos na nova geração, com atuação múltipla em gêneros também, Ben confirma um momento criativo. “O rap, o reggae, como o restante da música em BH, está num momento interessante. Mas falta mais união para que tenha mais força”, comenta ele, que faz sua parte convidando parceiros como o próprio Renegado, Mateus Gontijo (da banda Terral) e Alexandre Maia (da Manitu), dentre outros.
Seguindo os passos de Emicida e Criolo, que partiram do rap para uma expressão mais popular, Ben Roots também persegue públicos mais amplos e processos mais fácies. Independência não é o contrário de morte, afirma, mas cansa. “Esse terceiro disco consolida minha carreira. Para ele sair como saiu, venho planejando e trabalhando desde 2012, quando lancei o segundo. O processo criativo vem desde 2010. Já era uma vontade antiga minha fazer um álbum grande, um disco de fôlego, visitando estilos que gosto, sem preconceitos. Por ser independente tem um sabor diferente, um orgulho. Mas é um objetivo meu chegar ao mainstream. É nessa direção que estou trabalhando.”
BEN ROOTS
Show neste sábado, 4, às 16h, na Praça Antônio Carlos

