
Considerado o ‘topo’ da escala evolutiva, o homem passa de predador a caça em ‘No coração do mar’
“Trate-me por Ishmael. Há alguns anos – não importa quantos ao certo -, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que, sem querer, me vejo parado diante de agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas – então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar.” Foi desta forma que Herman Melville deu início a “Moby Dick”, um dos grandes clássicos da literatura universal. Lançado em 1851, o colosso literário contava – mais que a malfadada história do baleeiro Ishamel, que relata os fatos em primeira pessoa – a obsessão, o desejo de vingança, a ira incontida e os fantasmas que assombravam o Capitão Ahab, decidido a não medir qualquer consequência em sua caçada ao mítico cachalote branco destruidor de navios.
Capaz de fazer qualquer ser humano a refletir até onde pode ir o demônio interior de cada um, “Moby Dick” tem uma característica que, até hoje, muitos – talvez a maioria – não saibam: Melville criou sua história a partir de um fato real, ocorrido na década de 1820, que chegou aos livros no ano 2000 graças ao americano Nathaniel Philbrick, autor de “No coração do mar”; agora, os trágicos acontecimentos relatados pelo autor chegam aos cinemas em um filme com o mesmo nome, tendo na direção Ron Howard e Chris Hemsworth (o Thor dos filmes da Marvel) no papel principal, além de Tom Holland (o próximo Homem-Aranha), Cillian Murphy (“Batman begins”) e Ben Whishaw (“007 – Operação Skyfall”, como Herman Melville). A produção, que aporta nos cinemas americanos nesta quinta-feira, chega ao Brasil com uma semana de antecedência.
Mias impressionante que a ficção
Diretor de sucessos como “Apollo 13”, “Uma mente brilhante” e “Rush – No limite da emoção”, Ron Howard faz o “seu” “Moby Dick” a partir do livro de Philbrick, que recontou a história dos 21 tripulantes do baleeiro Essex graças aos registros de dois sobreviventes: o primeiro imediato Owen Chase (Chris Hemsworth), que escreveu sobre a provação do Essex logo após o corrido; e o grumete Thomas Nickerson (Tom Holland), que registrou suas memórias apenas na velhice, sendo que estas ficaram perdidas até 1960. A história tem início em 1819, em Nantucket, vila de pescadores em Massachusetts de onde partia boa parte dos navios americanos que caçavam baleias (assim como é mostrado em “Moby Dick”), e que eram capazes de ficar pelos oceanos por dois anos, pelo menos, à procura dos mamíferos marinhos.
A tripulação do Essex, comandada pelo capitão George Pollard (Benjamin Walker), segue em sua empreitada, caçando e matando baleias atrás – principalmente – do espermacete, líquido ceroso que era encontrado em abundância nas gigantescas cabeça dos cachalotes, podendo render até dois mil litros a cada animal macho abatido. O produto, cobiçado entre os séculos XVIII e XX, era utilizado para diversos fins, fossem em cosméticos, velas, vitaminas e detergentes, entre outros, além de mais de 70 compostos farmacêuticos.
A sorte do baleeiro muda dramaticamente, entretanto, quando se encontram no Oceano Pacífico. Um gigantesco cachalote passa a perseguir o Essex até destrui-lo e afundá-lo em 20 de novembro de 1820. Os sobreviventes, então, precisam lutar contra todas as probabilidades negativas para chegar até o continente: sem comida, água e capacidade de orientação, eles ficam no limiar do desespero e do desengano enquanto ainda precisam evitar que o cachalote – a fim de cumprir sua “missão” – acabe com todas as suas ínfimas chances de sobrevivência, passando três solitários e desesperadores meses até conseguirem ser resgatados, em fevereiro de 1821, na costa da América do Sul, a mais de três mil quilômetros do local do naufrágio.
Fúria animal
É difícil saber o que teria levado o cachalote a atacar com tamanha fúria o Essex, mas é fácil imaginar o quão desesperador deve ter sido a situação dos baleeiros. O cachalote, ainda hoje, é o maior mamífero com dentes e o maior carnívoro do planeta, com os machos alcançando, em média, os 18 metros de comprimento e as 50 toneladas de peso. Devido a mandíbulas expostas em museus, com mais de cinco metros de comprimento, acredita-se que os exemplares machos fossem capazes de alcançar entre 25 e 28 metros de comprimento no século XIX, e a pesar até 150 toneladas. É um animal desta envergadura e capacidade de destruição (supõe-se que o cachalote use sua cabeça como aríete, quando necessário) que Ron Howard apresenta em “No coração do mar”, tendo como adversário um navio menor que ele e construído em madeira. O fato de o mamífero poder submergir a mais de dois mil metros de profundidade e prender a respiração por até 90 minutos ajuda ainda mais a aumentar o clima de tensão entre os baleeiros – e o público, claro.
Além da impressionante e assustadora criatura gerada graças à tecnologia computadorizada de nossos dias, outro ponto a ser destacado em “No coração do mar” é a transformação a qual os atores precisaram se submeter durante as gravações para refletir a penúria passada no oceano sem comida e água. Chris Hemsworth, por exemplo, publicou uma foto sua na internet 20kg mais magro, literalmente pele e osso, graças a uma alimentação diária inferior a 600 calorias para alcançar a aparência física exigida pelo personagem.
Porém, mais que os efeitos especiais, o “trabalho de ator”, a violência e o desespero da solidão em pleno oceano no século XIX, “No coração do mar” tem tudo para mostrar algo que nós, humanos, costumamos esquecer em nossa (inconsciente?) arrogância: por mais que tenhamos a inteligência e a capacidade de exterminar todas as espécies do planeta, ainda somos miseravelmente frágeis diante da fúria e poder de criaturas que – dadas como “irracionais” – são capazes de provocar não apenas medo, mas nossa morte quando nos confrontamos com elas sem qualquer tipo de tecnologia a nos apoiar.
NO CORAÇÃO
DO MAR
UCI 2 (3D/dub): 13h15, 18h25 (todos os dias) e 23h35 (sexta-feira e sábado). UCI 2 (3D): 15h50 e 21h. Cinemais 4 (3D/dub): 14h20 e 19h20. Cinemais 4 (3D): 16h50 e 21h50
Classificação: 14 anos

