Em um espaço cênico retangular de 4m x 2,5m, um sujeito qualquer desfia suas inabilidades para ser humano. Enquanto isso, seu irmão mais velho leva às últimas consequências o fato de estar vivo. A antítese se acomoda em um apartamento de metrópole, desses com cheiro de solidão, sequilhos e café. Algo conhecido da plateia. No espetáculo "O cego e o louco", produção da Companhia Cascudo, o espectador está dentro da cena, tanto por se identificar com as angústias contemporâneas dos personagens quanto por se posicionar entre o cenário. A Tribuna acompanhou um dos últimos ensaios da montagem, que estreia hoje, com direção de Rodrigo Portella e apoio da Lei Murilo Mendes. No domingo, houve uma sessão especial para convidados.
Os atores Gibran Lamha e Samir Hauaji escancaram-se para Lázaro e Nestor. O primeiro, dono de um cotidiano entediante e medíocre, coleciona frustrações. O segundo, um pintor hoje cego, diz ter experimentado de tudo para escapar da pequenez. "Um coloca as coisas para dentro, e o outro, para fora", sintetiza Portella, elogiando o tom que a autora baiana Cláudia Barral confere à narrativa. "Saboroso e irônico", completa. Morte, fracasso e desilusão estão presentes no texto, mas envoltos por certa leveza e, até mesmo, uma camada de humor. De acordo com o diretor, o fato de a dramaturga ter criado a obra aos 19 anos justifica a questão.
Não foi possível deixar de lado as próprias facetas para encontrar os caminhos dos protagonistas. Elenco e diretor acabaram se misturando às figuras, que parecem doar um pedaço de si para cada indivíduo atual. "Todos temos um pouco de um e de outro. Todos nos sabotamos ou recorremos à loucura às vezes", menciona Gibran, que topou com a peça em 2007 ao assistir a um programa de TV sobre teatro. Desde então, passou a selecionar possíveis parceiros.
O jovem artista, de 29 anos, admira-se com o comportamento de Lázaro, sempre pronto a lançar o próximo não. Sem procurar caracterizar-se como velho, o ator preferiu compreender melhor a ideia de não ter mais tempo pela frente. Por outro lado, Samir, 39 anos, revela que Nestor exigiu dele um transbordamento perigoso, difícil de ser deixado para trás. "Ele faz – ou fez, ou fala que fez – o que todo mundo gostaria de fazer."
Após passar dias e dias em uma sala com o texto nas mãos, a equipe foi para o trabalho armada de cumplicidade. No início, o combinado era que o espetáculo se encerraria com um nu. Ao executarem a cena, uma única troca de olhares disse tudo: aquela não era a melhor escolha. Questionado sobre o discurso da montagem, Rodrigo Portella observa que não buscou personagens acabados ou mensagens concluídas. "A peça diz o que as pessoas vão ouvir. Tudo depende da história de cada um", acrescenta ele, cultivando o palpite de que os espectadores mais velhos, talvez, identifiquem-se mais com a loucura palpável vista entre os elementos cênicos: luminárias, bandolim e um pequeno realejo. "Estabelecemos um clima de intimidade. São os próprios atores que manuseiam a luz e o som", complementa o diretor.
Sem colocar um ponto final na própria criação, Gibran comenta que saiu de um processo para entrar em outro – o das encenações, ainda mais desafiador. Samir concorda, afirmando que a peça seguirá em construção até o fim da vida. "E que sejamos longevos", brinca. "O cego e o louco" tem produção de Zezinho Mancini, Giovana Bellini e Carol Mendes, da Santo Expedito Comunicação & Cultura. O figurino é de Dani Brito, e a trilha sonora, de Felipe Tavares. Fabrício Carvalho assina o cenário, e Douglas Zimmermann, a arte gráfica.
Hoje, amanhã e dias 17 e 18, às 20h30
Estação Cultural
(Rua Halfeld 235 – Praça da Estação)
