Gonzaguinha é uma das figuras brasileiras mais emblemáticas de todos os tempos — músicas como “O que é, o que é”, “Lindo lago do amor”, “Sangrando” e “Explode coração” marcaram gerações, mas também revelam a profunda ligação do músico com a cultura brasileira e a história do país. Apesar de toda essa importância, Carlos Eduardo de Souza Costa revela que percebeu uma ausência de trabalhos acadêmicos significativos sobre esse compositor, diferentemente do que aconteceu com outros autores importantes da MPB, para os quais foram dedicados mais estudos.
É essa lacuna que ele pretendeu preencher durante a sua extensa pesquisa de doutorado, e que resultou no livro “Gonzaguinha e o povo brasileiro: cultura e política em tempos de ditadura (1968-1985)”. A obra se dedica à trajetória do artista e sua atuação enquanto “intelectual público”. Em Juiz de Fora, o lançamento da Editora Rima ocorre nesta quarta-feira (4), às 19h, no Madame Gevah.
A compreensão do compositor como intelectual público tem a ver, fundamentalmente, com a percepção de que o Gonzaguinha utiliza a produção artística e a produção intelectual como um espaço de discussão sobre o Brasil. Isso ocorre, como explica o pesquisador, principalmente durante o período mais duro da ditadura, que são os chamados “anos de chumbo” (de 1968 a 1974) e, mais adiante, também durante o período de distensão política, da abertura e do processo de redemocratização. “Uma parte muito grande da obra do Luiz Gonzaga Jr. se dedica a pensar a sociedade brasileira e seus aspectos políticos, culturais, econômicos e sociais”, destaca o escritor e músico juiz-forano.
Para ele, Gonzaguinha é um intelectual público justamente porque “busca a todo instante orientar politicamente e ideologicamente a sua audiência”. Apesar de ter formação em Ciências Políticas e Econômicas na Faculdade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, ele se diferencia por se converter em um artista capaz de trazer essas reflexões sobre o país dentro de suas músicas — e, assim, alcançar uma audiência ampliada.
Além disso, o artista foi responsável por formar correntes de opinião dentro da sociedade brasileira, a partir do que chama de “compromisso de resistência contra a ditadura e denúncia das desigualdades sociais”. Durante esse período, como lembra o autor, o regime ditatorial e o aparelho de censura tiveram um impacto grande sobre a produção artística dentro da cultura brasileira e as artes performáticas em geral, o que também atingiu Gonzaguinha.
“O aparato censório que se estabelece sobre os artistas em geral vai acabar produzindo estratégias de composição e estratégias narrativas que vão ficar conhecidas como ‘redes de recados’”, diz. Sendo assim, os artistas, buscando se utilizar de diversos recursos líricos expressivos e linguísticos, tentavam passar suas mensagens de forma cifrada de modo a burlar o controle da censura.
Apesar de considerar toda essa trajetória muito singular, Carlos Eduardo também conta que foi decisivo, na sua escolha pelo músico durante a pesquisa, algo sobre sua trajetória pessoal: uma identificação com o músico. “Ele é um sujeito que teve sua infância marcada por uma experiência fortemente popular. Foi criado por seus padrinhos e pais adotivos no Morro de São Carlos, no subúrbio do Rio de Janeiro, e no Bairro do Estácio, e depois faz um deslocamento muito importante para o circuito da classe média intelectualizada e universitária”, explica.
O autor também teve uma caminhada que dialoga bastante com esse movimento. Veio de origem popular, tem pais trabalhadores braçais e foi criado na periferia de Juiz de Fora, até se formar na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e continuar os estudos na pós-graduação. “A universidade acabou fazendo com que eu operasse um deslocamento que diz respeito ao meu espaço social, de adentrar esse universo das classes médias intelectualizadas”, explica.
Poéticas do homem comum
O autor considera que um dos aspectos que espera que o leitor possa descobrir, e que foi centro de sua análise, é o que chama de “poéticas do homem comum”. Ele analisa de que maneira Gonzaguinha busca criar um conjunto de representações sobre quem é o trabalhador brasileiro e identifica três estruturas de representação desses trabalhadores brasileiros ao longo de sua obra, entre 68 e 85.
Ele classificou esses três momentos como “poéticas da insubmissão”, marcadas pelo confronto contra as desigualdades sociais e as estruturas autoritárias da ditadura; “poéticas da angústia”, que trazem representações do trabalhador em que o Gonzaguinha, como intelectual, se manifesta contrariado, porque o trabalhador parece apresentar uma certa passividade política; e “poéticas da comunhão”, que ocorrem especialmente a partir de 1978, quando o artista produz músicas que apontam para uma necessidade de solidariedade entre as massas trabalhadoras e as classes médias.
Atualidade no debate público
Para o autor, há muitos pontos da obra de Gonzaguinha e de sua trajetória que dialogam com a atualidade, reforçando a importância de a pesquisa chegar até o público, agora em livro. Entre os aspectos que mais chamam a sua atenção, está a relação do artista e intelectual com as massas trabalhadoras — ainda mais no que diz respeito ao campo progressista, dentro do qual essa relação do intelectual com o povo deveria se dar para superar problemas históricos de desigualdade na sociedade brasileira. “Mas, muitas vezes, esse intelectual fala de um lugar distante da experiência das massas trabalhadoras”, reflete ele.
Outro diálogo que Carlos Eduardo acha importante e para o qual Gonzaguinha já chamava a atenção era sobre as dificuldades do processo de redemocratização do Brasil. Isso ocorre sobretudo durante o momento da obra do artista que o pesquisador identifica como “poética da comunhão”. “Gonzaguinha fala o tempo todo que a redemocratização do país precisa ser bastante vigiada pelo povo e pelos intelectuais, porque corre-se o risco da nossa democracia manter marcas de um passado autoritário e ditatorial. Ele deixa isso muito claro, inclusive, em entrevistas para a grande imprensa no começo dos anos 1980. E é interessante pensarmos como esse cuidado que ele disse que temos que tomar se manifesta hoje”, destaca, sobre o momento atual do Brasil.

