Enquanto aguarda por uma reforma, o Museu Usina de Marmelos Zero enfrenta sérios problemas de infraestrutura e falta de conservação. Em visita ao local na última terça, a Tribuna flagrou fiação exposta, forro do teto desabando, pintura descascando, iluminação precária, poeira, cheiro de mofo e piso danificado. O local abriga documentos valiosos, de fins do século XIX e início do século XX, como livros de ata e contabilidade dos primeiros acionistas da Companhia Mineira de Energia, contas de luz, fotografias antigas e rascunho da planta da usina.
Objetos e outros registros ocupam um expositor próximo a uma janela, recebendo a incidência da luz solar. Apenas um vidro, colado nas bordas com fitas adesivas, protege esta parte do acervo, já amarelado e dividindo espaço com teias de aranha. No entorno, mato alto, placas enferrujadas e lixo nas margens do Rio Paraibuna aumentam a sensação de abandono.
"A recuperação do patrimônio é uma preocupação nossa. Estamos com perspectivas de fazer algumas propostas de melhorias, conseguir equipamentos novos e deixar o museu mais interativo", garante o professor Eloi Teixeira César, diretor do Centro de Ciências da Universidade Federal de Juiz de Fora, instituição responsável pela administração do museu desde 2000 através de um convênio firmado com a Cemig, que recebeu a concessão de uso do espaço em 1980. O professor também antecipa detalhes de uma restauração, prevista para começar até o início de 2014 e orçada em cerca de R$ 120 mil. A licitação da empresa que fará a obra foi realizada em outubro. "Quando retornar de Brasília, dentro de uns 20 dias, cuidarei dos trabalhos", afirma o reitor Henrique Duque, por telefone, à Tribuna.
Falta segurança
Idealizado pelo industrial Bernardo Mascarenhas e inaugurado em 1889 para sediar a primeira usina hidrelétrica da América do Sul, o prédio foi transformado em um espaço cultural e museu em 1983. Suas instalações, conhecidas por juiz-foranos e turistas como um dos principais pontos históricos da cidade e do país não raro servem de fonte de pesquisa a inúmeras escolas. Até ser fechada, há um ano, a construção era aberta à visitação de segunda a sexta, inclusive nos finais de semana, com monitoria de acadêmicos da universidade, conforme ainda consta no site do Centro de Ciências da UFJF. Desde outubro de 2012, a usina só chega ao público por meio de material impresso e virtual.
"O tempo para começar a obra era o esperado, pois a Cemig teve que levantar este recurso. Não existe um fundo específico para isso. Passamos por contratempos, não podíamos correr risco. Fechamos por questões de segurança", justifica Eloi. "Tudo começou com uma goteira que só foi aumentando e causando infiltração. Não sei a qualidade da última reforma. Durante estes 13 anos, fomos realizando medidas paliativas, mas o telhado precisava de uma firma especializada", comenta o professor José Roberto Tagliatti, coordenador acadêmico do Centro de Ciências.
Segundo a assessoria de imprensa da Cemig, o museu foi entregue à universidade completamente reformado. Desde então, cabe à instituição zelar pelo local e repassar à empresa qualquer necessidade de reforma. Já a parte museológica fica por conta da UFJF. Na visão da arquiteta Mônica Olender, uma das coordenadoras do projeto de extensão Escritório Escola da UFJF e uma das autoras do trabalho de restauro a ser executado, a ausência de manutenção adequada é suficiente para danificar um imóvel em um curto período de tempo, como ocorreu com Marmelos em pouco mais de uma década. "Dependendo do tipo de intervenção que for feita, se for somente de cunho estético, como uma limpeza nas telhas, pode dar a impressão de estar em boas condições, mas não está", explica Mônica.
Reconhecendo a importância histórica do conjunto, Eloi adianta que, além das melhorias internas, ainda será trocada a passarela que liga a barragem ao museu. "A segunda etapa será dedicada ao acervo, mas ele está em boas condições", assegura o professor, destacando que o convênio entre UFJF e Cemig foi prorrogado até julho de 2014. "Mudaremos a pintura, o telhado, o piso", completa.
Legado de Bernardo Mascarenhas
Os poucos metros quadrados do Museu Usina de Marmelos Zero ainda acondiciona uma máquina de escrever e de calcular, teodolito, tripés de madeira, painel de controle de energia e uma réplica de um gerador fabricado pela Westinghouse. Um tablado coberto por papel abriga um painel contendo a história de Juiz de Fora e do patrono do local, Bernardo Mascarenhas. Em um dos lados, imagens fixadas ameaçam cair. "De repente, com um olhar mais técnico, o que enxergamos como decomposição não é. O acervo está em bom estado", observa Mônica.
Para ter acesso ao local, uma das opções é descer uma escada, localizada exatamente numa curva da Estrada União e Indústria, onde veículos passam em alta velocidade. Nesta semana, três acidentes aconteceram nas proximidades. Na última quinta-feira, uma carreta, por pouco, não tombou em cima da hidrelétrica.
De acordo com Mônica, caso a restauração não seja realizada com urgência, os danos causados ao edifício podem se alastrar, sobretudo devido ao período de chuvas. "O pedido para elaboração de um projeto de restauração arquitetônico foi feito pelo próprio reitor, e ele deve ficar pronto em duas semanas. O prédio está irregular não só pelo seu estado de preservação, mas também pelas ações do tempo. O peitoril da janela é outro ponto delicado. Nele, a água da chuva encontra lugares para penetrar, provocando outros danos mais graves, inclusive ao acervo", afirma Mônica, apontando como os trabalhos estão sendo planejados. A execução depende de aprovação do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac) e Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), já que o local é tombado pelo município e pelo estado.
"Estamos propondo dois caminhos. Um de conservação, para eliminar as causas de degradação, outro de restauro. Conservação e restauração andam de mãos dadas, porque as dimensões estruturais, de uso e do ambiente têm que ser mantidas. Também orientamos que seja feita uma melhoria no tratamento da fiação, alterando materiais que compõem o edifício."
A construção foi erguida em alvenaria de tijolos maciços aparentes, embasamento de pedra, telhas francesas e beirais ornamentados, de inspiração inglesa.
