
Cyva, Sonya, Cynara e Keyla são a cara do atual Quarteto em Cy
Aquiles, Miltinho, Paulo e Dalmo respondem pelo MPB4
1965 foi um ano de encontros. Cynara, Cylene, Cybele e Cyva encontraram o reconhecimento com o show “Vinicius e Caymmi no Zum Zum com Quarteto em Cy e Conjunto de Oscar Castro Neves”, numa boate de Copacabana. Encontraram o profissionalismo no projeto que começou despretensiosamente. Encontraram um tal Chico Buarque, na época com o apelido de Carioca, com seu “Pedro pedreiro”, primeiro sucesso delas. Encontraram, ainda, quatro homens jovens, com quem começaram a compartilhar a geração e o repertório. As meninas do Cy encontraram os meninos do MPB4 e assim formaram um octeto que fez história na música brasileira. “Por tantos trabalhos que já fizemos, cinco discos e muitos shows, vejo uma carreira dos oito juntos”, comenta Cynara. “Nos acostumamos a ver o octeto. Somos muito ligados a elas pelo amor ao vocal e ao palco”, acrescenta Aquiles Rique Reis.
Com 50 anos de estrada, os dois conjuntos vocais, que se apresentam no Cine-Theatro Central neste sábado, às 21h, celebram não apenas o passado, mas um presente que se firma na manutenção de um perfil que preza a palavra. Quando pensa nessas cinco décadas, o que vem à cabeça?, pergunto a Cynara e a Aquiles. “Vem um orgulho muito grande de conseguir, num país como o Brasil, sobreviver fazendo o que gostamos, tendo uma profissão que dá muito prazer”, diz ele. “Histórias, muitas. Vem a ideia de construção de carreira, seriedade, amor, conhecimentos e experiências, além das escolhas”, completa ela.
Lá atrás, quando conheceram camarins e holofotes, presenciaram um momento áureo da canção no país. “Até hoje é muito mais difícil achar músicos e compositores como os que tivemos nos anos 1960 e 1970. Estamos muito mal acostumadas a ter cantado essas letras que cantamos a vida inteira. A verdade é que hoje não é fácil achar o que queremos dizer com a palavra do outro, ainda que existam compositores bacanas, como os de samba”, pontua Cynara. “Temos cinco inéditas na mão (do Marcos Valle, Celso Fonseca, Joyce, Carlos Lyra e João Donato) que não conseguimos gravar.”
Os tempos, segundo eles, são outros. As músicas, não. “Não existem gravadoras mais, e o mecenato está encolhido. Ninguém quer investir em nada, muito menos em arte”, dispara Cynara. Mudou-se, segundo Aquiles, o fazer e o discurso. “Na época em que a ditadura estava muito feroz, o MPB4 se pautou por participar da vida cultural do país dentro de um engajamento diante do que acreditávamos não poder acontecer. Em alguns momentos, nosso repertório se voltou para um tipo de música que fazia denúncias, sejam diretas ou indiretas. Éramos e continuamos a ser seres políticos. Hoje, o que a gente faz é, simplesmente, seguir nosso gosto. Se a música é bonita e a letra interessante, vamos cantar. Lá atrás, tínhamos uma visão de transformar nosso palco em palanque, agora isso mudou, e nos pautamos na disposição em ter um repertório de qualidade, só isso”, explica.
De cara nova
O mesmo tempo que trouxe a experiência da cena trouxe a necessidade das despedidas. Entre as meninas, foram muitas idas e vindas e uma das irmãs, Cylene, nunca mais voltou. “Ela saiu no final de 1966, casou, foi morar em Araraquara, teve quatro filhos, formou-se em pedagogia e hoje está com a vida completamente arrumada, e morre de vergonha de subir num palco”, ri Cynara. Em 2007, Ruy Faria deixou o MPB4 e seguiu carreira solo. Em, agosto de 2012, Magro, o arranjador do grupo, morreu vítima de um câncer de próstata. Em agosto do ano passado, Cybele sofreu uma fatal isquemia pulmonar. O octeto estava, então, transformado. No lugar de uma das irmãs Cy, entrou Keyla. “Ela é apaixonada pelo som do Quarteto. Ia a todos os shows, sabia nossos arranjos de cor, e, quando a Cybele quis sair, um ano antes de morrer, chamamos Keyla, que honra esse lugar”, diz Cynara.
De acordo com Aquiles, os novos integrantes mantém a coerência do grupo. “Mudou muito pela ausência das pessoas com quem convivemos por muitas décadas. Vocalmente, não houveram muitas discrepâncias do som do grupo a partir da entrada do Dalmo Medeiros, há dez anos, substituindo o Ruy, e o Paulo Malagutti Paulera, há três anos, substituindo o Magro. O MPB4 se mantém como imaginamos lá atrás, fazendo uma música característica, que nos dá personalidade”, pontua ele.
E a identidade é compartilhada entre os oito. “Há um todo na música no qual prestamos muita atenção: melodia, palavra, harmonia e ritmo. Cada elemento tem sua força, mas a melodia e a palavra dizem muito, porque queremos passar uma mensagem”, comenta Cynara, que diz nunca ter vivido um grande sucesso, mas uma trajetória de fôlego e estabilidade. “O que tivemos foram vários ‘sucessinhos’, como diz o Chico. Hoje, principalmente, é dificílimo ter tudo a favor, mas, no inicio da carreira tivemos muito espaço, em novela, além de canções muito relevantes, como ‘Sabiá’, ‘Carolina’, ‘Tarde em Itapuã’ e ‘Pedro pedreiro’.”
Para os cantores, os quartetos preservam o que a história musical brasileira edificou. “Nas mentes e corações do Quarteto em Cy, ficou a semente”, emociona-se Cynara, destacando a importância do Poetinha no início, no meio e no impensável fim. “Não começamos pensando em carreira. Quem empurrou a gente foi o Vinicius (de Moraes). Cantávamos amadoristicamente, as quatro irmãs baianas, em programas de rádio, teatrinhos, em espaços de quem gosta de arte, mas não se direciona para o profissional. Quando viemos para o Rio, em 1963, e participamos da trilha de um filme em 1964, feita por Pixinguinha e Vinicius, fomos incentivadas a pensar na formação de um grupo. Ele (Vinicius) nos mostrou para as pessoas e nos apresentou o que estava acontecendo na música”, recorda ela. “Vinicius botava em nossa cabeça que não poderíamos parar. Ficamos tão marcadas que todas as entradas e saídas tiramos de letra. Quando pensamos nele, todo o sacrifício vale. Sempre fomos trabalhadoras em prol dessa arte que acreditamos.”
QUARTETO EM CY E MPB4
3 de outubro, às 21h
Cine-Theatro Central

