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Peça leva ao Central Maitê Proença e Clarisse Derzié Luz

enquanto clarisse vive a otimista valdina maite interpreta a carrancuda terezinha

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Enquanto Clarisse vive a otimista Valdina, Maitê interpreta a carrancuda Terezinha
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Enquanto Clarisse vive a otimista Valdina, Maitê interpreta a carrancuda Terezinha

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“Namore pelo menos uns seis meses antes de casar, viu. Arranje uma moça que gosta de bater papo, jogar conversa fora, como dizia minha mãe. Quando chega a idade, uma conversa íntima, sem esforço, é o que conta.” O conselho de Valdina, recheado de humor, claro que não podia deixar de ser rebatido por Terezinha: “Se a moça for boa de conversa não vai ser boa de cama”, retrucou a outra idosa. “Pensa que a gente só gosta de Vicente Celestino? Não. No Vale das Dadivosas tem de tudo. Funk, Calypso, Ivete Sangalo, Latino e marchinha de carnaval. Adoro”, confidenciou a primeira à plateia. Estrelado por Maitê Proença e Clarisse Derzié Luz, “À beira do abismo me cresceram asas”, que chega neste sábado, às 21h, no Cine-Theatro Central, através da CorreCotia Produção Cultural, apresenta as reflexões de duas octogenárias que vivem em uma casa de repouso.

Enquanto uma leva o dia a dia otimista e sem saudosismos, a outra é extremamente carrancuda. “Elas são complementares, têm pontos de vista opostos, vivências também muito distintas e temperamento bem diferentes. Assim, qualquer conclusão fica a cargo do público, que, ao final, sempre pede para gente repetir uma frase ou outra. Por isso, agora, mandei imprimir o texto, e ele é distribuído no saguão no final, quando ficamos para um contato mais próximo com as pessoas”, contou Maitê, à Tribuna, por e-mail. Depois da apresentação, ela autografa o livro “É duro ser cabra na Etiópia” (Agir, 274 páginas).

Em cartaz há um ano e meio, a comédia dramática inaugura o lado diretora de Maitê Proença, também autora do texto. Na verdade, a apresentadora do “Extraordinários”, da SporTV, não era para ter se enveredado por esse campo, muito menos na atuação. Resolveu estar no palco para conseguir apoio para a peça. “A ocasião fez o ladrão”, como diz aquele antigo ditado popular. “Nem eu nem a Clarice Niskier (são duas Clas, a Niskier, e a Derziê), que dirige comigo, têm grande experiência na direção. Chamamos o Amir Haddad para fazer uma retaguarda. A gente trabalhava a semana inteira, e depois vinha o Amir para desmontar a coisa, reordenar e cutucar a fim de que fôssemos mais além”, disse ela, com a convicção de que tomou o decisão correta ao assumir o comando do espetáculo. “Deu certo, porque estamos há dois anos em cartaz. Hoje em dia, as peças ficam em cartaz dois meses. Nós somos sucesso absoluto de crítica e também de público, já que viajamos o Brasil com casas lotadas, sem patrocínio, e nos valendo só da bilheteria dos teatros. Somos um fenômeno, o público adora”, garante.

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Elas são porretas

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Segundo a dramaturga, “À beira do abismo me cresceram asas” surgiu a partir de depoimentos recolhidos em asilos pelo produtor Fernando Duarte. Aos “causos” reais, a escritora juntou histórias inventadas e outras ouvidas. Contrariando os desavisados, o que se vê no palco, em 75 minutos, não são lamúrias de quem já passou da idade. “Elas são velhas para quem olha, por dentro têm 15, 32, 60. E também 86 anos”, defende Maitê. “Imaginei que velhos repassando a vida seria um território fértil para tratar ideias e conceitos que andam ocupando meu pensamento e topei a brincadeira, que era transformar aquilo em teatro. Aproveitei muita coisa, cortei, criei novas histórias, inseri conceitos e suspense, costurei e fui arrumando tudo com uma dose de humor aqui, um suspiro ali”, confidencia ela, que, inquieta, continua fazendo adaptações na escrita.

“Caminhei com passos de velhinha, levei dois anos nisso, e até há dois meses, um ano e meio de turnê, ainda coloquei uma história nova sobre uns macacos, que acabou dando muito certo e ficou. Nosso público é de gente de toda a idade. Começamos a temporada só com convidados de universidades e escolas de teatro. Essa gente de 15 a 25 anos fez o nosso boca a boca. As nossas velhas são porretas, falam de sexo e de tudo que compõe a vida, porque elas têm autoridade para isso.”

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‘A velhice não é para covardes’

Dizem que a praticidade dos que aprenderam a simplificar a vida é o que Valdina e Terezinha têm em comum, já que elas têm pouco tempo para complicá-la. Aos 56 anos e esbanjando boa forma, Maitê Proença garante que a inevitável aproximação da morte não é assunto que a preocupa. “Não posso imaginar o que é a urgência de quem sabe ter muito pouco tempo pela frente. Minha avó, aos 103 anos, não estava ainda pronta para o fim, tinha um medo que se pelava. Comigo não é propriamente medo, já lidei com a morte de quase todos os meus. Mas gostaria que essa passagem, essa coisa que estou fazendo aqui não sei porque, seja significativa, que pareça ter algum valor dentro das minhas hierarquias”, conta. “Por isso escrevo minhas peças, para ter certeza de que estou levando um material de reflexões para as pessoas. Mas faço isso através do humor. Quando o público ri bastante, ele se desarma, e então se deixa sensibilizar e nem percebe que está pensando. Vai sem dor.”

Assumidamente sem filtros para se expressar, Maitê parece ter escolhido dizer o que pensa através das personagens. “Elas não têm tabus. Não tem assunto que não pode, já viveram demais para essas frescuras. E o desafio, como atriz por exemplo, é não compor, não fazer a caquética com uma voz de velhinha e outras chatices. As velhas têm que vir de dentro, cheias de dignidade, e também, claro, com tudo o mais exigido pela personagens, inclusive indignidades, que ficam muito mais divertidas sem a caricatura.”

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Em cena aberta, Terezinha filosofa ao recorrer a Edith Piaf. “A velhice não é para covardes”, diz a senhora, que comove ao cantar um trecho de “Non, je ne regrette rien”, sucesso na voz da cantora francesa. “À beira do abismo me cresceram asas” apresenta um cenário simples e engenhoso, assinado por Cristina Novaes, a mesma de “As meninas”, última peça de Maitê. Enquanto o espectador vai se instalando na plateia, as personagens se trocam e se maquiam, “fazendo uma fusão entre o ‘real’ e o ‘irreal'”. Aliás, Maitê também convocou a figurinista Beth Filipeck, de “As meninas” para a empreitada. “Os figurinos são muito coloridos e nada realistas, ainda assim o público consegue ver as velhas dentro deles”, afirma a atriz. A trilha sonora passeia por Dalva, Chiquinha Gonzaga, Isaurinha, Cartola, Nelson Gonçalves. “São músicas que todo mundo conhece, mas não se lembra de botar para tocar.”

À BEIRA DO ABISMO ME CRESCERAM ASAS

Neste sábado, às 21h

Cine-Theatro Central

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