Era domingo e era dia comum. “Era domingo, era do mundo”, canta Zeca Baleiro na canção que dá título ao novo álbum, recém-chegado às prateleiras, entre alguma erudição e tons populares. “Na boca um doce/ amargo travo/ eu livre, escravo da paixão”, entoa o músico, que assina letra e melodia de uma criação que diz muito sobre os contrastes com os quais pinta o nono disco autoral de uma carreira de quase três décadas. Trajetória de contrastes também. Enquanto sua estreia discográfica, em 1997, com “Por onde andará Stephen Fry?”, destacava-se por um experimentalismo com nuances regionais, três anos depois, com “Líricas”, mostrou-se um romântico virtuoso.
“Era domingo”, por sua vez, retoma as cores de Zeca Baleiro, cantor de boas baladas, sobretudo. “Solidão é o que resta a um homem só/ eu sou a multidão sem alma/ multiplicando multidões”, canta em “Homem só”, letra dura e sensível para uma sonoridade envolvente e quase dançante. Para outra canção, cujo refrão enumera onomatopéias – “eu caí fácil,/ fácil no seu blábláblá/ no seu pêpêpê, no seu laraiá” -, prepara uma melodia complexa, com direito a trompete e bateria, mas também samplers sofisticados.
O domingo de Zeca não soa descanso. José Ribamar, o maranhense que ganhou o país e não se distanciou das raízes, canta o conterrâneo poeta Sousândrade e faz sua própria poética, acessível sem se permitir rasa. E nesse lugar também há espaço para o riso. “Ah, se eu tivesse um trenó com renas/ eu te daria o Polo Norte/ qualquer brinquedo/ o meu segredo”, canta em “Pequena canção”. “Acho muito triste gente que não tem ‘savoir-vivre'”, diz Zeca, em entrevista por e-mail, na qual fala sobre o futuro, que inclui um projeto televisivo, e também sobre o novo show, que, em Juiz de Fora, ganha o Cine-Theatro Central, às 21h, neste sábado. “Era domingo” no sábado e não havia como ser mais apropriado.
Tribuna – Mais uma vez, no novo disco, você se mostra entre diferentes ritmos, do rock ao reggae. Algum deles te deixa mais à vontade?
Zeca Baleiro – Não, gosto de transitar por todos, sou um “experimentador”. Cada compositor tem seu modo, sua própria “bossa” de compor, e meu deleite é esse, vagar entre os gêneros.
– Ainda que trabalhe em espaços distintos, indo do experimental ao tom mais popular, tudo ressalta uma assinatura muito forte. Isso faz parte de seu projeto artístico?
– Acho que sim, ou pelo menos a tentativa de ter assinatura é parte de um projeto. Mas é também a sua natureza inevitável, né? Só Djavan pode ser Djavan, só Milton pode ser Milton e só Zezé di Camargo pode ser Zezé di Camargo.
– Por falar em projeto, como enxerga esses mais de 30 anos de carreira?
– São 19 anos de carreira discográfica e quase 30 se considerar desde os primórdios. Acho que fiz bastante coisa, me envolvi em muitos projetos, mas a gente sempre tem fome de realizar, enquanto vive – e aqui falo de todos, não só artistas. Então, enquanto viver, quero fazer bastante coisa ainda, tenho muitos projetos na cachola. Pra já, um programa de TV e um DVD infantil, com 11 animações, ambos em outubro.
– Na sua visão, como o nono disco autoral se insere em sua trajetória musical?
– Isso não dá muito pra calcular. Sei que é um disco reflexivo, maduro, e sinto que compõe um bom quadro com outros trabalhos mais vivazes e coloridos que já fiz. Ninguém é uma coisa só.
– O amor é uma constante nas letras de “Era domingo”, mas também uma solidão quase dilacerante (“Ouço a voz do vento a me dizer/ que nada respira/ sem que roce a pele em carne viva,/ a dor”). Para você amor e solidão convivem em harmonia?
– Solidão também pode ser uma coisa boa. Ou dilacerante, como você diz. Cabe escolher (quando for possível a escolha, claro).
– “Desesperança” traz poema do maranhense Sousândrade. Há alguns anos você fez um trabalho com a poesia de Hilda Hilst. Qual a sua relação com a poesia?
– Foi a poesia que me levou para a música. O que de mais importante se fez na história das artes na humanidade, na minha humilde opinião, foi construído através da poesia.
– Concebe suas letras despidas de melodias?
– Faço de todos os jeitos – primeiro música, música e letra junto, ideia de letra a priori e depois desenvolvo a melodia/harmonia… Mas sempre tenho que ter algo a dizer, senão faço uma música instrumental, que é também um modo rico de dizer coisas sem palavras.
– Há certo humor em algumas de suas criações, o que acaba por retornar no novo disco. Esse traço é natural?
– Acho que sim, tenho humor, e prezo o bom humor nas pessoas. Acho muito triste gente que não tem ‘savoir-vivre’ (“saber-viver”).
– Esse mesmo poema de Sousândrade é cantado quase num rap. Como surgiu tal decisão?
– Estava trabalhando numa base que me foi enviada pelo meu novo parceiro, o Paulo Monarco, que me deu a ‘melô’ e me disse “faça uma letra à la ‘Meninas dos jardins’, pode ser?”. Comecei a trabalhar numa ideia de rap-canção, mas faltava um refrão e, mais ou menos nessa época li o livro “Harpas selvagens”, do Sousândrade. Lá achei os versos de “Desesperança”, que caíram como uma luva pra canção.
– Ellen Oléria participa de “Homem só”. Você é um artista atento às novas gerações? Como observa a nossa música de hoje feita pelos jovens de hoje?
– Atento até onde é possível ser. Tem muita coisa boa sendo produzida, algumas, infelizmente, longe dos holofotes. Ellen é uma baita cantora, muito promissora.
– Ao mesmo tempo, no ano passado produziu o novo disco da Vanusa, um dos trabalhos mais impactantes de 2015. Isso mostra que também se interessa pelo passado, por um resgate, não é mesmo?!
– Precisamos respeitar e conhecer nosso passado. Esta nossa era, calcada na instantaneidade e na conectividade, não faz esforço por cultivar a memória. Isso também é o foco do meu novo projeto, um programa de TV a estrear em outubro no Canal Brasil, “Baile do Baleiro”, um programa sobre memória afetiva musical.
– Esse ano você completou 50 anos. Em que isso reflete em sua trajetória musical?
– Na verdade, fazer 49 foi mais difícil. Mas é um marco, né? Você revê muitas coisas da vida, da carreira. Tenho lidado bem até agora, acho. As letras do disco novo são bem interiores e revelam um pouco desse processo de mergulho que os 50 trazem consigo, inevitavelmente.
– O que esperar de seus próximos domingos?
– Algum conforto pro corpo e pra alma. E muitos projetos pra esquentar o coração.
ZECA BALEIRO
Neste sábado, às 21h
Cine-Theatro Central. 3215-1400.

