Comparações são irresistíveis, mas nem sempre justas. Não é de hoje que livros servem de inspiração para filmes, evocando com frequência a mesma pergunta: é melhor do que o livro? O cinema, entretanto, não é a única arte a manter laços de afinidade com a literatura. Canções, pinturas e fotografias compartilham um território em comum com a escrita, mantendo um diálogo permanente. Esse é o tema de um projeto de extensão realizando pelo curso de letras da UJFJ no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm). Em encontros semanais, os participantes podem descobrir como diferentes segmentos se influenciam mutuamente. As pessoas veem essas modalidades como se fossem separadas. Mas, na verdade, elas participam de um mesmo ambiente, uma mesma vontade de expressão, explica o professor Fernando Fiorese.
A literatura é um local de encontros. Ela está cada vez mais envolvida com outras artes, em uma relação que não é exclusividade da nossa época, mas que é muito importante atualmente, sintetiza a coordenadora do projeto Encontros com a literatura, Neiva Ferreira Pinto. Em geral, as pessoas fazem essa relação mais com o cinema por ser uma modalidade mais conhecida. É mais comum que uma pessoa veja o filme do que vá a uma exposição, explica.
A contrapartida também é verdadeira. Há casos de romances e poemas inspirados por quadros ou espetáculos de teatro ou outras fontes de conhecimento. Em peças como Julio César e Antônio e Cleópatra, por exemplo, Shakespeare bebeu na fonte de textos da história. São artes humanas. A cultura engloba tudo o que é próprio do homem, e a literatura é apenas uma parte disso, resume Neiva.
Ligação ancestral
Música e literatura compartilham de uma intimidade ancestral. Na Grécia Antiga, a poesia era acompanhada pelo som da lira, uma relação que tem continuidade com os trovadores da Idade Média, séculos mais tarde. A canção contemporânea é herdeira dessa tradição, veiculando o texto literário por meio da palavra cantada. Há uma perspectiva reducionista do ensino, que restringe a literatura ao conceito da palavra escrita, opina o professor Alexandre Graça Faria.
Na opinião do professor, essa visão excludente prejudica a valorização de autores como Cartola. Curiosamente, embora não tenha recebido um ensino formal de literatura, as letras desse compositor se mostram herdeiras da poética romântica ou parnasiano. Em sua participação no projeto, o professor discutirá o legado literário presente na música de Chico Buarque de Holanda. A literatura oral é algo que existe muito antes da escrita. Está na tradição dos povos, complementa.
Da página para a tela
No cinema, os sinais de diálogo remontam aos primeiros filmes, com a adoção de estratégias narrativas próprias da literatura. Logo nas primeiras décadas dessa arte, pioneiros como Georges Méliès criam adaptação de romances para a tela, caso de Viagem à lua, inspirado na obra de Julio Verne. Para um gênero popular como cinema, não só livros de grande aceitação populares constituíram um prato cheio, como também o teatro e as histórias em quadrinhos – surgidas na mesma época em que a sétima arte.
A contrapartida também é verdadeira. A dinâmica do cinema influenciou a criação de romances como Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, trazendo uma distribuição de capítulos que mais se assemelha a cortes de cena.
O cinema deve à literatura um de seus personagens mais recorrentes e fascinantes, o vampiro. O romance de Bram Stoker, escrito no final do século XIX, serviu de inspiração para diferentes adaptações, a começar pelo clássico Nosferatu. As diferentes encarnações dessa sedutora figura é um dos assuntos que o professor Gilvan Procópio Ribeiro vai explorar em sua participação no projeto.
Por ter dado origem a diferentes adaptações, a obra do irlandês se mostra bastante rica para uma comparação com a literatura. No original, o romance não traz uma narrativa linear, sendo constituído por uma série de correspondências, notícias e relatos que constroem a história do protagonista. Impossível de ser representada dessa maneira em um filme, a estrutura fragmentada deu lugar a uma história linear no longa de Francis Ford Coppola. O filme não pode ser igual à obra original, porque os suportes são diferentes. Assim como uma novela de rádio também não era como a versão para TV ou para o teatro, explicita.
