
Procurado pela nova geração de DJs, Go Back tem orgulho dos seus quase cinco mil vinis
Na primeira vez que encontrei Samuel, ele pintava a sala de minha antiga casa. Eu, muito pequeno, troquei algumas palavras. Nada mais. Na segunda vez que encontrei Samuel, ele vendia discos. Ele reconheceu, lembrou-se de minha avó e da casa. Eu, já onde estou, troquei algumas perguntas. Perguntas não feitas lá atrás e que o tempo deu conta de formular. Interessava-me saber como aquele homem havia se interessado pelas raridades. Na vez que conheci Samuel, logo entendi que raridades se atraem.
O sorriso fácil, que funciona como ponto final de frase, combina com a fala tranquila, com a humildade do trato, com o encantamento pela loja de cerca de 5m², com quase cinco mil discos. “Comecei com o parceiro Raimundo Lima, que todo mundo conhece como Carioca. Vendíamos nas feiras e no Calçadão. Tempos bons. Chegou um momento em que ele me chamou para montar uma loja. A grana era um problema, mas conseguimos abrir aqui. Iniciamos em 28 de março de 2003, e ele ficou comigo por um ano”, conta o dono da Flash Discos, na Rua Mariano Procópio.
“Ninguém sabe 100% das coisas. Aprendi muito sobre a área nacional e abri a mente dele sobre alguns gêneros como a black music e o soul. Conheço um pouco de break, hip-hop, Miami, charme, melody, rasteiro, folk rock e punk rock”, enumera ele, que segue sozinho na empreitada. “Antes era mais fácil, porque quando um saía para comprar discos, o outro ficava para cuidar da loja. Só comigo na estrada, por muitas vezes tenho que fechar”, conta ele, que se divide entre o som e o voluntariado na Igreja Batista, próximo de sua loja.
Entre vinis de R$ 7 a mais de R$ 300, Samuel – “Muitos me conhecem como Go Back, que era o nome até 2015”, diz – mostra “Elvis Christimas álbum”. Editado em 1961, o trabalho raro traz na parte traseira o calendário daquele ano. E Go Back mostra o dia em que nasceu, na Muriaé na qual viveu até os 3 anos, mudando-se para Juiz de Fora, depois Paracambi, até que, em 1989, voltou, antes da mãe e dos irmãos, para o lugar de onde nunca mais saiu.
Lado A
O que Samuel estampa na capa de sua vida é o retrato do menino que foi. “Quando tinha 16 anos, ganhei meu primeiro compacto, do Peter Frampton, o álbum duplo ‘Frampton comes alive’, um disco que já se tornou raridade. Naquela época, eu focava no rádio e ficava aprendendo. Tem gente que aprende inglês fazendo curso e gente que aprende escutando. A musicalidade que eu tenho veio assim, ouvindo. E é mais fácil aprender isso aí do que a tal da informática”, brinca o homem que cresceu com “Please don’t go”, da KC The Sunshine Band, na vitrola. No início dos anos 2000, depois de encarar diferentes ofícios, resolveu arriscar. “Era expositor de calçada. Chegava cedo, se achava um lugar tranquilo, colocava os discos. Na Halfeld, fui notificado por trabalhar com uma coisa que já está paga um milhão de vezes. Daí abri a loja. Sempre vendi bem, mas por consequência de o vinil ter parado no ar, está difícil ganhar um barão. Antes conseguia fazer uns dois mil no mês, hoje, é difícil tirar R$ 800. Quando começaram a lançar cartões de memória, pen drive, as mídias digitais, as vendas foram derrubadas. A gente sobrevive de teimoso. Mas vai melhorar.”
Lado B
O que Samuel perseguiu para se tornar o colecionador respeitado pela nova geração de DJs da cidade? Não diz exatamente, mas demonstra a resiliência para enfrentar o inverno no qual vivem os que se dedicam às antiguidades e às raridades. Um esforço que é de hoje e de ontem. “Já trabalhei em tudo quanto é coisa honesta. Trabalhei de pintor, ajudante de transporte, entreguei gás. Trabalhei na Encol também e saí pouco antes de falir. A vida nunca foi boa como você está vendo agora. Já ralei bem, já capinei, rocei pasto e, se amanhã precisar fazer isso de novo, não meço esforços”, diz ele, que no último mês esteve ao lado do DJ Pedro Paiva, do Vinil é Arte, vendendo discos no Som Aberto, evento da UFJF. “O Pedro foi meu primeiro cliente da loja. Apesar de eu não ter uma loja muito sofisticada, uma turma boa me dá preferência, e aqui acabou virando um ponto de referência”, entusiasma-se. Acabou Samuel virando DJ também. “Cada dia estudo um pouquinho, para me aprimorar no que é bom”, diz o homem que abandonou a escola na quarta série primária. Fez da música outra sala de aula. “Uma pessoa passa, oferece um disco, eu olho e, se me interesso, compro. Não compro para me ferrar nem para ferrar a pessoa. Trabalho com vinil diversificado, tem coisa dos anos 1940, do Brasil e importado. Vários títulos fazem parte do meu gosto musical, mas tem coisa que não é minha praia. Sou mais de rock e black.”

