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‘Joicy nos faz repensar o que é o feminino’

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Fabiana Moraes está em turnê de lançamento do livro
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Fabiana Moraes está em turnê de lançamento do livro “O nascimento de Joicy – Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem”

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“A senhora de Alagoinha (Agreste de Pernambuco), com seus peitos surgindo na camisetinha, a cabeça quase careca, o corpo fortalecido pelos anos de trabalho árduo na roça, nas cozinhas e em seu pequeno salão de beleza, atraía olhares justamente por não se encaixar em um modelo socialmente compartilhado e respeitado de mulher.” Fabiana Moraes descreve Joicy, com quem ela encontrou em uma fila de mulheres transexuais que buscavam o serviço público de saúde para conseguir a redesignação sexual. Foi ali, naquele instante, que começou essa história, apresentada em uma série de reportagens publicadas no “Jornal do Commercio”, de Recife, e vencedora do disputado Prêmio Esso de Jornalismo, em 2011. Quatro anos depois, em tempos de acirrados debates sobre questões de gênero e transexualidade, os escritos da repórter pernambucana vão para o livro “O nascimento de Joicy – Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem” (Arquipélago Editorial, 248 páginas).

Para além da reportagem, Fabiana traz os bastidores desse, muitas vezes, conflituoso encontro com sua personagem. Contemplada na noite da última terça-feira com o principal prêmio do Petrobras de Jornalismo, ela se propõe a pensar um jornalismo mais subjetivo, que conversa e dá conta de toda a complexidade do mundo. A jornalista e socióloga é autora dos livros “Os sertões” (2010), “Nabuco em pretos e brancos (2012) e “No país do racismo institucional (2013).

“O que é interessante na figura de Joicy é que ela nos faz repensar o que é o feminino. A gente precisa entender que o que é considerado feminino é socialmente construído. A gente não nasce de brincos, de vestidos e batons. Não nasce usando unhas pintadas. O que determina ser mulher ou homem – ou mesmo sem ser mulher e homem, porque a gente também nunca pensa nas pessoas que são intersexos, e elas existem – é uma questão muito mais subjetiva”, afirma. “De fato, é uma questão de identidade. Acho que a gente não pode estabelecer nem a biologia nem a cultura como determinantes.”

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Tribuna – Como está a Joicy hoje, depois da cirurgia?

Fabiana Moraes – A cirurgia dela fechou e até hoje está fechada. Ela não fez a reabertura do canal vaginal. Essa é a grande diferença que ela enfrenta no corpo hoje. Ela não consegue, por exemplo, ter relações sexuais como uma mulher biológica que ela desejou ser a partir do momento em que ela procurou o serviço público de saúde para fazer a cirurgia. Isso é uma mudança importante e, ao mesmo tempo, anticlímax, digamos assim.

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– Você fala que sua relação com a Joicy foi muito conflituosa e que você chegou, inclusive, a dar dinheiro para ela. Em algum momento, pensou que poderia estar passando dos limites já que estava no papel de jornalista?

– Em vários momentos, eu questionei se aquilo era um limite que eu podia transpor ou não. A questão do dinheiro foi uma delas. No começo, para mim, era algo natural, até porque é como falo no livro: Eu saía da casa dela, de uma penúria enorme, e ia para minha casa ver o Netflix, acessar a internet, encontrar com os meus amigos. Depois de um tempo, quando percebi que, para Joicy, estava se tornando uma coisa muito comum, e talvez fosse culpa minha mesmo, de ter acostumado, ter sugerido para ela que aquilo ia ser uma prática contínua, quando, na verdade, não ia ser, mostrei que não podia continuar. Aí alguns conflitos começaram a aparecer. Ela começou a falar que ia procurar outro jornal, e eu disse que ela ficasse à vontade, que ela procurasse quem ela quisesse, porque eu não era dona dela. Mas cada intercorrência dessa era um tapa, porque eu ficava me perguntando em que momento é que eu deixei isso acontecer.

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Ao mesmo tempo, era muito difícil vê-la numa situação de pobreza material e afetiva e não me colocar. Eu sabia que eu era a única pessoa que poderia ajudá-la de fato, financeiramente ou afetivamente. Com o tempo, enfrentamos algumas discussões. O começo do segundo capítulo é bem isso. Eu já começo com uma frase muito dura que ela me diz. Ela fala que estou ficando com o dinheiro dela. Eu me expus muito no livro, mas acho que é uma reflexão para se pensar o jornalismo de uma maneira geral. Pensar a nossa prática diária, porque a gente entra nesse esquema da redação, no dia a dia, e vai produzindo, produzindo, sem fazer uma reflexão da nossa produção, do que a gente está fazendo, o sentido político da nossa profissão.

– Você diz que sempre teve vontade de fazer uma reportagem sobre transexualidade e conseguiu. Conhecer a Joicy, de alguma forma, mudou sua maneira de pensar esse assunto?

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– Não é a questão da transexualidade em si. Claro que, a partir de Joicy, eu tive contato com várias outras mulheres e homens trans, e até hoje venho tendo. Todos os lançamentos de livros estão acontecendo com mesas formadas por mulheres trans, mas essa experiência me desconstruiu e de uma maneira muito boa. Pude perceber que não adiantava chegar com a ideia de uma pauta pronta. O personagem se impõe. Por mais que você tente domar, ele fala por si. Aprendi a deixar isso acontecer sem medo de que minha pauta fosse totalmente destruída, de voltar para redação com outra coisa. A outra coisa pode ser importantíssima. Joicy foi essa outra coisa. Eu não voltei para a redação com uma personagem trans, uma mulher trans como a gente está acostumada a ver, com cabelão, curvilínea e essas coisas todas. Ela era uma mulher trans que ninguém reconhecia como uma. Até hoje é justamente por isso que as pessoas se aproximam de Joicy. Ao mesmo tempo que ela não tem as características ditas femininas, ela é como todo mundo. Ela quer uma vida de mais conforto, de muito carinho, quer um amor.

– Os leitores têm se identificado com a história de vida dessa personagem?

– Na época em que a reportagem saiu, em 2011, e agora também com o livro, as pessoas queriam saber mais sobre ela, se está bem, se já resolveu a vida amorosa e se refez a cirurgia. Na época da reportagem, teve muita reação negativa, o que eu já esperava, principalmente, da parte de pessoas ligadas à igreja. Aconteceu um movimento relativamente grande de pessoas reclamando, mas teve muito mais gente solidária, querendo ajudá-la. Recebi ajuda de São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza.

– Joicy tem consciência da importância dela para a sociedade?

– Acho que tem em alguns momentos, mas deixa de lado, e eu até entendo. Ela participa de um lançamento de livro, como foi o daqui de Recife, com mais de 200 pessoas, é superassediada. As pessoas chegam perto, querem falar, tirar foto. Depois, ela volta para casa e fica só, e as pessoas não chegam perto. Acho que ela entende essa importância, mas ao mesmo tempo não deixa de perguntar: Cadê as pessoas?

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