
Existe a arte que se utiliza de objetos do cotidiano. E existem os objetos do cotidiano que lançam mão da arte. Ainda assim tratam-se de dois universos distintos: artes visuais e design. Existe, porém, quando o objeto resulta em objeto artístico, numa clara interseção inominável. A cadeira F, peça criada pelo F.Studio, ao adentrar o cubo branco, com as intervenções de artistas do Rio de Janeiro e de Juiz de Fora, torna-se esse exemplar inclassificável. Formada por módulos de ferro e placas maciças, a invenção de três juiz-foranos – Felipe Vargas, Fernando Fernandes e Flavia Araujo – surgiu em terreno de múltiplas artes. O estúdio tem sede na Fabrica Bhering, no Santo Cristo, prédio onde antes eram produzidas balas e chocolates e hoje dá lugar a mais de 50 ateliês de artistas contemporâneos.
A influência do meio não deixou a F tornar-se simples coisa. Em “1 + 10”, mostra que inaugura nesta sexta, às 20h, na Hiato – Ambiente de Arte, artistas de diferentes práticas produzem, sobre o mobiliário, suas interpretações da peça. Nas mãos de Fécula, artista carioca que produz divertidos acessórios em tecido, a cadeira ganha estofado em preto com botões roxos, na mesma pelúcia que faz espécies de chifres da Malévola, numa leitura divertida e ao mesmo tempo aconchegante da peça. Reconhecido na nova cena nacional, Rafael Alonso transpõe para a madeira seus padrões de listras coloridas num assento rosa. Autor de intrigantes esculturas, Barrão, reconhecido nome contemporâneo, insere uma “prótese” em forma de garrafa aos pés da cadeira negra, de onde sai, no encosto, uma haste branca, como se o objeto transformasse a cor.
Colorida, a cadeira assinada por Mariana Procópio parece sustentada em fios, com nenhuma porção do ferro em evidência. “Há oito anos trabalho com a técnica do macramê, uma técnica ancestral, que existe há 3.000 a.C., e consiste em dois tipos de nós. Já teve seus momentos de auge na história e de pleno esquecimento. Agora vivemos um resgate. Eu quis buscar algo diferente, sem fazer redes em lugares espaçados, o que seria mais óbvio, por isso encapei”, justifica. Já Petrillo dialoga com o lugar de origem do próprio objeto. “Minha cadeira é inspirada num trabalho que tenho desenvolvido com a fotografia e a escultura, sobre telhados de galpões. Quis trazer a estrutura dos desenhos dos telhados para a superfície das cadeiras de uma forma plana. Trouxe essa referência lembrando do lugar do estúdio, a Fábrica Bhering, que tem um engradamento e uma estrutura semelhante aos locais onde fiz minhas fotos”, explica.
Enquanto fazeres passados valorizavam a virtuose técnica, profissionais e pesquisadores debatem atualmente como a contemporaneidade se pauta no discurso, mais, até, do que na prática. Falar, portanto, é mais ou tão importante que fazer. A cadeira F, em sua versão original e em suas dez releituras, portanto, representa o hoje. “Conceito é o que move a arte contemporânea. E o bom design, o design puro tem muito do conceito, não é gratuito, as formas não nascem ao acaso. Outra coisa interessante do trabalho do estúdio é que eles fazem os móveis para serem replicados. E mesmo ela tendo sido replicada, a cadeira está em dez formas singulares”, pontua Petrillo, professor dos cursos de arquitetura e urbanismo e tecnologia em design de interiores do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, onde encontrou Felipe, Fernando e Flávia.
“Na arquitetura trabalha-se muito com conceito. Para desenvolver um projeto é preciso partir de uma ideia e a forma chega dali. A mesma coisa acontece no design. O que é importante no desenvolvimento de nosso trabalho, que é nosso conceito, é a cidade. Tudo o que é urbano e está ligado ao cotidiano tomamos como ideia”, reforça Felipe Vargas. A criação, segundo ele, “vai ter sempre possibilidades infinitas de continuidade e crescimento. Nesse processo da exposição, nós saímos do lugar comum e os artistas também. Abriu precedente para ideias que não tínhamos imaginado para nossa cadeira. Com certeza vai refletir em nossos produtos.”
Alinhadas ao modernismo da arquiteta Lina Bo Bardi e também nitidamente influenciadas pela escola alemã Bauhaus, as peças dos juiz-foranos refletem a cena atual do design que não se permite vulgar no dia a dia, mas consciente de um sentido muito sensível. Segundo Fernando Fernandes, a cadeira F, cuja comercialização ainda não foi iniciada, é resultado de pensamentos e tempos complexos. “Há uns oito meses começamos o processo até chegarmos à síntese do elemento. É um processo em construção. Ela tem um leque de derivações, os acabamentos podem ser de várias maneiras. Se quiser uma cadeira sem braço é só desparafusar, ou o braço pode virar um encosto de pé. Ela pode ser de acrílico, estofada ou de madeira”, conta.
Discursivos como o hoje
Urbanos como o sempre
Com assento e encosto em papelão (Rodrigo Torres), ou vestidas por um cobertor de lã (Danielle Cukierman), ou alinhavadas por fios de cor laranja sobre fundo negro (Yuli Anastassakis), ou, ainda, protegidas por um couro branco, animalizadas com uma espécie de rabo (Jorge Rodriguez-Aguilar), as cadeiras de “1+ 10” desvendam um instigante fragmento da cena contemporânea das artes visuais nacional. E se afirmam urbanas, como defende a intervenção de Luiz Gonzaga com seu desenho em preto e branco sobre a madeira nua, numa coerente relação com as intervenções das ruas. “Já fiz intervenção em muro, em toy art de vinil, em lona de caminhão, papel, madeira, já fiz grafite na rua e desenhei, até, em tênis”, conta o artista que fala com a mesma sensibilidade para a via e para o cubo branco.
Os aparadores, bancos e mesas criados pelo F.Studio, que também ganham espaço na exposição evidenciam a potência urbana como conceito criativo. O banco Urbe, no entanto, é o que evidencia mais tal discurso. “Partimos de um princípio elementar. Pegamos um bloco de piso e o tiramos do eixo, elevando-o para um ambiente de design, transformando-o em banco”, pontua Fernando Fernandes. “A maior parte das calçadas do Rio de Janeiro é feita com ele (o bloco). No nosso imaginário, um elemento urbano. Um dia o trouxemos para outro lugar. Conceito é isso, movimento. Observamos esse objeto, vimos um valor, vimos que ele faz parte da memória das pessoas e trouxemos para o mobiliário”, completa Felipe Vargas, para logo concluir, sintetizando seu fazer e os fazeres expostos em suas cadeiras: “A cara da coisa é importante, mas a ideia é tão relevante quanto.”
“1+10”
Abertura hoje, às 20h. Visitação de segunda a sexta, das 9h ao meio-dia e das 14h às 18h, sábado, das 9h às 13h. Até 18 de junho
Hiato Ambiente de Arte
(Rua Coronel Barros 38 –
São Mateus)

