Após reunião entre a universidade e a família Sousa Santos, foi anunciado na terça (2), pela UFJF, o cancelamento da edição deste ano do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, realizado durante 25 anos ininterruptos. As justificativas recaem, segundo a instituição de ensino, sobre a impossibilidade de produzir diante da greve dos técnicos-administrativos e o impasse entre universidade e família gerado a partir do cancelamento da apresentação da Orquestra Barroca. Ainda assim, a pró-reitoria de Cultura reafirma a expectativa em realizar a 26ª edição do evento, num formato menor do que o usual.
Celebrada em cerimônia de 2011, a transferência da instituição privada para o órgão público só se efetivou no final de 2014. Dessa forma, a 26º edição do evento aconteceria, pela primeira vez, totalmente sob a responsabilidade da universidade, que enfrenta diferentes cortes em seu orçamento, realidade também vivenciada por outras instituições federais. De acordo com a pró-reitora de Cultura, Valéria Faria, o orçamento alcançado para este ano foi de cerca de R$ 370 mil, sendo aproximadamente R$ 200 mil oriundos do patrocínio da Petrobras, pouco mais de R$ 70 mil provenientes da Prefeitura e o restante financiado pela UFJF.
O valor não corresponde aos montantes captados nos anos anteriores, cujo número de patrocinadores foi maior e o orçamento chegou a aproximadamente R$ 700 mil. Aparentemente alto, o valor é bastante pequeno quando comparado ao orçamento de festivais do gênero, como o de Campos do Jordão, que por muitos anos teve programação coincidente, que orbita na casa dos R$ 6 milhões (esse ano, com corte, será feito com R$ 4,4 milhões). Ainda assim, para a UFJF, os possíveis R$ 370 mil dialogam com as prioridades elencadas atualmente. “Não sabemos se poderemos sustentar o perfil do festival. Quando foi feita a incorporação, foi compreendido que a universidade pagaria essas contas, e hoje não é possível gastar altas cifras”, comenta Valéria. “Não conseguimos negociar com os funcionários para ter a estrutura que esperávamos. Por isso, cancelamos. Mas queremos fazer, até o fim do ano, em acordo com o orçamento possível. Não haverá um gasto descomunal”, adianta a pró-reitora.
Em carta enviada na terça (2) aos convidados do festival, o professor do departamento de música da universidade nomeado como interventor no processo de incorporação da instituição cultural, Marcus Medeiros, informa sobre a situação de impasse. “Estamos passando por um momento de reestruturação interna do Centro Cultural Pró-Música no âmbito da Universidade Federal de Juiz de Fora, adequando seus projetos e suas ações à legislação que rege as instituições públicas. Desta forma, a programação do Centro Cultural Pró-Música precisará ser suspensa por algum tempo, para que o processo de patrimoniação dos bens doados possa ser concluído e a ‘Unidade Gestora’ Centro Cultural Pró-Música seja efetivamente criada dentro do organograma da Universidade.”
Medeiros também afirma que os funcionários técnico-administrativos do quadro efetivo da UFJF estão sendo entrevistados, e alguns outros contratados para integrar a equipe que atuará no espaço. “Apesar de os patrocínios propostos pela antiga direção do Centro Cultural estarem assegurados, os severos cortes orçamentários vivenciados pela instituição no ano de 2015 nos obrigaram a algumas readequações na programação original, discutida em conjunto com os membros da família Sousa Santos, visando a manutenção da tradição ininterrupta da realização do festival”, escreve o interventor. Ainda segundo a carta, o cancelamento da participação da Orquestra Barroca, feito pelo violinista Luís Otávio de Sousa Santos, não prejudicou o compromisso da universidade com o evento.
Falta de estrutura
“Diante da deflagração da greve dos servidores técnico-administrativos em educação da UFJF, o órgão suplementar Centro Cultural Pró-Música, com o apoio da Pró-Reitoria de Cultura, viu-se na necessidade de cancelamento desta edição do festival por tempo indeterminado. Tal atitude baseia-se na impossibilidade de contar com a infraestrutura necessária à realização do evento, como o Restaurante Universitário (que vem oferecendo nas últimas edições a alimentação aos alunos bolsistas do festival), dos serviços de transporte da UFJF (utilizados para o transporte diário dos professores e alunos durante a realização do Festival, e, também, para recepcionar os professores e artistas convidados em cidades próximas e aeroportos _ regional e vizinhos), bem como dos serviços estruturais e operacionais desempenhados por servidores técnico-administrativos”, conclui Medeiros no texto.
Procurada, a família que fundou o Pró-Música e o encaminhou por mais de 40 anos, hoje apenas integrante do conselho do órgão, se disse surpresa com o cancelamento e preferiu não se pronunciar, aguardando a chegada de agosto e, por consequência, a ausência do evento na programação cultural de Juiz de Fora. “Estou em estado de luto, não tenho condições de fazer um depoimento racional neste momento. Preciso de algum tempo”, lamenta Luis Otávio de Sousa Santos, diretor artístico do festival nos últimos anos. Para a pró-reitora de Cultura Valéria Faria, é grande a expectativa de que o festival aconteça este ano. “Se não fosse a greve, iríamos peitar e fazer do tamanho que achamos que deve ser. Não queremos a interrupção”, comenta.
Patrimônio imaterial
Premiado e reconhecido internacionalmente, o Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, que modifica a paisagem invernal de Juiz de Fora em julho, foi registrado em 2004 como bem imaterial da cidade. Da mesma forma, estão registrados o Apito do Meio-dia, a Banda Daki, o Batuque Afro-Brasileiro de Nelson Silva, o pão alemão e o Concurso Miss Brasil Gay. Segundo a legislação que rege o patrimônio cultural da cidade, não há qualquer item que obrigue a existência no presente de bens que se fizeram relevantes na história local. “A inscrição terá sempre como referência a continuidade histórica do bem e sua relevância para a memória, a identidade e a formação da sociedade”, pontua o artigo 24 da lei N.º 10.777, de 15 de julho de 2004.
Para o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, o cancelamento é lamentável, mas reflete o momento no Brasil. “Esse é um evento que coloca a cidade no cenário nacional e internacional da música erudita. No entanto, temos que compreender que, conhecendo as pessoas que estão à frente da universidade, todos os esforços foram feitos para evitar que isso acontecesse. Infelizmente, a situação conjuntural do país leva a decisões como essa. Esperamos que seja só um pequeno intervalo e que o festival volte com força total”, comenta.
De acordo com o coordenador executivo do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Juiz de Fora, Rogério Barros, o cancelamento prejudica bastante o setor. “Os principais hotéis, normalmente, tinham uma lotação em torno de 50% a 70% só com o envolvimento do festival. É um evento muito importante para o setor”, avalia. “Para nós, esse também é um ano difícil. O primeiro semestre foi muito complicado. Esse evento salva nosso mês de julho. Com o cancelamento, teremos mais uma lacuna”, completa.
“O prejuízo daquele momento de efervescência que vem acontecendo no mês de julho, todo mundo sente. Perdemos com essa movimentação, mas estamos empenhados em oferecer uma contrapartida no momento oportuno”, pondera Marcus Medeiros. “Vamos procurar uma data que seja favorável para que as pessoas possam vir. Claro que mesmo procurando a data mais adequada, não conseguiremos um movimento igual ao do período das férias”, afirma.
Transferência em risco
Ainda que o processo de incorporação esteja em estágio avançado, o cancelamento do festival coloca em risco a doação feita pela família Sousa Santos. De acordo com a escritura lavrada em cartório e assinada em 2011, quaisquer ações discordantes da parte da UFJF podem acarretar na revogação da transferência. Até o momento, segundo a pró-reitora de Cultura Valéria Faria, não houve nenhuma sinalização de tal atitude. Questionada sobre a relação entre a família e a universidade, Valéria contemporiza: “A dificuldade é natural para uma instituição privada que passa por uma modificação organizacional, entrando em um novo universo. A complexidade está na relação entre público e privado, para além da questão financeira. A instituição chegou num momento de bonança e, agora, se depara com momentos de crise. Nós, da universidade, sempre vivemos isso, sabemos lidar com essas situações.”
