
A folia pode ter acabado para o povo, mas agora chegou a hora de quem organiza a festa analisar o que aconteceu e já planejar o carnaval de 2018, procurando aprimorar um dos grandes eventos de Juiz de Fora. O superintendente da Funalfa, Rômulo Veiga, recebeu a Tribuna na tarde de ontem para fazer um balanço do Corredor da Folia deste ano. Ele apontou os principais destaques, como o retorno do desfile das escolas de samba, o sucesso dos blocos de carnaval, os problemas pontuais surgidos durante o evento e também falou sobre os planos do governo municipal para tornar o carnaval ainda maior em 2018.
Segundo Rômulo, o Corredor da Folia em 2017 foi organizado e realizado sob o signo da realidade ainda presente da crise, que forçou uma redução proporcional de 30% no orçamento empenhado para este ano. Ainda com as contas por fechar, foram empenhados pela Prefeitura cerca de R$ 1,725 milhão no Corredor da Folia; em 2015, já acrescentada a inflação medida pelo IPCA, foram gastos R$ 2,3 milhões. Apesar dessa redução considerável, Rômulo Veiga diz que o evento, no geral, ocorreu dentro do planejado tanto em termos financeiros quanto de organização e segurança, entre outros. “O Corredor da Folia teve 95% dos eventos realizados dentro do que esperávamos, com apenas problemas pontuais como os ocorridos com a Banda Trupicada e o Dondocas da Vila, no Monte Castelo no último domingo”, diz.
Sobre o público, as estimativas iniciais apontam que os eventos reuniram cerca de 100 mil pessoas, sendo entre 60 mil e 70 mil nos blocos (30 mil nos blocos tradicionais). “O Parangolé Valvulado reuniu entre 10 mil e 12 mil pessoas; o Meu Concreto Tá Armado, algo entre quatro e cinco mil pessoas; e a Banda Daki, entre três e quatro mil foliões. Nos shows, o do Matheus VK levou 1,5 mil pessoas à Praça Antônio Carlos, o Amigos da Onça, duas mil pessoas, e o Moyseis Marques, 2,5 mil pessoas.”
Com as escolas na Passarela
Um dos principais destaques deste ano foi o retorno do desfile das escolas de samba, ocorrido pela primeira vez no Parque de Exposições e considerado um sucesso pelo superintendente, com um público estimado inicialmente em 11,8 mil pessoas. “É um dos eventos mais importantes para a cidade e muitas comunidades, por ser uma atividade extemporânea que começa meses antes, com a escolha dos enredos, o concurso dos sambas e a preparação do desfile.” A escolha do Parque de Exposições, uma sugestão da Liga Independente das Escolas de Samba de Juiz de Fora (Liesjuf), foi outro ponto indicado como positivo por ir ao encontro da necessidade de encontrar um espaço que evitasse os problemas no trânsito provocados pelo fechamento da Avenida Brasil.
“Muitos ainda cobram o retorno para a Avenida Barão do Rio Branco, mas a cidade cresceu muito, seria impossível fechá-la. E ela não atenderia às necessidades do folião e do público para o evento, como segurança, acesso e serviços auxiliares como a praça de alimentação e espaço para as Escolas prepararem suas alegorias”, enumera Rômulo. “A mudança ajudou a qualificar o evento, aumentou a integração entre as escolas e seus integrantes e até mesmo entre as próprias agremiações. Antes as pessoas iam embora após desfilarem, agora ficam no Parque de Exposições.
Por um desfile maior e melhor
De acordo com o superintendente, a Liesjuf aprovou o evento no novo local, mas são preciso ajustes na estrutura da passarela e nas áreas de concentração e dispersão, além de facilitar a montagem das alas. A ideia é realizar reuniões para acertar esses detalhes e também buscar formas de financiamento para as escolas que não passem apenas pela Prefeitura.
“Uma opção seria a Lei Rouanet, mas para isso as escolas precisam se adaptar, incluindo projetos sociais, escolas mirins e eventos na comunidade para se adequarem às exigências da lei. Outra opção é um vínculo com a UFJF, o IAD, para a realização de workshops com os carnavalescos para termos uma nova visão sobre como o carnaval pode ser feito. E já estamos conversando com o projeto Gente em Primeiro Lugar, que se interessou em oferecer dançarinos, por exemplo, para as comissões de frente”, ressalta o superintendente.
Um dos temas que ainda geram controvérsia em Juiz de Fora é a antecipação do carnaval na cidade. Rômulo Veiga declara que o tema será debatido, mas acredita que o esquema será mantido exatamente por ser uma ideia que precisa de tempo para amadurecer. “Essa antecipação é interessante para as escolas, que não perdem os foliões que viajam durante os dias oficiais de carnaval. E há, também, a questão econômica, pois o custo do carnaval fica menos oneroso quando é realizado antes. No período oficial, são várias cidades solicitando estruturas para o desfile, banheiros químicos, equipamentos de som, e o custo aumenta. A Polícia Militar também precisa deslocar parte do efetivo para outras cidades”, aponta, destacando que blocos como o Parangolé Valvulado não demonstram interesse em mudar a data de seus desfiles.
Um novo modelo de blocos em 2018
No total, a cidade teve 65 blocos autorizados pela Funalfa, que, de acordo com Rômulo, fizeram a festa sem graves problemas. “A exceção foi um princípio de briga no Bairro Bandeirantes. O maior problema foram alguns blocos ilegais, sendo que dois em especial causaram maior transtorno.”
A exemplo das escolas de samba, Rômulo diz que a Funalfa planeja encontrar um novo modelo para financiar os blocos e, assim, permitir uma estrutura ainda melhor. Segundo ele, a falta de agilidade resultante do processo de licitação para a estrutura dos eventos pode resultar em problemas como o ocorrido com a Banda Trupicada e o Bloco Dondocas da Vila no domingo, em que a empresa responsável pelo som não teria entregue toda a estrutura prevista em contrato, impedindo a realização dos eventos – e a Prefeitura já estuda quais medidas judiciais pode tomar. “Um modelo a ser estudado é o dos blocos do Rio de Janeiro e São Paulo, em que as prefeituras oferecem as estruturas básicas, e os blocos ficam responsáveis por contratar, por exemplo, a sonorização. Conceder incentivos fiscais seria uma forma de agilizar esses contratos. Mas é preciso ver como seria feita essa transição.”
Banda Daki: o desentendimento
Rômulo comentou ainda sobre o problema ocorrido no último sábado com a Banda Daki, em que ele e a figura símbolo do bloco, Zé Kodak, chegaram a se desentender antes do desfile – o que resultou em uma entrevista de Zé Kodak para a CBN na última terça-feira, com diversas críticas à organização do Corredor da Folia. “O custo para o desfile da Banda Daki em 2016 foi de R$ 103 mil, e para manter a mesma estrutura com dois trios elétricos teríamos de gastar R$ 120 mil este ano. Seria impossível realizar o evento da mesma forma, seria muito oneroso empenhar esse valor num evento que atualmente leva três ou quatro mil pessoas, e não mais 20 mil como antigamente”, afirma. “Assim como ocorreu com os outros eventos, tivemos que fazer um corte de 30% – o que daria R$ 70 mil, suficientes para ter o essencial e um trio elétrico. É preciso lembrar que cortamos verbas em todo o carnaval, não apenas na Banda Daki”, justifica o superintendente.
Rômulo acrescenta que houve, a partir de então, alguns desentendimentos, que resultou com o Zé Kodak chegando até o local da concentração, no sábado, com um segundo trio elétrico pago por ele, que não pôde ser utilizado por não ter passado pela vistoria do Corpo de Bombeiros. “Não poderíamos permitir isso, e foi ali que houve uma discussão. Lamento muito, sei como o Zé Kodak é importante para o carnaval e sua paixão pela festa, mas não poderia abrir mão da austeridade.”
“Estamos dispostos a ajudar, não queremos que a Banda Daki seja motivo de atrito”, acrescenta Rômulo. “Gostaria de conversar com ele sobre o que a Banda precisa para se adequar aos novos tempos.”
