
Equipe do Boston Globe foi a responsável por revelar um dos maiores escândalos da Igreja Católica
A premiação do Oscar em 2016 foi das mais peculiares dos últimos anos: Leonardo DiCaprio enfim ganhou seu primeiro Oscar; os memes de Glória “não sou capaz de opinar” Pires; a figurinista que foi receber seu prêmio com visual punk; “Mad Max – Estrada da fúria” vencendo uma meia dúzia de categorias; Ennio Morricone ganhando sua primeira estatueta aos 87 anos; e “Star Wars – O despertar da força” perdendo até mesmo o prêmio de efeitos visuais. E ainda houve a surpresa final, quando Morgan Freeman abriu o envelope da categoria melhor filme e declarou o vencedor: “Spotlight – Segredos revelados”. O longa, que até aquele momento havia vencido apenas o prêmio de roteiro original, bateu os favoritos “A grande aposta” e “O regresso”. A produção, até então ignorada por boa parte do circuito comercial brasileiro, chega a Juiz de Fora nesta quinta-feira com o cacife dos prêmios da Academia e uma grande, poderosa e inconveniente (para muitos) história a ser contada.
O longa-metragem de Tom McCarthy mergulha fundo em um dos maiores e vergonhosos escândalos em que a Igreja Católica já esteve envolvida: o abuso sexual de crianças e adolescentes por dezenas de padres da paróquia de Boston, entre as décadas de 1960 e 1990, que foi acobertado pela organização religiosa sob o comando regional do cardeal Bernard Law. Até então tratadas como fato de pouco relevância, as denúncias de abusos entram na pauta do jornal “Boston Globe” com a chegada de um novo editor, o judeu Marty Baron (Liev Schereiber), em 2001. Vindo da Flórida, ele estranha que o jornal não tenha dado importância aos fatos denunciados e escala a equipe Sptolight, especialista em reportagens investigativas que podem durar meses, para apurar, investigar e publicar.
Comandada por Robby Robinson (Michael Keaton), a equipe formada pelos repórteres Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian D’Arcy James) inicia as investigações sobre os casos, tendo como ponto de partida um advogado (Stanley Tucci) que tem como clientes uma série de vítimas de abusos cometidos por apenas um religioso. A missão do grupo não será fácil, pois terá que lidar com as vítimas reticentes em exporem suas dores, os advogados que lucraram com os sigilosos acordos financeiros com a Igreja, a sociedade majoritariamente católica de Boston e a influência da Igreja Católica em poderes teoricamente laicos como o Judiciário. À medida em que a investigação prossegue, fica evidente o modus operandi da Igreja, que transferia sistematicamente os padres que cometessem crimes e pressionava as vítimas para que se calassem, nem que fosse na base da compensação financeira. Ah, e a internet não era a “molezinha” que temos hoje, em que praticamente tudo está na rede mundial de computadores.
Aula de narração, direção e atuação
“Spotlight – Segredos revelados” poderia ser apenas mais um drama alarmista e espetaculoso, daqueles que preferem a polêmica pela polêmica, caso estivesse em mãos de pessoas com menores doses de escrúpulos. Mas o roteiro de Tom McCarthy e Josh Singer privilegia contar uma excelente história do que simplesmente colocar, de forma exagerada, todos os dedos nas feridas provocadas pelos abusos. Ao roteiro seguem-se a excelente, direta e enxuta direção do próprio McCarthy, que não precisa apostar em excessos dramáticos para levar ao público a dor das vítimas e o trabalho feito pelos repórteres.
Nada disso, porém, seria possível sem o excepcional elenco que trabalha em “Spotlight”, que vai da entrega sincera de Ruffalo e McAdams em seus papéis à postura comedida de Liev Schreiber, o ceticismo inicial do Ben Bradlee Jr. de John Slattery e a perseverança mostrada em cena por Michael Keaton. Para coroar a produção, Tom McCarthy consegue reproduzir na tela grande todo o trabalho de apuração feito pela equipe Spotlight, mostrando que é possível, sim, fazer jornalismo sério, com profundidade, a milhas e milhas de distância dos textos rasos e mal apurados tanto de jornalistas de ofício – muitas vezes vítimas do imediatismo que passou a assolar o ramo – quanto dos “especialistas” que povoam a internet.
Para quem ficou surpreso com a premiação de “Spotlight – Segredos revelados” no último domingo, a exibição do longa na cidade será a oportunidade de conferir na sala escura que o Oscar de melhor filme para a produção é mais do que justo, uma aula de como se contar uma história difícil sem apostar em fórmulas fáceis para emocionar o público.
SPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS
UCI 5: 22h30.
Classificação: 12 anos

