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Um barranco como ateliê

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Se arte também é estado de espírito, o artista e morador de rua argentino, que prefere ter sua identidade preservada, acaba de deixar parte de sua alma em um barranco da Garganta do Dilermando. Morando em Juiz de Fora há 11 anos, ele se relaciona com o fazer artístico desde a juventude e nunca passou por qualquer formação acadêmica. Em sua trajetória, que inclui imersões no barroco mineiro e passagem pelo Peru, a rua sempre foi a única morada. Agora, ele enxergou no barranco a função de ateliê e fonte natural de matéria-prima para o trabalho. E por lá deixa sua primeira escultura escavada na terra, que classifica como uma compilação de todos os trabalhos que já realizou. É como se as pessoas pudessem conhecer a árvore pelo fruto.

Como mostrado ontem pela Tribuna, a intervenção do argentino vinha despertando a curiosidade de quem passava pelo local. Ele começou o trabalho há cerca de 20 dias. Ainda faltam alguns ajustes. Preciso arrumar o cabelo, diz, apontando para a vegetação que cerca o rosto de cerca de 1,5m de altura. Quando olho para o resultado, sinto tranquilidade, porque me possibilita comunicar com as pessoas. Acho que sou mais explícito trabalhando do que falando. E esse trabalho aparece para se integrar ao meio e dar um novo sentido ao espaço.

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A relação do artista com a rua começou aos 18 anos, ainda na Argentina, quando decidiu que deixaria sua casa e faria da arte seu ofício. Uma companheira que tinha na época me encorajou, dizendo: ‘faça o que você quer, rapaz’. Desde então, ele já trabalhou com arame, solda e jóias e chegou a se mudar para o Peru para que pudesse aprender técnicas manuais com os nativos. Minha formação está na rua, observando e preocupado em encaixar meus pensamentos.

Chegando ao Brasil, ao 25 anos, em busca de um país com maior liberdade ideológica, ele teve São Paulo como porta de entrada. Por aqui, as coisas parecem ser mais flexíveis. O comportamento do povo colonizado pela Espanha me parece um pouco mais rígido e violento. E esse motivo me fez querer tentar uma nova vida. Passados alguns anos, o artista já tinha a histórica Mariana como endereço, onde assumiu o envolvimento com a arte e o barroco, mas trabalhando na rua.

A lista de experimentações também inclui esculturas com areia na praia de Itaipu, em Niterói, e trabalhos com argila, sendo essas mais próximas da última criação. Comecei com as bolsas e estou chegando na escultura. Acho que estou sendo coerente, mantendo uma linha de perseverança.

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