De Tiradentes até Hollywood, Tânia Maria já caiu nas graças do mundo, interpretando Dona Sebastiana em “O agente secreto”. Aos 78 anos, ela começou a atuar e deu vida à personagem que recebe Marcelo/Armando, interpretado por Wagner Moura, em Recife. Até então, ela foi escalada como uma “não atriz”, mas que a equipe reconhecia como perfeita para o papel. “Muitas vezes, é o rosto, um jeito de se movimentar, de ser. Não necessariamente é uma questão de melhor performance, mas um casamento com o papel”, explica Leonardo Lacca, diretor assistente e preparador de elenco do filme indicado ao Oscar de 2026, quando pensa nas escolhas do filme. No total, foram 60 atores com fala, entre os com mais experiência e os com menos — incluindo, nesse segundo grupo, o segurança do set, zelador de seu prédio, uma amiga que estava de viagem e até um dos figurantes que ganhou destaque durante as gravações.
Um preparador de elenco precisa ajudar os intérpretes a construir e sustentar seus personagens, e trabalha nos bastidores, em parceria com o diretor e o elenco. Lacca compara a função de Kleber Mendonça Filho, como diretor, à de um maestro, e a dele com a função de alguém que o acompanha enquanto toca a música. “Quando estamos lendo um roteiro, a gente lê o que está na superfície e o que está por trás. Muitas vezes, podemos não alcançar o que é isso, e ele tem a chave do que é isso, esse mistério. Com essa direção, tudo fica muito nítido. Gosto de pensar que é um alimento para o ator”, reflete. É nesse momento de trocas que os personagens também tomam forma. “Às vezes o ator precisa do erro para se sentir seguro. Eu acredito muito na sala de ensaio como um espaço de liberdade e em não ser exatamente um resultado”, conta, sobre esse momento.
O diferencial desse filme, para ele, está também na parceria com o diretor, algo que já tinha acontecido antes em “Bacurau” (2019). “Nos roteiros de Kleber, não existe personagem pequeno. Todos são inesquecíveis. Essa é a mágica da escrita dele enquanto artista”, destaca, exemplificando que é por isso que o público se lembra de maneira precisa de algumas frases ou cenas ditas por personagens que aparecem de maneira bem pontual. “Muitas vezes, lidamos com cenas que descobrimos na sala de ensaio que não funcionam. Nos filmes do Kleber isso não acontece. É impressionante como ele tem esse domínio da dramaturgia. É uma coisa meio de mestre, para ser bem sincero, e sem querer rasgar seda”, continua.
No momento dos ensaios, é dar força a isso que o interessa: e também por isso que valoriza a naturalidade dos atores, vinda muitas vezes daqueles que não estão acostumados com o ambiente dos sets. Um dos pontos que ele, Kleber e Gabriel Domingues (diretor de elenco) valorizavam, ainda, era ter um olhar para a diversidade da população brasileira a partir do elenco. “Ele tem interesse em buscar personagens que estão no imaginário dele, que escreveu, mas também abrir os poros artísticos para novidades e possibilidades que não foram pensadas”, explica. E, por isso, Lacca também conta que se sentiu à vontade para pescar novos talentos: como foi o caso do segurança do set, zelador do prédio, uma amiga que estava na cidade devido a uma viagem, uma ex-BBB e até um figurante que tomou força, mas que foram incorporados por entender que tinham “algo de interessante” para as telas.
Para ele, o que aconteceu com a personagem de Tânia Maria pode acontecer também com outras pessoas, dada a oportunidade. “Teoricamente, ela não é atriz, mas ela é uma grande atriz. Ela só não tinha tido antes a oportunidade de manifestar esse talento, e agora ela tem. É um presente para o mundo, para todo mundo que ama arte”, diz. Por isso defende que, dada a oportunidade e a formação, qualquer pessoa pode se tornar um ator. “Eu gosto desse processo de formação, então quando vem alguém que nunca atuou, mas tem interesse e a gente quer no filme, ela passa por um processo de formação, para explicar como funciona o set, não olhar pra câmera, viver como se fosse verdade”, explica.
Processos como esse, ele acredita, deixaram o filme mais especial. Também o roteiro impressionou a ele, desde o começo, pela maneira com que abordou a ditadura militar e também a forma através da qual inseriu Recife no imaginário das pessoas. “É uma época muito complicada da história do Brasil, mas feita de uma maneira muito original e que eu nunca vi. Quando comecei a ler, vi que era a primeira vez que teríamos um filme de ditadura sem bomba, gente correndo, polícia batendo… Aquilo já foi tão mostrado, que vamos ver um outro lado”, conta, destacando o olhar para o desmonte da universidade e a relação promíscua entre os empresários e o Estado.

