
Leonardo DiCaprio é o explorador que tem no desejo de vingança a força para sobreviver e perseguir os homens que mataram seu filho
Por mais frágil que seja, o ser humano é capaz de contrariar toda a lógica e sobreviver a situações impensáveis e impossíveis, e que muitas vezes acabam parando nas telas dos cinemas. Recentemente, a história que inspirou Herman Melville a escrever “Moby Dick” foi contada em “No coração do mar”; há poucos anos, o Grande Tsunami do Pacífico, em 2004, rendeu a história de uma família espanhola que sobreviveu à tragédia em “O impossível”. E ainda poderíamos citar os eventos adaptados em película em “Os 33”, “Evereste” e “Vivos” (sobre os sobreviventes do avião que caiu nos Andes na década de 1970). Mas e quando a sobrevivência é apenas o meio para um fim maior, no caso, a vingança? É esta a história real que o diretor mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu mostra em “O regresso”, que estreia em Juiz de Fora nesta quinta-feira.
Iñárritu, com Mark L. Smith, escreveu o roteiro a partir do livro “The revenant: A novel of revenge”, romance de 2002 de Michael Punke baseado na saga de sobrevivência e vingança do explorador e comerciante de peles Hugh Glass, que havia sido contada anteriormente no poema “The song of Hugh Glass” (1915), de John G. Neihardt, no livro “Lord Grizzly” (1954), de Fredrick Manfred, e no filme “Fúria selvagem” (1971), com Richard Harris e John Houston, entre outras obras. Ao contrário do longa-metragem dos anos 70, a produção utiliza os nomes dos personagens que viveram a história marcada pelo frio, morte, sangue e ódio.
Os fatos narrados em “O regresso” se passam nos Estados Unidos em 1823, quando um grupo de exploradores e comerciantes segue pelo Rio Mississipi em busca de peles de animais. Eles são atacados por uma tribo indígena, e parte considerável da caravana acaba morrendo; os sobreviventes são aqueles que escaparam sob orientação de Hugh Glass (papel de Leonardo DiCaprio), que os aconselha a seguirem por terra ao invés de continuarem no barco. A jornada é marcada por tensão, pois um dos sobreviventes é John Fitzgerald (Tom Hardy), figura brutal que tem comportamento hostil com o filho do guia, Hawk, fruto do relacionamento de Glass com uma índia.
Enquanto todos precisam sobreviver aos rigores das insistentes e terríveis tempestades de neve, Hugh Glass é atacado por uma fêmea de urso e fica à beira da morte. Fitzgerald é um dos homens que se oferece para ficar para trás e ajudar a levar Glass para o Forte Kiowa. Ele aproveita para matar o filho do explorador e conta com o apoio de Bridger (Will Poulter, de “Maze runner”) para deixar o guia para trás, que chega a ser dado como morto e é enterrado pela dupla. Mas os Estados Unidos daquela época eram território em que apenas os bravos e fortes conseguiam sobreviver para ver nascer um novo dia, e Hugh Glass tinha todos os motivos para não se entregar à morte. A partir daí, ele inicia sua jornada para sobreviver ao inverno, aos ferimentos e às ameaças que pode encontrar em meio à floresta a fim de alcançar o seu objetivo maior: encontrar os homens que o deixaram para morrer e fazer pagá-los não apenas pela traição, mas também pela morte de seu filho.
Desafios que podem render uma dúzia de Oscar
A ideia de levar “O regresso” para a tela grande surgiu há mais de uma década, quando o sul-coreano Park Chan-wook (“Oldboy”) chegou a se envolver no projeto, que teria Samuel L. Jackson no papel principal. Alejandro Gonzáles Iñárritu fechou contrato para o filme em 2011, mas as gravações começaram apenas três anos depois devido a outros projetos – entre eles “Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)”, o grande vencedor do Oscar em 2015.
E as filmagens, iniciadas em outubro de 2014, não foram fáceis. Devido a problemas nas locações (no norte do Canadá) e com o elenco, as filmagens foram encerradas apenas em agosto do ano passado, três meses após a previsão inicial. As ideias de Iñárritu também não facilitaram a vida de ninguém: ele resolveu filmar todo o longa-metragem com luz natural, resultando em pouco mais de uma hora por dia de filmagens e exigindo uma série de sacrifícios por parte do elenco. Tom Hardy, por exemplo, teve que recusar um papel de destaque em “Esquadrão Suicida”. O cineasta mexicano também resolveu criar uma avalanche real para uma das cenas do filme, ao invés de criá-la por computação gráfica, o que exigiu um grande esforço de logística. Somente a cena de abertura, quase toda em plano-sequência, exigiu um mês de ensaios. A produção tinha seu próprio meteorologista para indicar quais os melhores locais para gravar e onde encontrar neve em abundância. E Leonardo DiCaprio, vegetariano convicto, chegou a comer um fígado cru para dar mais veracidade a uma cena.
Todo esse esforço, porém, tem sido recompensado até agora por meio das críticas efusivas e os prêmios já recebidos por “O regresso”. O longa foi agraciado com três Globos de Ouro (Melhor filme, diretor para Iñárritu e ator para DiCaprio), recebeu oito indicações para o Bafta (o Oscar inglês) e nada menos que 12 indicações para o Oscar: filme, diretor, ator, ator coadjuvante (Tom Hardy) e fotografia (Emannuel Lubezki, que levou a estatueta na categoria em 2014 e 2015).
Alejandro Iñárritu venceu no ano passado o Oscar de melhor diretor por “Birdman…” – que também levou o prêmio de melhor filme – e tem tudo para repetir a dobradinha este ano, graças à história visceral, violenta e épica contada pelo cineasta, no que muito deve agradecer à fotografia de Lubezki. E Leonardo DiCaprio, por sua entrega ao papel de Hugh Glass, tem aquela que é considerada a melhor interpretação de sua carreira – e que deve render a ele, enfim, o primeiro Oscar da carreira de um dos melhores atores de sua geração.
Para quem acredita que cinema é muito mais que entretenimento, conhecer a jornada de ódio e vingança de “O regresso” é a melhor opção para fugir do carnaval – nem que seja por apenas 156 intensos minutos.
‘O REGRESSO’
UCI 3: 13h30, 16h40, 19h50 e 23h. UCI 4 (dub): 22h30. Cinemais 1 (dub): 15h20 e 18h20. Cinemais 1: 21h20
Classificação:16 anos

