
“Gilles and Gotscho”, trabalho de Nan Goldin sobre casal que enfrenta a Aids nos anos 1990
Trabalho da série “Senescência”, de Nina Mello
A viagem para Teresópolis Sebastiana Angela Vargas carrega consigo. O dia em que os pais conheceram o mar também está intacto na memória. O rosto de Getúlio, seu marido, passando do susto aos risos, quando ela mergulhou na cachoeira de Ibitipoca momentos antes de eles pegarem a estrada rumo a Juiz de Fora também foi preservado. Tudo guardado. As fotos que registraram esses e muitos outros momentos felizes estão escondidos em fotografias que se perderam após a viuvez chegar, trazendo junto a solidão de uma filha única que fez a opção por não ter tido filhos. Aos 63 anos, a mulher que hoje assina apenas o segundo nome – uma forma de renovar a própria vida – e mora no Lar dos Idosos Santa Luiza de Marillac não consegue olhar o que permaneceu com a mudança. “É a única coisa que ficou deles. Foi e continua sendo muito difícil para mim ter perdido meu único companheiro”, emociona-se Angela.
As fotos são, para ela, a confirmação de uma ausência. “Ninguém vai me tirar as imagens que tenho na memória. E essas talvez sejam as mais importantes”, sorri a mulher de cachos nos cabelos negros e sorriso acolhedor, que sempre gostou de fotografar e ser fotografada, mas hoje desvia dos flashes. No feriado de Finados, a Tribuna aborda uma das linguagens que mais se relaciona com a morte, por recusá-la ao tentar “prender” um passado. Retratando-a em trabalhos artísticos e discutindo o próprio processo em consonância com os ciclos da vida, a fotografia serve como metáfora e também como argumento. “Basta, agora, um toque do dedo para dotar um momento de uma ironia póstuma. As fotos mostram as pessoas incontestavelmente presentes num lugar e numa época específica de suas vidas; agrupam pessoas e coisas, que, num instante depois, se dispersaram, mudaram, seguiram o curso de seus destinos independentes”, analisa a pesquisadora e crítica de arte Susan Sontag em seu livro “Objetos de melancolia”.
De acordo com o professor da pós-graduação do Instituto de Artes e Design da UFJF Afonso Rodrigues, a chegada da fotografia no século XIX foi, acima de tudo, um fenômeno social. “A fotografia trouxe, na verdade, uma expansão do raciocínio e da percepção das pessoas sobre si mesmas. Uma destas expansões foi a questão da perenização da vida, da apreensão do tempo e sua eternização de momentos. A fotografia ‘post morten’ era um último registro da pessoa, de modo a captar sua imagem e, daí, sua memória”, aponta, referindo-se a uma prática bastante comum no anos finais do século XIX. “Para pensar a fotografia, é preciso pensar o ato, que é muito dinâmico. É um tripé: a câmera, a representação e o observador, que é quem constrói a imagem. Esse movimento é temporal, de passado, presente e futuro. A partir do momento em que você retém uma situação, aquilo já não existe mais. Aquele momento acabou, por isso a relação com a morte”, acrescenta a fotógrafa e estudiosa Nina Mello.
Realidade amarelada
O aprisionamento de um momento está intimamente ligado à ideia já arcaica da fotografia como registro do real. “Creio que ela já superou o conceito de que ‘registra o real’, pois o que se registra mesmo é um fragmento do tempo imantado pela potencialidade da memória. Daí a necessidade de se intoxicar de imagens, já que a capacidade de retenção das lembranças foi catapultada pela facilidade tecnológica a um patamar que transfere para a imagem captada boa parte da responsabilidade da memória”, analisa Afonso Rodrigues. Segundo Nina Mello, o pesquisador Armando Silva em seu livro “Álbum de família”, esclarece essa sensação de que, diante de uma foto, nos encontramos com o passado. “Ele entende a fotografia dentro de um caráter pervertido, exatamente por reter, querer manter vivo, o que era para ser passado, para realmente não existir mais. O fotógrafo registra, capta o passado, prendendo-o no presente para que ele se realize no futuro. Quando a imagem é mostrada, ela se recria no outro. Ela se faz o tempo inteiro. A fotografia luta ao lado da morte e do esquecimento”, comenta.
Dessa forma, tudo não passa de uma percepção e de um exercício cultural. Tanto que as fotos estão presentes em cemitérios, demarcando lápides, e são a forma mais recorrente de se apresentar um ente que já se foi. “A fotografia é a expressão da sensibilidade humana, portanto está aberta (inclusive) ao fazer artístico. A morte é, foi e será assunto que perpassará a mente humana durante sua passagem pela vida. É a morte a grande pergunta, e cabe à religião, à filosofia, à ciência e à arte encará-la de frente e trazer à tona para que reverbere na sociedade a possível resposta que poucos querem ouvir: somos finitos. A fotografia responde ao seu modo e léxico particular à questão estendendo para um tempo posterior a imagem e o seu desdobramento simbólico: sou eterno enquanto for lembrado”, diz Rodrigues.
E o desejo humano é que cada vez sejamos mais e mais eternizados pelos inúmeros cliques feitos. “Essa loucura de fotografar obsessivamente é a necessidade de reter, de ter a memória presente, como se aquilo não pudesse passar ou acabar”, aponta Nina Mello. Essa permanência nas fotos para alguns, como Angela, dói. “Não sei se caminhamos para o caos por causa da hiper produção/exposição de fotografias. O cérebro humano é adaptável às alterações perceptivas a que é submetido. Com certeza o que será, talvez, criado seja uma filtragem que regulará a absorção desta avalanche de informações imagéticas que passará por critérios físicos (a capacidade do olho de “ver”), ambientais (a adequação dos ambientes de fruição da imagem) e culturais (este sim, o grande critério desta assimilação pois é individual e seletivo)”, complementa Rodrigues.
A arte não diz adeus
Uma das mais respeitadas fotógrafas contemporâneas, a norte-americana Nan Goldin debateu, ao longo de sua trajetória, a morte como processo natural e os registros contínuos e constantes como forma de se repensar o cotidiano. Na série “Eu serei seu espelho”, ela apresenta a amiga Cookie Mueller em festas, em seu ambiente familiar, no banheiro com outra amiga, num bar, rindo de forma exuberante, em seu casamento, ao lado de seu marido morto, ela doente e ela, mesma, morta, com a família desolada. Em Juiz de Fora, duas recentes exposições também retrataram o assunto de maneiras distintas. Em “Amor eterno”, exposta na “Foto 14”, o fotógrafo David Azevedo enfoca flores artificiais de cemitérios portugueses, discutindo as relações pessoais nos dias de hoje. “De que forma a flor representa o sentimento de quem ficou?”, indaga ele, que criou uma lápide com seu próprio nome e a fixou na mostra. “Queria elevar a morte, não o ato de morrer, mas o ritual, que se estabelece como homenagem sempre.”
Também enfocando flores, mas as vivas, em seu processo final de vida, Nina Mello representa o belo em um momento em que reinam as dúvidas. “A morte por resolução das células não é uma superação. A morte está dada. E as flores morrem quando cumprem o papel de reprodução”, diz ela, que investigou o assunto cientificamente e, em sua artesania, exalta a subjetividade do estranho. Em “Senescência”, a ordem natural é exaltada. “Flor sempre foi beleza, sempre foi vida. Queria um entendimento da morte que amenizasse minhas dores. Busquei olhar para ela no que achava de mais bonito”, destaca. Dessa forma, a fotografia, essa expressão que depende do outro para significar, ainda que falando de morte, sempre é a confirmação da vida. Angela Vargas, a moradora do Lar dos Idosos Santa Luiza de Marillac, bem sabe, que registro é presença.

