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Museu do Inhotim propõe ‘invenções da terra’ pela perspectiva dos povos originários

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“Todos os povos indígenas têm sua forma de perceber o mundo. Essa é uma memória que vivemos o tempo todo”, afirma Sandra Benites. É assim que a antropóloga, curadora e ativista dedicada ao seu povo, os Guarani Nhandeva, define a importância das comunidades originárias pensarem invenções da terra que redesenham caminhos e perspectivas. Ela foi uma das palestrantes do Seminário Internacional Transmutar, no Museu do Inhotim, junto com nomes como Regina Galindo, Melissa Alves (Sertão Negro), Inaicyra Falcão, Eyder Calambás Tróchez e Phuyu Uma (Consejo Ancestral Willka Yaku). Com perspectivas diversificadas, essas vozes trouxeram experiências de diferentes locais da América Latina no que diz respeito a território, cultura e clima, ecoando alternativas que buscam respostas para o futuro na ancestralidade.

Sandra Benites é antropóloga, curadora e ativista do povo Guarani Nhandeva (Foto: Divulgação/Museu do Inhotim)

Como relembra o colombiano Eyder Calambás Tróchez, a ancestralidade segue buscando respostas para o futuro. No Consejo Ancestral Willka Yaku, do qual ele faz parte, o povo Yanakuna de raízes Quechua-Aymara fez um chamado nacional para a preservação das lagoas ancestrais, que são consideradas águas sagradas. A iniciativa busca na preservação milenar do Maciço Andino Colombiano o fortalecimento cultural e a união. “A ancestralidade não ficou no passado. As resistências em defesa da água e seus rituais estão surgindo agora, em qualquer território”, explica ele. É o que também complementa Phuyu Uma, sobre os trabalhos guiados pelas orientações e metodologias das práticas ancestrais que buscam dialogar com o momento presente.

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A iniciativa de integrar tempos para pensar soluções também é o que parece fazer o Sertão Negro, complexo artístico sediado em Goiânia e fundado por Dalton Paula e Ceiça Ferreira. O projeto evoca práticas quilombolas e de resistências indígenas para criação artística, funcionando com ateliê, residências para artistas nacionais e internacionais, sessões de cineclube focado nos cinemas negros, aulas de capoeira angola, gravura e cerâmica; além de uma cozinha ativa, hortas, jardins e viveiros. Melissa Alves, uma das participantes do coletivo, que também está na Bienal de Arte de São Paulo, explica que é justamente a relação com o território que buscam reforçar. “As práticas que ocorrem no Sertão Negro têm muito diálogo com esse cerrado brasileiro, tanto isso acontece que mostra toda a conexão que pode ser feita entre nossos pares e entender que se vive em comunidade, a partir de um quilombo, aprendendo como se vive em comunidade”, diz.

Emancipação artística

Entre os representantes das comunidades originárias entrevistados, a emancipação artística também é uma forte preocupação — tanto no sentido dos artistas poderem sobreviver com o seu trabalho quanto de poderem se libertar dos padrões ocidentais e colonizadores do que é arte. Isso é algo que Benites já observou no seu trabalho enquanto curadora: “O perigo é que os artistas indígenas deixem de achar a arte que fazem importante ou que não se reconheçam como artistas. (…) Não podemos deixar que a nossa arte seja capturada de forma violenta”, afirma. Por isso, ela também acredita que é importante que os artistas indígenas reconheçam sua coletividade. “Cada pessoa tem a possibilidade de produzir objetos que têm a ver com o conhecimento coletivo, como quando um indígena faz uma escultura de animais. Durante o processo de produzir essa escultura, que nem todos sabem fazer, os artistas usam do conhecimento e matéria-prima da comunidade”, explica, afirmando ainda que essa é uma habilidade que demanda a permissão dos espíritos da natureza para que seja colocada em prática e desenvolvida.

Melissa Alves é arquiteta, pesquisadora e curadora ligada ao coletivo Sertão Negro (Foto: Divulgação/ Museu do Inhotim)

Essa também é uma grande preocupação para o Sertão Negro, que conta com mais de quarenta pessoas, incluindo artistas residentes, pesquisadores, cozinheiras, arte-educadores, estudantes, curadoras e integrantes do Sertão Verde, núcleo mais específico voltado à agroecologia e à soberania alimentar. O que o grupo acredita é que essa troca de experiências e a iniciativa de preservação das memórias dos quilombos e terreiros importa, e pra isso  o grupo promove debates e trocas de experiências em meio a um modelo alternativo que abrange tanto as técnicas ancestrais de construção quanto os saberes da terra. Para isso, também estão sempre pensando como os artistas podem sobreviver e continuar criando em harmonia. “A gente pensa muito sobre o futuro da vida das pessoas enquanto emancipação artística e cultural a partir do sertão”, afirma Melissa.

 

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Eyder Calambás Tróchez é filósofo, escritor e artista do povo originário Misak (Foto: Divulgação/Museu do Inhotim)

Por um futuro

Apesar de cada representante falar da própria realidade, no Transmutar, esses cenários também se encontram e mostram suas coincidências. É o que percebe Eyder, sobre o quanto as fronteiras não são tão distantes quanto parecem — e o quanto os movimentos decolonias brasileiros também reverberam na Colômbia. “Quais são as intenções e princípios que movem os quilombos afro, os movimentos de pessoas no campo, os indígenas pela defesa da Amazônia? Os objetivos são os mesmos, mas com circunstâncias diversas e ameaças diferentes”, diz. 

Para ele, as reivindicações feitas em Inhotim também estão acontecendo em outros lugares do mundo, e precisam da reverberação dessas vozes para que se encontrem soluções. “Quem sabe mais sobre resistir à questão da Amazônia que os povos indígenas? Quem sabe mais como resistir ao monocultivo de açúcar no norte do Cauco? A questão é como esses povos podem unir suas lutas e compartilhar os conhecimentos que nos permitiram sobreviver”, pensa.

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