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‘Foto 14’ homenageia Cerezo

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Filha e viúva de Cerezo, Thais e Magdalena posam ao lado de imagem do fotógrafo feita por Humberto Nicoline

Filha e viúva de Cerezo, Thais e Magdalena posam ao lado de imagem do fotógrafo feita por Humberto Nicoline

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Última imagem na câmera Cerezo

Um dos trabalhos em fine art

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Bem-te-vi clicado de sua casa

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Lua no Mirante São Bernardo

O tempo que corre, ligeiro, não diminui a intensidade da dor. “A sensação que tenho é que saio de mim para poder fazer o que ele merece”, confidencia Maria Magdalena Ribeiro Matos, viúva do repórter fotográfico da Tribuna Antônio Olavo Matos, o Cerezo, homenageado da edição deste ano do “Foto 14”. “Nos sentimos muito honrados por poder mostrar como era o trabalho dele”, afirma a mulher com quem o profissional foi casado por 24 anos e teve dois filhos – Thais e Thiago. Com curadoria de Sérgio Neumann, Eridan Leão e Fernanda Lauro, a exposição “Tributo a Antonio Olavo Cerezo” reúne, na Galeria Narcisse Szymanowski, do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, 44 imagens. Lado a lado, estão registros que ajudam a contar a história da imprensa em Juiz de Fora e outros pertencentes ao acervo pessoal do artista.

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No fundo do corredor, no extremo oposto da parede em que Cerezo aparece em foto de Humberto Nicoline esbanjando um largo sorriso, está seu último registro: uma das ruas da histórica Ouro Preto, cidade que o fotógrafo clicou três dias antes de falecer em decorrência de um aneurisma na aorta. Ele participava da cobertura da cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência pelo jornal em que trabalhou por 22 anos. Como que a denotar um caminho a ser percorrido, o clique exibido em dimensões ampliadas põe em evidência a sensibilidade de um talento singular para o ofício.

“Profissional ético, sério e comprometido com a fotografia verdade, ele fazia arte dentro do jornalismo”, diz Neumann, apontando para um trabalho em que da beleza e da simplicidade de um bem-te-vi se alimentando na janela pode-se perceber o discurso engajado escondido nas entrelinhas. “A grade traz uma mensagem de liberdade.” Segundo Magdalena, a foto que está à mostra foi selecionada dentro de uma série de 150. “O ninho foi seguido a cada pedacinho de madeira, ou folha, ou fio que era colocado. Depois os ovos, o nascimento e o crescimento dos filhotes. Foi uma história de mais de um ano”, diz ela, que revolveu um acervo de cerca de nove mil registros, além de inúmeros negativos, para que os curadores montassem a exposição.

 

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Olhar privilegiado e sensível

Da cobertura da casa onde morava, Cerezo fitava o Mirante do São Bernardo. “Ele sempre fazia um plantãozinho lá para pegar a melhor posição, a melhor luz. Ele tinha paixão por essa igrejinha. A lua, ele fotografava quase que diariamente”, relembra a mulher que, em “Um olhar privilegiado e sensível”, texto de apresentação da mostra, emociona o leitor ao relatar de onde surgiu o desejo do marido de escancarar as injustiças sociais. Quando menino, Cerezo foi coroinha e se dedicou a obras sociais da Catedral.

“Ainda que talvez inconsciente ou, até mesmo, meio inocente, penso que daí foi atiçado seu senso para os contrastes: belo, chocante, sutil, denunciativo, curioso. Nesta época, seu interesse pela fotografia levou-o a matricular-se em um curso para aliar seus registros visuais às técnicas que o aprendizado traria. Evidenciou-se, então, sua tendência para a denúncia, quando chegou a expor um pequeno ensaio em preto e branco, embora com recursos escassos de equipamentos.”

A cena que traz dois jovens de braços e pernas algemados no chão parece ser a mais emblemática de um trabalho que alia jornalismo e arte. A idade dos dois não é revelada, assim como seus rostos. Quem são aqueles que perderam o direito de ir e vir? Que crimes cometeram? O espectador se entrega a uma mistura de compaixão e curiosidade. “Ela mostra jovens que cometeram um delito, mas, ao mesmo tempo, é de uma beleza plástica fantástica. Quem se depara com uma foto dessa num jornal vai ter muita reflexão a fazer”, comenta Neumann. Também impossível passar ileso por um quadro que expõe a deficiente saúde pública no Brasil. Um cachorro deitado, de pernas para cima, ao lado de um homem sentado, que tem sobre a cabeça uma placa da Previdência Social.

O último jogo do ídolo Zico em Juiz de Fora, entre outros inúmeros trabalhos relacionados ao esporte, divide espaço com paisagens do Museu Mariano Procópio, registro documental no Vale do Jequitinhonha e uma mostra do que seria a série “Gotas”. Segundo Eridan Leão, a proposta era criar um ambiente intimista, oferecendo ao público uma mostra do que foi o trabalho autoral de Cerezo. “Mesclamos fotos jornalísticas com outros de cunho mais estético. É uma homenagem não só a ele, mas também à família. Foi uma experiência a várias mãos.”

Para a filha Thaís, o pai era exatamente o que está diante do espectador. “Uma pessoa que se preocupava com o próximo, que se preocupava com a sociedade. Acho que, de certa forma, o público consegue ver através dos olhos dele”, acredita ela, lembrando com carinho da época em que ela e o irmão acompanhavam o pai em seus experimentos fotográficos. “Ele não falava muito sobre o trabalho. Isso aqui era a maneira dele de falar”, diz a jovem, sendo amparada pela mãe. “Do Antônio Olavo Cerezo, como assinava suas imagens, restam boas lembranças, e para quem não teve a oportunidade de conhecê-lo, suas fotografias contam mais sobre ele mesmo do que quaisquer palavras”, finaliza Magdalena.

 

TRIBUTO A ANTONIO OLAVO CEREZO

Visitação de terça a sexta-feira, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 21h.

Até 14 de setembro CCBM (Av.Getúlio Vargas 200)

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