Em uma das varandas do condomínio Solar da Fossa, o percussionista Naná Vasconcelos reuniu suas primeiras panelas e seu inseparável berimbau para a pesquisa musical que o consagraria um pouco mais tarde. Ali mesmo, ofereceu um concerto inusitado de quase três horas aos vizinhos. "O espetáculo foi tão impressionante que ele teve de repeti-lo nos dias seguintes", conta o repórter Carlos Marques no livro "Solar da Fossa", de Toninho Vaz. A publicação, da Casa da Palavra, será lançada hoje na Livraria Argumento, no Rio.
O episódio narrado é apenas um entre os incontáveis ocorridos, de 1964 a 1971, no casarão colonial que ocupou o espaço onde hoje está o shopping RioSul, em Botafogo. "O que mais chama a atenção é a concentração de pessoas que, num futuro próximo, se tornariam notáveis", comenta Vaz. Caetano Veloso, Gal Costa, Paulo Coelho, Tim Maia, Paulo Leminski e Darlene Glória, entre muitos outros figurões das artes, estavam na plateia que assistiu à percussão de Naná.
O ator e diretor juiz-forano Edgar Ribeiro também morou em um dos quartos da pensão administrada pela Dona Jurema, uma mulher bonita e de pulso firme. "Apesar de saber de tudo que acontecia por lá, ela era exigente", lembra Ribeiro, citando encontros políticos, musicais e até sexuais. Segundo o artista, o Solar era um lugar de criação capaz de promover sensações de segurança e liberdade em plena ditadura militar.
No início, de 1964 a 1966, o casarão era ocupado apenas por prostitutas, costureiras e policiais. Aos poucos, artistas e militantes foram chegando, atraídos pela discrição do ponto e a dispensa de fiadores. "Era um espaço fora do eixo, que acolhia quem chegava ao Rio. No começo não tinha charme algum", conta Toninho Vaz, que passou dois anos entrevistando cerca de cem pessoas. Alguns, porém, não quiseram dar depoimento. "Eles ainda têm medo." Edgar Ribeiro recorda-se do dia em que o senador Cristovam Buarque ficou escondido no Solar. "Era uma fase difícil, a gente lutava todo dia", diz. O juiz-forano define os moradores do condomínio como uma comunidade de desgarrados, distanciados da família de maneira incomum. "Eu mesmo fui parar lá depois de ter fugido de casa."
O escritor Wilson Bueno foi o responsável pela instalação do jovem Ribeiro, na época com 16 anos. Morto em 2010, Bueno também fez a ponte entre Toninho Vaz e o Solar. O autor ampliou seu interesse ao ouvir o amigo falar sobre a pensão. Apesar de nunca ter entrado no prédio, ele sabia de sua existência. "Fui ampliando minha pesquisa até propor um livro para uma editora." Em sua narrativa, com subtítulo "Um território de liberdade, impertinências, ideias e ousadias", Vaz apresenta momentos marcantes da cultura brasileira, como a composição da letra "Sinal fechado", por Paulinho da Viola, e dos arranjos de "Roda viva", pelo MPB4. "Quem não estava lá? Apenas o pessoal da bossa nova, porque ela aconteceu um pouco antes."
Tempos difíceis
De acordo com Edgar Ribeiro, os 88 apartamentos do Solar viviam de janelas e portas abertas. O intercâmbio artístico era intenso, tanto que o juiz-forano passou pelo artesanato, pela música e pelas artes cênicas, além de ter arriscado alguns traços como estilista. Acabou seguindo a trilha do teatro e da produção, tendo trabalhado com Kleiton e Kledir, MPB4 e outros. Ribeiro ressalta que também conheceu Caio Fernando Abreu, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade. Quando sua mãe foi procurá-lo no Solar, logo após sua fuga, em 1968, encontrou-o ao lado de uma hippie e exigiu que ele voltasse. Essa hippie era Gal Costa. "Eu vivia no meio dos gênios. Fazíamos leituras de textos, de letras", menciona, sugerindo que o livro de Vaz seja adaptado para o cinema.
Em 1972, o casarão – que deixou de ser Pensão Santa Terezinha quando o carnavalesco Fernando Pamplona separou-se da mulher e foi para lá curtir uma "fossa" – foi demolido. Ribeiro, que ganhou o apelido de Serginho Rebuceteio de Wilson Bueno para se esconder da família, foi um dos últimos a sair. "Tenho muito prazer em lembrar de lá. Todos estavam no início de suas vidas e comiam pão com manteiga na hora do almoço. Passamos sufoco, mas foi maravilhoso." A atriz Darlene Glória, que também era vista no jardim do Solar, faz coro. "Foram tempos difíceis, mas era primavera. Vivi plenamente aquela fase."
