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Entrevista exclusiva: aos 93 anos, Ruy Guerra fala sobre cinema, trajetória e inspiração

ruy guerra
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Cineasta esteve em Juiz de Fora, na última semana, quando participou de debate sobre “Aos pedaços” (Foto: Divulgação/Funalfa)
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O cineasta Ruy Guerra esteve em Juiz de Fora, na última semana, para a exibição do seu filme “Aos pedaços” na sala do Mercado Municipal. O longa, que passou por festivais em 2020 e conquistou o Kikito de Melhor Diretor, Melhor Fotografia e Melhor Som no Festival de Gramado, também chegou às salas de cinema este ano e vem trilhando uma caminhada junto ao público. A obra teve parte das filmagens em Cataguases e foi contemplada em um edital voltado para o cinema experimental, permitindo que o diretor, considerado um dos fundadores do Cinema Novo, tivesse nesta etapa da vida, mais uma vez, a oportunidade de explorar, ousar e testar. O resultado é um filme com ares de David Lynch e Hitchcock, mas com uma atmosfera teatral e um texto que são a cara só dele. Em entrevista exclusiva à Tribuna, Ruy Guerra contou sobre seu processo criativo, sua paixão pela física e os resquícios desse movimento cinematográfico na atualidade.

“Aos pedaços” ganhou prêmios em Festival de Gramado (Foto: Divulgação/Pandora Filmes)

Saber ao certo de onde vem uma ideia é difícil, mas nesse caso, especificamente, ele se lembra bem. Ruy conta que, enquanto estava filmando em Havana, em Cuba, um homem contou a ele que a casa que usavam para locação pertenceu a um homem que tinha duas esposas — uma na capital e outra nas Ilhas Canárias. “Cada uma ficava em uma casa, mas o curioso é que ele construiu duas exatamente iguais, e mobiliou exatamente igual também. Eu achei aquilo estranho”, conta. A história ficou em sua cabeça por alguns anos até que definisse o que faria com ela. “Eu já tinha o motivo, o por quê contar, mas fiquei pensando como fazer isso, qual ia ser a história…Se passaram uns cinco anos até que veio uma frase na minha cabeça: ‘Eurico Cruz ficou muito irritado quando soube que uma das duas mulheres queria o matar’”. Foi com esse ponto de partida que começou, e é uma adaptação dessa ideia que aparece em texto logo na primeira cena do filme.

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A obra começou a ser escrita como romance, mas já com a ideia de que seria adaptada, mais tarde, para o cinema. Até que ele soube de um edital voltado para filmes experimentais e, já perto dos 90 anos, escolheu se aventurar de novo. A experiência, para ele, “foi muito divertida”. É um filme que ele prefere que os espectadores assistam tentando encaixar as peças e desvendar os mistérios. Mesmo depois de assistir, no Mercado Municipal, ele perguntou ao público: “É um filme que vocês sentem vontade de conversar sobre depois?”. Enquanto ainda estavam todos sentindo, ele também contou mais sobre esse processo inventivo que o levou até a obra, mas sabendo que explicar demais pode realmente estragar a experiência de vivenciar essa experimentação. 

Fazer filmes assim, perto dos 93 anos, não é nada fácil. Ruy Guerra não escondeu, em diversas entrevistas dadas durante a pandemia de Covid-19, as dificuldades financeiras que enfrentou durante o período. Mas isso também não o afastou da paixão quase secular que sente pelo cinema, e que também é possível perceber pela própria dedicação da obra em trazer um olhar fresco e inspirado. “Eu não sei fazer outra coisa, só filmes e rabiscar poemas. Se não fizer, fico desempregado (…) A paixão e a necessidade andam juntas”, diz. 

Cineasta conta sobre processo criativo e inspirações (Foto: Divulgação/Funalfa)

Sobre decretar um fim

O Cinema Novo foi um movimento cinematógrafo dos anos 1960, em que os cineastas e artistas buscavam usar a linguagem cinematográfica para retratar a realidade do país de forma crítica e sem seguir padrões norte-americanos. É justamente o filme “Os cafajestes”, de Ruy Guerra, lançado em 1962, que foi responsável por fazer com que a expressão chegasse ao grande público brasileiro, já que a produção com pequeno orçamento e fora das grandes companhias tradicionais de cinema teve sucesso de público. Com inspirações da nouvelle vague e objetivo de também trazer um caráter social para os filmes, através de recursos estéticos inovadores, obras como essa fizeram com que o cinema brasileiro se reinventasse. É tendo em vista essa história que Guerra continuou seus trabalhos e pode avaliar o legado construído.

Para ele, um dos principais pontos de permanência do Cinema Novo é a quebra da narrativa clássica. “Foi um movimento de toda uma juventude que tinha vontade de fazer cinema com novas necessidades criativas, para adquirir maneiras próprias de fazer cinema. Isso não aconteceu em apenas um lugar, foi toda uma geração ligada nisso”, diz. Para ele, essa quebra da narrativa permitiu que as histórias fossem contadas em outro ritmo e com outras percepções temporais, e inclusive por essa visão acha tão difícil determinar o que ficou e o que realmente se foi com essa influência. “Só no futuro iremos saber, mas eu vejo marcas que permaneceram. Hoje, podemos pensar os finais de outras maneiras”, diz. Durante a conversa após o filme, também perguntaram a ele, seguindo a provocação do documentário “O homem que matou John Wayne”, filme de Diogo Oliveira e Bruno Laet sobre sua trajetória, se ele realmente tinha assassinado a figura. Ruy não deixa dúvida: “Ele [John Wayne] mereceu”, ri, e continua dizendo que adora a metáfora desse assassinato como forma de acabar com o cinema norte-americano.

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Inventar a verdade

Não é só de experimentar que Ruy Guerra tem vivido os últimos anos. Ele também conta que gosta muito de ler — suas referências, ao longo da conversa, vão de Fernando Pessoa a Edgar Allan Poe, incluindo também diversos nomes da física. “Eu só leio física há 20 anos, e não entendo nada. Eu sou o cara que menos entende de física no mundo. Mas aprendi uma coisa, que é que os grandes cientistas falam sobre a beleza da física, de como é tão bonita essa coisa. (…) E dizem algo que não faz sentido nenhum, mas que faz todo sentido: se a lei não é bela, não vai continuar. A natureza não produz nada feio”, conta.

Também pela vontade de aprender com os físicos, conta que descobriu duas características que eles têm em comum. “São apaixonados pela física e inventam coisas falsas que são verdadeiras. Acho que isso é o máximo da invenção”, diz. Pergunto se os cineastas também não seriam um pouco assim. “São. E são um pouco mais, mas aí tenho que falar do Deleuze”, diz. 

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