De Ítaca, da "Odisséia" de Homero, uma ilha sem localização precisa, parte Odisseu (da mitologia grega), deixando Penélope a sua espera. Protagonista do poema épico, Odisseu retorna à terra natal após a Guerra de Troia, encontrando a fidelidade da amada e a inveja dos que ficaram na ilha. Já na "Ithaca" que Paulo Scott desenha, no recente livro "Ithaca Road" (Companhia das Letras, 112 páginas), o espaço de isolamento é um pequeno apartamento em Sydney, na Austrália, onde a protagonista vivencia encontros com o intuito de se revelar.
Chamada às pressas pelo irmão, a neozelandesa Narelle, mestiça de maori com europeu, sai da Irlanda e segue para a capital australiana a fim de gerenciar o Paddington Sour, um misto de bar e restaurante em estágio avançado de falência. Reencontrando amigos, como a galerista Trixie, a jovem tenta levar um namoro à distância com um jornalista às voltas com inúmeras viagens investigativas. Durante a trama, o rapaz visita o Brasil em busca de informações aprofundadas sobre a extração ilegal de minério de ferro. Enquanto isso, mantém esparsas conversas com a amada, alimentando-a ainda mais de solidão.
Certa de que a ajuda ao irmão seria algo fugaz, Narelle parece não querer estabelecer raízes à medida em que é forçada a se envolver com os negócios e com o sumiço de Bernard (o irmão), que recusa seus telefonemas e parte em destino desconhecido. Obrigada a enfrentar as duras negociações da falência do negócio, a jovem de quase 30 anos, quatro faculdades abandonadas e muitos projetos inconclusos, é confrontada com o próprio amadurecimento.
Aparentemente vivendo um turbilhão de sentimentos – tempestade para a qual o narrador prefere não se ater -, Narelle encontra o silêncio de Anna, uma garota autista com sérios problemas de socialização. Inexplicavelmente simpática à Narelle, Anna se abre à desconhecida, permitindo que uma relação de amor e amizade floresça. A Penélope de Scott é atualizada nos fortes tons da juventude do século XXI. Para o autor, em nota que antecipa a trama, as semelhanças entre Brasil e Austrália sugerem laços que ainda não foram feitos. O que existe hoje é um imenso abismo entre os dois países.
As semelhanças entre o Brasil e o maior país da Oceania estão em alguns gostos que Paulo Scott observa no lugar onde mora (Rio de Janeiro) e no lugar por onde passou, a convite do projeto "Amores expressos". Os jovens de lá também gostam do skate, leem literaturas fantasiosas, encontram-se em pubs e, principalmente, olham para o sexo com o despudor dos preconceitos, abrindo-se com facilidade para o universo homoafetivo. Contudo, Scott revela ligações que transcendem regionalismos, como a política internacional, que configura uma nova dinâmica econômica mundial. O bar que Narelle toca abre falência demonstrando as engrenagens do governo australiano, não muito diferentes das brasileiras, ambas moldadas pela corrupção e por um serviço público que não dá conta de atender toda a população com eficiência.
Em seu último livro, "Habitante irreal", o autor também se envolve com o tema político, retratando as desilusões da geração que fundou a esquerda petista brasileira. As muitas páginas de "Habitante irreal", cheias de descrições expandidas, dão espaço, agora, a uma narrativa mais concisa, disposta a divagar menos na precisão de diálogos enxutos. "Ithaca Road", a avenida onde fica o apartamento de Bernard no qual Narelle aguarda as coisas melhorarem, apresenta uma outra voz da literatura contemporânea.
Em tempos de muitas discussões acerca da literatura escrita no presente – apontada por especialistas como prática das desconstruções, das narrativas fragmentadas, voltadas para experiências pessoais e repletas de subjetividades -, a obra de Paulo Scott acena para uma outra via, menos acadêmica e muito mais despretensiosa. "Ithaca Road" parece servir como uma câmera filmadora, que registra de um mesmo ponto algumas cenas e foca, rapidamente, na personagem principal, sem mergulhar na protagonista. A obra de Scott bebe no clássico, dá pistas das escritas mais atuais e resulta em originalidade, mostrando que esse outro lugar que o autor procura ainda carece de maior atenção.
Amores fugazes
Entre 2007 e 2008, 17 escritores foram enviados para 17 capitais ao redor do mundo, convidados pelo projeto "Amores expressos". Desde então, já foram lançados alguns títulos, outros continuam à espera das prateleiras, fazendo com que a própria ideia perca, substancialmente, sua força. Após passar pela Argentina, Daniel Galera escreveu o elogiado "Cordilheira"; de Portugal, Luiz Ruffato fez "Estive em Lisboa e lembrei de você"; Bernardo Carvalho, diante de sua passagem por São Petersburgo, criou "Filho da mãe"; Joca Reiners Terron escreveu, da visão do Cairo, "Do fundo do poço se vê a lua".
Editados, em sua maioria, pela Companhia das Letras, os livros desejavam o intercâmbio de escritores da literatura contemporânea brasileira com outros universos. Cada um a seu estilo, retratou à terra de destino com lembranças do Brasil. Em "Ithaca Road", mais que aspectos locais, está em primeiro plano a estreita conversa com a tradição – que começa em Homero.
