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Carência elementar

tombado pelo municipio em 2000 monumento ao trabalhador no alto da garganta do dilermando encontra se abandonado e deteriorado leonardo costa

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Tombado pelo município em 2000, Monumento ao Trabalhador, no alto da Garganta do Dilermando, encontra-se abandonado e deteriorado (Foto: Leonardo Costa)
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No topo da Garganta do Dilermando, extensão da Avenida Rio Branco inaugurada em 1972, um painel em concreto homenageava os trabalhadores. A placa permanece. A reverência, no entanto, tornou-se virtual. A inscrição em bronze – “Artífice do progresso – Juiz de Fora reconhece a imortalidade do seu trabalho” – resta como sombra na placa cuja lateral esquerda apresenta relevo de uma fábrica. Referências a uma cidade que em 1976, ano em que a peça foi instalada, perseguia a industrialização tão cara a seu passado. O tempo tratou de suprimir todas as informações contidas no monumento tombado pelo município em 2000, junto de outros 29 elementos urbanos de Juiz de Fora.

Em estilo moderno, a peça dialoga com as jardineiras ortogonais e as pedras circundantes. Tudo degradado. Bastante suja e cercada por oferendas religiosas e por abrigos de moradores de rua, a placa compartilha da mesma realidade vivida por monumentos mais populares na cidade, como o arruinado Painel do Centenário, de Di Cavalcanti, instalado na Praça da República, diante do Cemitério Municipal.

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Ainda que possua dispositivos prevendo a conservação de bens tombados, a cidade não dispõe de mecanismos que regulem a manutenção de esculturas públicas. Segundo a Lei Nº 10.777, sobre a proteção do patrimônio cultural local, o tombamento de elementos urbanos como o “Monumento ao Trabalhador” pode ser justificado por ser portador “de referência à identidade juiz-forana” e sua conservação ser de interesse público.

Contraditoriamente, o inventário de proteção do patrimônio cultural produzido pela Divisão de Patrimônio Cultural (Dipac), setor da Funalfa, descrevendo a situação do bem em 2013, confirma a posse e responsabilidade da Prefeitura para com o elemento e aponta a deterioração. Passados mais de três anos, o cenário é o mesmo. De acordo com informações da assessoria da Secretaria de Atividades Urbanas, elementos como “os bustos que são públicos e instalados em locais públicos” são limpos pela Empav, que em sua página na internet não faz qualquer referência aos monumentos locais.

O que contam as paisagens

Estátua de corpo inteiro faz reverência ao ex-presidente Getúlio Vargas na Praça do Riachuelo (Foto: Marcelo Ribeiro)

Desprovido de suas características originais, o “Monumento ao Trabalhador” tem sua finalidade – a homenagem – usurpada, e sua permanência, então, só se justifica e se ampara pelo tombamento. Segundo o arquiteto e urbanista e professor do programa de pós-graduação em ambiente construído da UFJF Antônio Colchete Filho, “todo o amplo conjunto de elementos urbanos, que se instala nas cidades, tem sentidos e/ou funções variados. Podem ter sentido simbólico e função utilitária (um mero poste de luz que é referência para uma cidade!) ou podem ter intenção simbólica e serem vistos como de mera função utilitária (um busto que se tornou apoio para uma barraca de camelô!).”

“A cidade e seus cidadãos dão sentido a esses elementos ao longo do tempo, para além de sua condição inicial”, aponta o pesquisador, pontuando a diversidade presente em Juiz de Fora. “Alguns são históricos e consagrados, como o Cristo, outros tantos passam despercebidos. É assim mesmo, as cidades não comportam o excesso de informação nos espaços públicos. Há, também, uma recente instalação de elementos artísticos em ruas e praças, que deve ser vista com cuidado, pelo risco de saturação da paisagem.”

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Em seu artigo 13, o Código de Posturas do município reconhece estátuas e monumentos como mobiliário urbano e, no artigo seguinte, prevê a autorização do Poder Executivo para que sejam instalados no espaço urbano. Entretanto, inexistem critérios fixados para que haja uma instalação ordenada de esculturas públicas, o que é feito pela Secretaria de Atividades Urbanas. Conforme informações da assessoria de imprensa da pasta, para a fixação de um monumento “é necessário entrar com uma petição em qualquer um dos Espaços Cidadão da Prefeitura”.

Presentes em diferentes pontos – na maioria trevos – da cidade, marcos das associações Rotary Club e Lions Club passaram, segundo a Prefeitura, por tal processo de aprovação. Curiosamente, no entanto, foi permitida a instalação de um marco do Lions justamente no trevo que leva o nome do juiz-forano Arlindo Daibert, um dos artistas visuais mais reconhecidos e aclamados da cidade. Para Eveline Amaral, irmã do artista, trata-se de um contrassenso de difícil compreensão.

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“As cidades não comportam o excesso de informação nos espaços públicos. Há, também, uma recente instalação de elementos artísticos, que deve ser vista com cuidado, pelo risco de saturação da paisagem”

Signos da história da cidade

Em fase de conclusão, a dissertação de mestrado do arquiteto e urbanista Fabrício Teixeira Viana, pesquisador do Núcleo Ágora/CNPQ, na UFJF, carrega o título “Marcos na paisagem urbana de Juiz de Fora” e mergulha na história dos elementos locais. “A inserção de monumentos iniciou-se em 1894 com a colocação de um obelisco em comemoração ao início das obras de rede de esgotos na cidade, no espaço onde hoje fica a Praça Antônio Carlos. Antes disso, a bibliografia referente à história local relata apenas a existência de alguns cruzeiros, que garantiam a ocupação religiosa, além de chafarizes, elementos de importância para a infraestrutura urbana da época. Foi a partir do século XX que o espaço público, principalmente da sua área central, começou a receber monumentos diversos”, pontua, destacando o deslocamento da peça, que “passou pelo Largo do Riachuelo e hoje se encontra na praça Mariano Procópio”.

De acordo com a arquiteta e urbanista Camila Caixeta Gonçalves, da mesma turma de Fabrício no Programa de Pós-Graduação em Ambiente Construído da UFJF, é importante que a história dos elementos seja conhecida. “A cidade é representada através desses elementos, capazes de revelar informações sobre as relações sociais que existiram e ainda existem nos espaços públicos. Os monumentos são signos da história urbana e entendidos como grandes referenciais na cidade, servindo de suporte para as memórias, sentimentos e experiências dos habitantes da cidade”, analisa a estudiosa, reforçando a potência da educação patrimonial para revitalização local.

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Descontinuidades

Financiadas pela Lei Murilo Mendes, dispositivo de incentivo cultural da Prefeitura, as seis esculturas criadas pelo artista visual Adauto Venturi que ocuparam pontos distintos da cidade devem ser retiradas dos locais onde foram instaladas ainda neste mês. Como contrapartida do investimento público, Venturi doou duas delas ao município: a releitura do deus Atlas, na Praça Jarbas de Lery, em São Mateus, e a escultura “Ex-escravo louvando aos céus pela sua libertação”, no trevo em frente ao Parque da Lajinha.

Após assinar um termo de doação, o artista repassou, também, a responsabilidade pela manutenção das obras. “Já encontrei a placa de identificação quebrada e a luz queimada. Antes eu cuidava, mas agora passei a bola e não sei quem irá cuidar”, afirma Venturi que, reconhecido por suas pinturas, idealizou o projeto numa viagem à Europa, em 2010. “Nos três meses em que viajei, deparei-me com muitas obras e instalações nas ruas. Haviam exposições nas praças, cada semana uma diferente.”

“Quando retornei, vi que não temos nada, só os bustos no Parque Halfeld e outros poucos. Nada mais”, comenta ele, referindo-se a peças que preservam, sobretudo, ideários, alguns inesperados, como a homenagem da comunidade lusitana a Camões, o poeta, outros questionáveis, como a reverência ao ex-presidente Getúlio Vargas, na Praça do Riachuelo. “Juiz de Fora agradecida”, diz a placa instalada abaixo da estátua de corpo inteiro – formato raro na cidade – do político que em nada guarda relação singular com a localidade.

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Para Venturi, “essas homenagens são necessárias, mas não só isso. É preciso ir além, ver a expressão dos artistas da cidade”. Após quase dois anos da instalação do primeiro trabalho, o artista é otimista e acredita ter tido um saldo positivo: “Apesar de uma das obras ter sido depredada em determinado momento, as outras cinco permaneceram intactas”, comenta ele, na expectativa de que suas duas obras doadas não partilhem do mesmo destino de “Relógio solar”, do artista Álvaro Lobo. A obra, instalada no canteiro entre os bairros Cascatinha e Estrela Sul, chega a seu sétimo ano completamente suja, quebrada e repleta de rachaduras. Ironicamente, o mesmo Poder Público que financiou e recebeu a escultura, é o que a negligencia.

O exemplo mora ao lado

Contradição: marco do Lions está instalado no trevo que leva o nome do Arlindo Daibert, um dos artistas visuais mais reconhecidos de Juiz de Fora (Foto: Fernando Priamo)

“A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte”, escreveu João do Rio, o cronista que definiu a alma da urbe carioca. Sobretudo humana, essa rua da concepção literária do jornalista justifica, segundo Mariana Várzea, a configuração do Rio de Janeiro como um “museu a céu aberto”. Autora de “Arte ambiente cidade” (Editora Uiti), a museóloga e subsecretária de Cultura do Estado defende uma disposição natural da ex-capital brasileira para reunir diferentes e expressivos monumentos públicos. No livro escrito em parceria com o arquiteto Roberto Ainbinder, com fotografias de Cesar Duarte, Mariana inventaria 570 obras, dentre chafarizes, estátuas e esculturas em ferro.

“O Rio tem obras do século XVII, mais jesuíticas e monumentais, e também do século XXI. Isso proporciona caminhar pelas ruas compreendendo a história da arte e a história dos monumentos”, afirma a pesquisadora, pontuando o vanguardismo da cidade. “Quando faz os Arcos da Lapa (pensado para ser um aqueduto), no século XVII, a cidade cria outro nível de intervenção, oferecendo um olhar artístico para a rua.” De acordo com Antônio Colchete Filho, autor de “Praça XV: Projetos do espaço público” (Editora 7 Letras, Faperj), a permanência da cidade como suporte de importantes intervenções transcende a política e atinge camadas mais subjetivas da construção social.

“O Rio é um lugar de forte identidade nacional, logo intervir ali é uma possibilidade de ter grande visibilidade de ações. O espaço público ajuda a consagrar uma intervenção que é bem aceita pela população, assim como tem o poder de rejeitar também. Nesta relação complexa da obra com o lugar se constrói grande parte da memória e identidade urbanas. A Torre Eiffel, que era um monumento temporário, foi rejeitada inicialmente em Paris, e depois a população se armou de paus e pedras para impedir sua retirada”, analisa o professor e pesquisador.

Educação patrimonial

Ainda que não disponha de regulamentações precisas acerca da aquisição e conservação de seus elementos urbanos, a capital fluminense alcança status exemplar no país por apostar em tais dispositivos para revitalizar espaços. “Quando um espaço público ganha uma obra de arte pública ganha, também, potência de revitalização. A esquina deixa de ser esquina para ser um pequeno salão de arte. O lugar ganha tridimensionalidade simbólica”, aponta Mariana, destacando um programa municipal da década de 1990 que incentivou a aquisição de novas peças.

Responsável pela manutenção de 1.374 monumentos públicos cariocas, entre bustos, chafarizes, lagos e ruas com calçamento em pé-de-moleque, a Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente da cidade possui uma gerência exclusiva para esses elementos. De acordo com informações da assessoria da pasta, “quando o caso é de reposição de peças em bronze de um monumento e existe a necessidade de restauração do mesmo, por exemplo, é necessário que seja elaborado um orçamento para um projeto com as especificidades da peça e para contratação do serviço. Isso não faz parte do orçamento destinado à gerência, e é necessária a aprovação do secretário para a sua execução.”

Segundo Mariana Várzea, para a gestão eficiente e historicamente justa de monumentos públicos, é necessário que exista um programa complexo, resultante de parcerias entre comunidade, Poder Público e órgãos de pesquisa histórica e cultural. “A conservação da arte pública é um combinado entre a ação da prefeitura e uma sensibilização da população em relação à sua importância. A gente só preserva o que conhece”, adverte. O desconhecido, portanto, como o “Monumento ao trabalhador”, na Garganta do Dilermando, pode ser, apenas, ruína a simbolizar decadências muito mais profundas.

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