
Nando Costa e Del Guiducci, vocal do Martiataka
Considerando que somos brasileiros e vivemos no país do futebol, o papel do produtor na gravação de um álbum seria equivalente ao papel de um técnico para uma seleção de craques da bola. Um time cheio de estrelas sem um bom técnico provavelmente não teria um desempenho tão bom quanto um time competente, em que todos os membros têm os seus papéis definidos, guiados por um bom técnico. O papel de um produtor vai desde as reuniões iniciais com a banda para definir qual será o foco do trabalho em termos de som, a escolha do repertório e arranjos até a fase final da gravação do CD, mixagem e pós-produção. Em alguns casos, os produtores atuam até na parte de imagem do artista, mas geralmente não é o foco principal. Um bom produtor pode tornar um álbum que tem boas composições em uma verdadeira obra de arte e um produto com alto poder comercial. Sobre os desafios da profissão e os bastidores da gravação do recém-lançado CD "Marginal", do Martiataka, o produtor Nando Costa, via Facebook, conversou com a Tribuna, diretamente de Boston, nos EUA.
Tribuna – O que foi mais fácil e mais difícil neste trabalho com o Martiataka?
Nando Costa – Produzir "Marginal" do Martiataka foi sensacional. O trabalho de um produtor é muito facilitado quando o material inicial da banda já é bom. E no caso do Martiataka, isto foi fato. O processo de pré-produção e gravação foi muito rápido comparado aos padrões do mercado. A banda me enviou o material com a gravação dos ensaios, as ideias e os rascunhos das músicas previamente, e quando cheguei ao Brasil, para iniciar os trabalhos, já tinha em mente ideias concretas para alguns arranjos e estruturas de músicas.
– E isso levou quanto tempo?
– Trabalhamos intensamente por três semanas e tivemos cerca de oito ensaios antes de entrarmos em estúdio. Com o material básico definido, fomos para o estúdio e gravamos todo o álbum em seis dias. Algumas gravações extras de backing vocals e metais foram realizadas pela banda mais tarde, e o material foi enviado pela internet para inserção no álbum. O meu trabalho de edição, mixagem e masterização ocorreu nos últimos dois meses, e a maior dificuldade foi o cronograma apertado, pois tive que conciliar este trabalho com a minha graduação aqui na Berklee College of Music (Boston, EUA). Tirando o fator tempo, eu posso dizer que este foi um dos melhores trabalhos que eu já fiz em minha carreira, pois foi muito fácil lidar com a banda e trabalhar as músicas da melhor maneira possível. Eles confiaram no meu trabalho totalmente, e assim eu pude guiar o projeto da forma que eu julguei ser a melhor não só para a banda, mas para o CD em si.
– Com relação ao aparato técnico que você usou para mixar e masterizar o disco nos EUA, foi tudo feito de "casa"?
– Hoje em dia, com o avanço da tecnologia no mundo do áudio, é possível fazer muitos trabalhos e até mesmo alcançar uma qualidade profissional trabalhando em seu próprio laptop. O processo de mix e master de "Marginal" foi uma mistura de recursos que eu tive à disposição no momento. Boa parte dos trabalhos foi realizada com o uso de meu laptop em meu home studio em Boston, onde disponho de monitores de alta fidelidade HS-80M’s e um par de fones de ouvido profissional para mixagem e masterização Beyerdynamics DT880. Parte das edições e das mixagens também foi realizada nos estúdios da Berklee College of Music, onde tenho acesso a diferentes tipos de salas de mixagem, inúmeros equipamentos analógicos e monitores de referência, e todos os ambientes têm um tratamento acústico mais aprimorado. Todos estes recursos me possibilitaram uma análise mais apurada do produto final e me ajudaram a levar "Marginal" ao padrão de qualidade em que ele está sendo lançado.
– Outros trabalhos paralelos?
– Além do álbum "Marginal", nos últimos oito meses, produzi e gravei também o álbum "Alma das andorinhas", do violonista João Paulo Lanini (em fase de lançamento), e "Da brisa ao temporal", da banda Hakunna (em processo de edição e mixagem). Todos estes trabalhos foram executados no estúdio Versão Acústica, em São João Nepomuceno, de propriedade do músico Emmerson Nogueira.
– Aliás, tem um trabalho dele que provavelmente será produzido por você…
– Ele é um cara muito envolvido musicalmente com todos os projetos que são realizados lá no estúdio, o que traz muita qualidade aos trabalhos e confiança a quem faz o seu trabalho lá. Desta forma, tivemos o primeiro contato. Ele me viu trabalhando mais intensamente nos últimos dois álbuns, e, recentemente, veio este convite de poder trabalhar em seu próximo álbum. Para mim, já é um grande começo de carreira, pois acabo de lançar estes excelentes trabalhos na região de Juiz de Fora, me graduo em engenharia de áudio e produção musical pela Berklee no próximo mês e agora olho adiante para um importante trabalho com este grande nome da música brasileira.

