As feições da mulher que sai de uma antiga caixinha de maquiagem em nada lembram às de uma infanta. Em Te conservaras siempre joven, o artista Frederico Merij traz à tona um debate sobre a vaidade em uma releitura da obra do pintor da corte espanhola do Rei Felipe IV, Diego Rodriguez de Silva y Velázquez. Apropriando-se do diálogo entre diversas técnicas, o artista mineiro dá novos e peculiares sentidos às obras do pintor espanhol na exposição Del clásico gusto español, em cartaz na Galeria Poliedro do Museu de Arte Murilo Mendes.
Objetos, cartões postais e álbuns expõem as novas linguagens propostas por Merij, ao retratar o universo espanhol. O gosto pela arte espanhola povoa o imaginário de Merij, pontua Cláudia Matos (artista plástica e doutoranda em artes visuais na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro), que assina o texto que introduz os visitantes à mostra. Deslocamento é o termo que melhor define esta exposição, pensada exclusivamente para o Mamm. Além das obras de Velázquez, uso referências da história para dar forma a meu próprio trabalho, explica Merij.
No célebre quadro de Velázquez, As meninas, de 1656 – uma das obras mais analisadas e comentadas da história da arte -, a infanta Margherita aparece rodeada de suas damas de companhia e pelo próprio pintor. O mistério do jogo de espelhos que ronda a obra, além de inspirar autores consagrados ao longo de suas carreiras, como Picasso, Goya e Salvador Dalí, instigou a criatividade de Merij. Ele extrapola diferentes técnicas ao deslocar infantas e infantes para contextos atemporais, observa Cláudia. Infanta é a princesa que, mesmo filha do rei, não herda a coroa, e as infantas de Velázquez sempre foram representadas ainda meninas. Porém, nada é eterno, e a idade também chega às princesas, dispara Merij.
Embora a infanta Margherita seja personagem principal da exposição, cores, religiões, culinária, vestes e mitos espanhóis são levados em conta por Merij. As obras assumiram toques de pop art, dadaísmo e arte conceitual. Texturas e diversas técnicas são aplicadas não somente aos quadros, mas também a objetos, desenhos, grafismos e colagens.
Outros personagens da corte também são lembrados pelo artista. Também retratado por Velázquez em O Infante Felipe Próspero, o príncipe Felipe ganha ares de misticismo nas mãos de Merij. O personagem norteia as discussões sobre amuletos mágicos e crendices contra males e doenças – caso dos penduricalhos presentes na obra original – que, na releitura de Merij, Caixa para o príncipe próspero (Caja mágica), recebem símbolos de boa sorte, como a figa e o anil.
DEL CLÁSICO
GUSTO ESPAÑOL
Terça a sexta, das 10h às 18h
Sábados e domingos, das 13h às 18h
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant 790 – Centro) 3229-9070
